Um Filme é para um Livro

Este alerta aqui em particular andava meio relapso em contribuir para o nosso amável bloguinho, mas revirando suas estantes para arrumar alguns livros recém-adquiridos encontrou o pretexto ideal: um exemplar do livro Um Filme é Para Sempre (Companhia das Letras, 440 páginas), de Ruy Castro, comprado faz mais ou menos um mês na Bamboletras do Guion enquanto esperava minha senhoura (e, felizmente, uma alerta ainda mais relapsa do que eu) sair do Kung Fu. Contrariando a tendência em voga no atual cinema, em que é mais fácil ver boi voando do que uma ideia que não tenha saído de algum outro lugar, Um Filme é Para Sempre não é um livro que virou filme. São dezenas de filmes que viraram um livro.

Além de seu grande talento como biógrafo, fruto de um esforço de reportagem respeitável a cada livro do gênero que publica, Ruy Castro é um escritor de prosa inspirada, e essa é a chave para o prazer com que se lê seus livros, mesmo aqueles que não foram fruto da reportagem investigativa árida que deu origem a Estrela Solitária e O Anjo Pornográfico. Em Um Filme é Para Sempre, a exemplo do que já havia feito em meados dos anos 90 com Saudades do Século 20, Ruy Castro não é apenas um repórter contando o que apurou, mas um elegante charlador dividindo com seus leitores informações que recolheu em mil e uma outras fontes, empacotou em sua prosa ao mesmo tempo refinada, inventiva e coloquial e serviu como um acepipe delicioso para dar mais gosto à conversa.

O livro reúne 60 artigos que já haviam sido publicados em diversos veículos de imprensa como Veja, Folha de São Paulo, Bravo!, Jornal do Brasil e O Estado de São Paulo – este último, o jornal que publicou a maioria dos textos. É um volume tão interessante que eu, mesmo já tendo lido a prova em xerox que a editora me enviou na época do lançamento do livro, há uns três anos, achei por bem adquiri-lo em seu formato nobre de papel – que, no futuro, quando a massa ignara estiver zumbificada em frente a seus leitores virtuais, será objeto de culto de alguns poucos e incompreendidos esnobes como este que vos escreve.

Ah, sim, eu falava do livro. Os artigos ali reunidos mesclam crônica e crítica, e navegam dos primórdios do cinema a filmes contemporâneos – pero no mucho, uma vez que 2001: Uma Odisseia no Espaço, os filmes de Roger Corman e Bonnie & Clyde parecem ser o limite cronológico para a maioria dos textos do livro. São histórias de grandes filmes e de grandes personagens que ajudaram a consolidar a linguagem do cinema pelas décadas seguintes – como Busby Berkeley, Mark Sandrich, passando pelo maquiador Max Factor e pelo roteirista William Goldman, para citar uma ínfima parte.

Ao resenhar a biografia deste último, Adventures in the screen trade, Ruy Castro não deixa de implicitamente tomar o partido do roteirista, insatisfeito com a hegemonia alcançada nos tempos modernos pelo conceito de “cinema de autor”  inventado  pelos franceses – e que fez dos diretores os únicos iluminados criadores de uma obra que, na maior parte dos casos, é o resultado dos esforços de uma equipe talentosa de técnicos e artesãos relegados a segundo plano pela frase “um filme de… Fulano“. Castro até mesmo compartilha uma história engraçadíssima contada no livro de Goldman, protagonizada pelo roteirista Ernest Lehman:

Lehman estava dando uma entrevista num Festival de Cannes a respeito de Trama Diabólica (…), do qual ele escrevera o roteiro, quando um jovem crítico francês lhe explicou como tinha decifrado a complexa simbologia na placa de um carro que aparecia no filme: 885 DJU. Lehman ouviu a longa teorização com o maior interesse, mas observou:
‘Olhe, detesto desapontá-lo, mas a razão pela qual usei aquele número na plac é que era o número da placa do meu carro, e achei que era legalmente mais seguro do que inventar uma outra que pudesse pertencer a alguém’
“.

Os textos de Ruy Castro, como se vê, são leituras, não apenas compilações. Percebe-se que cada um deles traz uma tese de fundo, com a qual se pode concordar ou não. Ao falar sobre Jerry Lewis, o herói da infância de mais de uma geração de espectadores, e sobre a tumultuada parceria entre ele e Dean Martin, Castro aventa que, apesar de Lewis ter sido desde aquela época a metade mais talentosa da dupla, era Martin que Lewis almejava ser: o sujeito tranquilo, desencanado, cantor talentoso e que na tela projetava uma imagem que era a essência do “cool” – eu disse “cool”, prestem atenção. Ao releembrar a trajetória dos talentosos dançarinos/cantores/atores Irmãos Nicholas, Castro arrisca que os dois elegantes bailarinos negros só não tiveram a projeção devida em seu tempo (anos 30 e 40) justamente por serem negros.

Ruy Castro é um delicioso contador de histórias, e seus textos são, na maioria, declarações apaixonadas de admiração por todos aqueles que o ajudaram a construir seu mundo de referências. O que explica também a já mencionada presença tímida do cinema contemporâneo, já que Castro é um entusiasta do grande cinema americano da primeira metade do século 20, de alguns filmes franceses da época em que Ruy e seus amigos os devoravam no Cine Payssandu e até de produções nacionais.

Há também uma defesa extensa e acalorada do musical como gênero – algo que agradaria ao colega Espantalho – e uma série de informações saborosas. Sabiam os senhores que a contagem regressiva só foi adotada como forma de antecipar o lançamento de uma nave ao espaço depois que o alemão Fritz Lang a inventou para o filme A Mulher na Lua, em 1930 (até ler o livro eu não sabia)? “Numa cena em que o foguete vai ser disparado, o roteiro previa uma contagem de 1 a 10. Mas Lang temeu que a cena não funcionasse, porque a platéia não podia saber quando a contagem terminaria. Então lhe ocorreu contar ao contrário, de 10 a zero — o countdown — e sua idéia foi adotada pela ciência“.

Sabiam também que, apesar da longa tradição inglesa e francesa na área da ficção científica, a idéia clássica do “robô” foi criada por um checo (essa eu sabia)? “Foi o escritor checo Karel Chapek (1890 – 1938), em sua peça R.U.R., de 1921 — os robôs da história seriam escravos mecânicos e o nome vinha da expressão robota, “trabalho forçado”, em checo“. Chapek, a propósito, que alguns grafam Tchápek, teve nos anos 90 um volume de contos, Histórias Apócrifas, lançado pela Coleção Leste, da editora 34, mas acredito que a esta altura já esteja esgotado. Falo dele noutra ocasião, quando tiver paciência e determinação para um novo post.

Lobo bobo

As roupas rasgadas são fashion, mas uivar para a lua é tãão século 19...

A pergunta que O Lobisomem, filme de Joe Johnston com Anthony Hopkins (apático) e Benicio Del Toro (sonolento), tem me provocado desde que saí do cinema é: ainda há espaço para os monstros de horror clássicos? Será que essas criaturas, que experimentam tentativas de renascimentos periódicos  na cultura pop de tempos em tempos, ainda têm o que dizer ao mundo contemporâneo de terrores mais prosaicos e comezinhos?

No momento atual, quem domina o cenário são os vampiros, trazidos de volta em versões românticas e assexuadas, tão repletas de açucar que me admira que os atuais chupadores de sangue não sejam diabéticos – favor que devemos à escritora e dona-de-casa gorda Stephenie Meyers. Com o horror dominando outra vez a cena, ainda que um horror que não assusta ninguém, talvez o terreno se abra para que outras manifestações mais dignas de um dos gêneros mais antigos e nobre da arte seja revitalizado, correto? Bom, se uma dessas manifestações for esse filme do Lobisomem, esqueça.

O filme segue de perto a história da produção de 1941 dirigida por George Waggner e estrelada por Lon Chaney – o Jr., filho do consagrado “homem de mil faces” que havia criado um Mr. Hyde apavorante com muito pouca maquiagem. Mas os produtores, espertos, tiraram o “jr.” do rapaz dos créditos e do cartaz, provavelmente para induzir ao erro os espectadores numa época em que não havia blogs ou fóruns de discussão na internet para pôr a boca no trombone.

Mas o filme: o aristocrata Larry Talbot, que há anos deixou a mansão rural da família para excursionar pelo mundo como ator de prestígio (nos palcos nova-iorquinos, principalmente, é que o filme insinua na breve cena a respeito), recebe, durante uma passagem por Londres, uma carta informando que o seu irmão mais novo desapareceu. A correspondência é assinada pela bela noiva do irmão, vivida pela atriz gracinha inglesa Emily Blunt (e que em vários momentos do filme parece muito com a francesa igualmente gracinha Marion Cotillard, a Piaf), e é óbvio que nos tempos de horror açucarado que vivemos ela será o interesse romântico futuro do protagonista. O irmão aparece morto, aparentemente retalhado por uma espécie de fera. É o terceiro crime semelhante, que os supersticiosos locais (sim, a clássica cena de discussão na taberna está lá também) atribuem aos ciganos que recém acamparam nos arredores da aldeia: seja pela magia perversa dos forasteiros seja pelo urso que a tribo arrasta numa jaula, não se sabe direito com que finalidade a não ser oferecer um medinho conveniente aos aldeões. Essas suspeitas levam Talbot ao acampamento no exato momento em que os ciganos são atacados por um lobisomem e ele, para dar razão ao filme, será mordido pela criatura e amaldiçoado. O resto já se sabe.

Vampiros e lobisomens partilham, mais do que a imortalidade fictícia, a presença constante em folclores ancestrais – no caso dos lobos, a Grécia antiga, tanto que o romano Ovídio, em suas Metamorfoses, recupera a história do rei da Arcádia, Licaon (ou Licaão, depende do tradutor), castigado por Zeus com a transformação em um lobo por oferecer ao Todo-poderoso carne humana em um banquete, para pôr a prova a onisciência do senhor dos deuses. Embora dotado de inúmeras variações regionais, o homem tomado pela forma de um lobo devido a uma maldição é um dos elementos mais clássicos do repertório do horror – então por que não consegue emplacar uma no cinema desde os anos 198o (embora o Espantalho curta o Lobo com o Jack Nicholson, de 1994)?

Na literatura, até que o lobisomem tem visto uma que outra representação mais digna, como em contos de Neil Gaiman protagonizados por um lobisomem chamado exatamente de  Larry Talbot, em homenagem ao personagem original de 1941. Mas nos cinemas, os lobos têm sido relegados ao papel de coadjuvantes dos mais glamourosos (e às vezes xaropes) vampiros: na sacarínica Crepúsculo, já citada, o lobo índio está lá por dois motivos: fazer as meninas suspirarem no filme quando tira a camisa e servir de terceiro elemento em um triângulo amoroso de cartas marcadas desde o início, montado para que a colegial chatinha fique feliz para sempre (mesmo) com o vampiro emo. Não sei se tal ingenuidade não é uma virtude, uma vez que a série Underworld, anterior, era sombria e pretensiosa, por isso mesmo muito chata – e lá também a protagonista era a vampira Kate Beckinsale (em couro preto justíssimo, única coisa de mérito no filme), mudando de lado na guerra ancestral entre os chupadores de sangue e seus ex-escravos lobisomens.

O problema é que esse novo Lobisomem não tem vigor suficiente para tornar os homens-lobo pop outra vez. Amparado na ambientação sombria da Inglaterra vitoriana, Joe Johnston até começa criando um bom clima (tem de ser muito incompetente para não conseguir um clima numa mansão inglesa no meio do mato, convenhamos). Mas esse mérito é logo desperdiçado e substituido pela exasperação do espectador diante daquelas tentativas manjadas de sustos previsíveis: câmeras que se deslocam para onde não há nada e depois voltam para o espaço ocupado por uma ameaça enquanto a trilha de efeitos sobe ao volume máximo.

O lobo que se apossa de Talbot é uma criatura de natureza bestial que não pode ser controlada pela sua personalidade humana – e nesse sentido, se assemelha mais ao Mr. Hyde de O Médico e o Monstro ou mesmo ao Hulk dos quadrinhos.  A alusão não é despropositada, uma vez que o filme e sua colcha de referências inclui ainda King Kong e muito sangue e tripas ao estilo do terror barato contemporâneo. O problema – que não é pequeno para um filme chamado “O Lobisomem”  – é que a produção piora sensivelmente quando a criatura que lhe dá nome entra em cena. Talvez isso seja uma variação do que eu chamo de “Efeito Peter Jackson”. Explico: depois que o à época gorducho diretor provou que tudo era passível de ser mostrado com computação gráfica, parece que todo mundo quer VER tudo em cena (monstros? beleza. Trolls? beleza? travelling por dentro de uma mina lotada de trols e monstros? Beleza. Hulk que parece um balão de gás verde? beleza),e isso reduz bastante o impacto em filmes de terror – simplesmente não dá para assustar com bonecos de pixels uma gurizadinha que cresceu matando zumbis deformados no videogame. Talvez para salvar-se o horror precise voltar às origens, usando mais da sugestão e menos da imagem, recuperando a herança de uma época em que não se desenhava qualquer coisa no computador.

O novo Sherlock

Watson, você está usando salto alto?

A grande pergunta que pairava no ar acerca do Sherlock Holmes dirigido por Guy Ritchie – com a escolha inesperada de Robert Downey Jr. para o papel e com Jude Law como um dos poucos Watsons do cinema mais altos que o próprio Holmes _ era se o estilo marcado do diretor, já sobejamente conhecido por filmes como Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes conseguiria preservar, como havia prometido, a essência básica do personagem. Se Ritchie cumpre, ao menos em parte, essa tarefa, é porque, como qualquer personagem  desenvolvido reiteradamente por seu autor ao longo de 30 anos, quatro romances e 56 contos, Holmes tem tantas facetas que, para uma mudança de abordagem, só é preciso saber selecionar o material certo.

A origem da adaptação de Guy Ritchie é uma série de histórias em quadrinhos escrita por Lionel Wigram – uma das coisas que deixaram o autor deste texto bem preocupado, na época, foi que o Omelete anunciava como uma grande qualidade o fato de a adaptação “deixar de lado algumas frescuras vitorianas e se concentrar na ação“. Pera lá, meu fio: algum de vocês leu o Sherlock? O que vocês chamam de “frescuras vitorianas” é hoje uma das grandes qualidades literárias das histórias de Conan Doyle: o leitor, na maioria das histórias de Holmes, não é convidado a deduzir junto com ele, pelo contrário, sempre precisa da presença de Watson para entender como Holmes chegou às conclusões que, à primeira vista, parecem mais magia do que lógica dedutiva. Logo, o mistério, o enigma, não é o principal dos assim chamados “romances policiais” de Arthur Conan Doyle, e sim dois eixos centrais: o retrato da Londres vitoriana e a dinâmica da relação entre Holmes e Watson. Abandonar um desses pilares em nome de uma supostamente meritória “ação” parecia o atalho certo para que o edifício ruísse.

Querido, que história é essa de "frescuras vitorianas"?

O filme comprova essa premissa: o que ele tem de válido vem da nova interpretação para esses dois pilares: a relação entre os dois personagens principais e o retrato cru da Londres suja de becos e vielas do período. Já a ação em si não empolga pela deficiência mais básica de um cineasta: Ritchie parece ter enrolado todo mundo esse tempo todo se apresentando como um diretor de ação, quando, pelo que se vê em Holmes, fica claro que ele não sabe filmá-la. Talvez Ritchie seja bom com tiroteios de automáticas e sujeitos sentados atrás de uma mesa de bar ou de pôquer, mas sua condução das (excessivas) cenas de luta em Sherlock Holmes é atroz: planos entrecortados, cortes frenéticos em ambientes escuros que não dão muita chance ao espectador de saber quem está batendo e quem está apanhando. A única exceção é quando Holmes planeja golpe por golpe seus movimentos em uma luta (algo que ele faz na cena inicial e depois na do pugilato). Mas aí fica fácil entender: Holmes visualiza seus golpes em câmera lenta e depois o diretor repete as cenas em ritmo acelerado. Vendo duas vezes, é mais fácil. Quando a luta não conta com esse recurso, é uma mixórdia.

Mas voltando ao material original. Muitos pretenderam reclamar de um certo desvirtuamento do personagem nas mãos de Ritchie, o que é bobagem: o roteiro de Sherlock Holmes apenas se propõe a fazer uma seleção de elementos menos “família” nas histórias criadas por Conan Doyle, elas próprias plenas de contradições e incongruências que o autor deixou passar de um texto para o outro. O Holmes do filme é um  excêntrico que não consegue manter a tranquilidade quando está longe de um caso, o que, se combina com histórias como O Signo dos Quatro, contradiz a afirmação de Watson em Um Estudo em Vermelho de que Holmes “tinha maneiras tranquilas e hábitos regulares”.

O Holmes do filme é tão exímio com os punhos quanto com seus afiados raciocínios, como já falamos – e isso também vem das histórias de Conan Doyle. No conto O Ciclista Solitário, incluído no volume A Volta de Sherlock Holmes, o detetive é agredido por um brutal cavalheiro que, incomodado com as perguntas que o investigador anda fazendo, parte para cima dele. Holmes reage e seu oponente leva a pior. A diferença do filme, entretanto, é que em Conan Doyle não vemos a violência. Ela é narrada por Holmes depois de retornar da viagem em que se deu o episódio. Como convinha à época, Doyle mostrava pouco e narrava muito. Os episódios são contados, não descritos.

No romance O Signo dos Quatro, Holmes recebe de um boxeador profissional, McMurdo, com quem havia lutado em um evento beneficente, o elogio de que poderia ter ido longe se se dedicasse a lutar profissionalmente, logo, sua habilidade marcial não é estranha. O que realmente desconcerta os leitores no novo filme, contudo, é que o Watson do filme também luta muito bem. Ritchie explica essa circunstância pelo fato de Watson ser ex-militar, o que seria bastante plausível. A não ser pelo fato de que já na primeira história do detetive, Um Estudo em Vermelho, o fiel auxiliar conta que precisou reformar-se do exército britânico, no qual era oficial médico, depois de levar um tiro de mosquete no ombro _ o que resulta em fratura do osso e devia fazer um estrago considerável em meados do século XIX. Em outros livros, Doyle se confunde e o membro ferido passa a ser a perna, mas tanto em um caso como no outro seria de duvidar que alguém recuperado de um tal ferimento poderia ser capaz das proezas atléticas que o assistente de Holmes exibe no filme.

Holmes, seja sincero. Vou precisar da lupa?

Ritchie atualiza com mais violência e brutalidade elementos que vêm das histórias de Doyle – o poder de dedução avassalador de Holmes e os próprios personagens – Rachel McAdams vive a Irene Adler de Um Escândalo na Bohemia, a única mulher que realmente ludibriou Holmes (embora o contato dos dois na literatura, nesse único conto, seja breve e sem a sensualidade do filme). E a deleitável ruivinha Kelly Reilly encarna Mary Morstan, a noiva de Watson e pivô de certa tensão entre os dois amigos – claro que, para isso, Ritchie também inventa a cena do médico apresentando a amada ao melhor amigo, já que, na literatura, Watson conheceu Mary Morstan como cliente do próprio Holmes, na aventura O Signo dos Quatro. A respeito disso, a propósito: essa história traz desdobramentos sombrios envolvendo a família da moça que bem poderiam embasar uma continuação do filme, quem sabe?

A crueza de Ritchie pode provocar algum choque nos que só conhecem Holmes de sua versão higienizada por centenas de adaptações para o cinema. Mas ele ainda não vai tão longe quanto os livros – basta lembrar que a primeira cena do romance O Signo dos Quatro é a de um Holmes agitado pelo tédio entre os enigmas que se dedica a resolver aplicando um pico de cocaína na veia (numa época em que a cocaína ainda era vendida em farmácia, claro). Essa cena em particular não está no filme, ainda que fique subentendido que Holmes, quando não está se entretendo com enigmas desafiadores, se entrega a atividades perigosas para si mesmo – e Downey Jr. profere, na tela, a justificativa textual que Sherlock Holmes usa em O Signo dos Quatro: “O meu espírito rebela-se contra a estagnação”.

O que aconteceria se…

Há um tipo peculiar de ficção que nos quadrinhos Marvel ganhou o nome clássico de “O que aconteceria se“, e que na literatura se poderia chamar de “histórico-alternativa” por falta ou ignorância de um nome melhor. A fórmula sobre a qual esse tipo de narrativa se assenta é simples: o livro vai até um momento no passado, que pode ser crucial ou uma situação aparentemente sem maiores consequências. Ali, a narrativa recria esse momento histórico particular e imagina o que teria acontecido se ele tivesse se desenrolado de outra forma.

Um dos melhores exemplos pode ser encontrado no clássico de Philip K. Dick O Homem do Castelo Alto, no qual o autor apresentava sua visão alternativa da história humana se o eixo, e não os aliados, houvesse vencido a Segunda Guerra Mundial. Vencedores, os japoneses ocupam os Estados Unidos, a Alemanha instaura o seu sonhado Império europeu e pelos anos seguintes a Guerra Fria se dá entre os antigos aliados alemães e os japoneses (que estão tecnologicamente bem atrasados em relação a seus amigos chucrutes, uma vez que a migração de cientistas do Reich que se sucedeu ao fim da Guerra não teria acontecido nesta realidade).

Esse tipo de narrativa não é empregada apenas por escritores da sempre criticada ficção científica. Autores de aclamação crítica unânime também recorrem a ele. Provavelmente o maior nome da ficção americana ainda vivo, Philip Roth também andou se exercitando nesse gênero, com Complô contra a América, ao mesmo tempo um romance histórico escrito a partir de um fato que nunca aconteceu e um romance de formação em que o jovem protagonista — o próprio Roth — não se torna um adulto melancólico, e sim um sujeito assustado. O romance se passa entre junho de 1940 e outubro de 1942, e elege como o “ponto alternativo” de sua trama a eleição para a presidência norte-americana disputada entre Franklyn Delano Roosevelt,  o presidente que reergueu os Estados Unidos após a Grande Depressão, tentando um terceiro mandato contra o heróico Charles A. Lindbergh, pioneiro da aviação que em 1927, aos 25 anos, realizou o primeiro vôo sem escalas sobre o Atlântico. No mundo extraliterário, Lindbergh, um notório antissemita com opiniões simpáticas ao regime nazista, nunca se candidatou a presidente dos Estados Unidos, embora seu nome tenha sido realmente cotado para enfrentar Roosevelt. Na realidade imaginada por Roth, Lindbergh vence as eleições e, em vez de se aliar à Inglaterra e à Rússia no esforço de guerra contra o eixo, assina um pacto de não-agressão com a Alemanha de Hitler e começa a pôr em prática na América uma série de programas de recolocação da população judaica semelhantes aos dos guetos nazistas na Polônia e em outros territórios ocupados.

O mais recente exemplo a chegar às livrarias é Associação Judaica de Polícia (Tradução de Luis Antônio de Araújo. Companhia das Letras, 472 páginas), do romancista norte-americano Michael Chabon. Chabon é também o autor de As Incríveis Aventuras de Kavalier & Clay, provavelmente o primeiro romance em prosa a ganhar aclamação crítica lidando com o universo dos quadrinhos – o romance ganhou o Prêmio Pulitzer de 2000 contando a história de dois artistas judeus que, durante e após a Segunda Guerra (olha ela aí de novo), tornam-se figuras de destaque na ainda incipiente indústria americana de quadrinhos. Muito do livro é inspirado na biografia dos criadores do Super-Homem, Jerry Siegel e Joe Schuster. O livro deu a Chabon também prestígio para ser um dos roteiristas do segundo Homem-Aranha.

Neste seu novo romance, Chabon elege como objeto de sua “história do avesso” o Estado de Israel. Imagina o que teria acontecido se, em 1948, a guerra pela criação do país judaico no Oriente Médio tivesse sido vencida pelos árabes. As migrações para Israel se interrompem, o território é ocupado pela Palestina e a ONU tem outra vez o problema de milhões de judeus espalhados por aí sem pátria. A fim de evitar mais estragos e para afastar a sombra de um novo holocausto, os Estados Unidos oferecem, ainda que a contragosto, o território do Alasca em concessão por 50 anos.  Após o fim da II Guerra, isso realmente foi cogitado, mas a iniciativa foi barrada por um congressista do Alasca – no livro, o político morre atropelado e a concessão ocorre sem entraves. Os judeus então instalam uma nação provisória em pleno Alasca, e o que se segue é a mesma coisa que se viu no deserto, dessa vez trocado pela neve: migrações judaicas, hostilidade dos locais, reclamações de esbulho contra a população autóctone (os “índios”, como os yids os chamam).

Tudo isso vai sendo desdobrado, contudo, como um habilidoso pano de fundo, porque quando a história começa, em 2007, o foco é outro. Há no ar um clima estranho, porque está chegando a hora da “reversão” do território aos americanos, o que de novo deixará os judeus sem um país. “É uma época estranha para ser judeu”, diz o protagonista, um detetive de polícia melancólico e em decadência, Meyer Landsman. Landsman é acordado pelo gerente do hotel vagabundo em que mora. Um viciado em heroína foi encontrado morto naquele mesmo prédio, e Landsman, embora não tenha necessidade por não ser seu turno, se oferece para assumir a investigação – os motivos são o mesmo de sempre, ele está fodido, separou-se da mulher, não sabe o que fazer da vida, aquelas coisas. O que prende em Associação Judaica de Polícia é a montagem desse cenário histórico alternativo e a imaginação delirante de Chabon. A trama que o detetive vai deslindando logo o põe em contato com a máfia e com um plano secreto, ainda que delirante, para a reconquista militar de Jerusalém.

Espada de aluguel

O que o século 17 pode ter a dizer ao século 21? É essa a pergunta que faz ao leitor a série de romances de capa-e-espada protagonizada pelo espadachim Capitão Diego Alatriste y Tenório, criado em 1996 pelo escritor espanhol Arturo Pérez-Reverte, que já tem seis livros lançados em sua terra natal, dois deles traduzidos para o Brasil: O Capitão Alatriste e Limpeza de Sangue, ambos pela Companhia ds Letras.

Arturo Pérez-Reverte é conhecido do leitor brasileiro apreciador de obras de fantasia por livros como A Carta Esférica ou O Clube Dumas (que foi adaptado para o cinema como O Último Portal, com Johnny Depp e um Frank Langella virando a mais ridícula tocha humana do universo). Na Espanha, as aventuras de Alatriste, que além dos seis episódios já publicador por lá  ainda deve ganhar outros três nos próximos anos, são uma espécie de fenômeno pop nacional: viraram história em quadrinhos (a imagem que ilustra este post saiu de uma delas, a adaptação “oficial” do primeiro livro, feita por Carlos Giménez e Joan Mundet), bonecos, jogos de tabuleiro, até mesmo, em 2002, uma série de estampas de selos do correio espanhol. E, recentemente, Alatriste foi adaptado em filme, dirigido por Agustín Díaz Yanes e estrelado pelo “Aragorn” Viggo Mortensen, interpretando em espanhol – o cara realmente fala o idioma, viveu na Argentina e é torcedor do San Lorenzo de Almagro.

Tecnicamente, o que de cara já surpreende pelo anacronismo, Alatriste filia-se ao chamado gênero de literatura capa-e-espada (muito popular no século 19), aquele que reúne espadachins heróicos e galantes, amores tumultuosos, aventuras tortuosas e conspirações (os espanhóis tiveram todo um ramo literário de romances capa-e-espada, mas está certo tambem quem, com as características ali descritas, lembrar de Os três mosqueteiros, do francês Alexandre Dumas, uma dos mais acabados exemplos do gênero).

O Alatriste de Pérez-Reverte é um ex-militar e hoje mercenário que vive uma vida instável, sem recursos na Espanha dos anos 1600 — o esplendoroso período conhecido por Século de Ouro, período de uma sociedade rica, de alto desenvolvimento artístico, mas onde campeia uma decadência subterrânea que ainda levará à queda o poderoso império espanhol. Voltando a Alatriste: pobre, porém altivo, ele serviu nas guerras espanholas contra os holandeses em Flandrers, onde provou sua bravura e sua habilidade com a espada, mas um homem como ele, impetuoso, pouco político e de grande coragem física, é um incauto nas batalhas políticas tão ou mais cruentas que tomam lugar na corte, e o outrora valente capitão é hoje um mercenário como tantos outros, com a algibeira sempre vazia e alugando sua destra espada a quem melhor pagar. Por vezes, vale-se da caridade da mulher que o ama, uma prostituta chamada muito apropriadamente Caridad, La Lebrijana.

Os dois volumes já lançados no Brasil, O Capitão Alatriste e Limpeza de Sangue, têm estrutura semelhante. A história é sempre narrada do ponto de vista do jovem pajem de Alatriste, Iñigo Balboa, órfão, filho de um ex-companheiro de armas de Alatriste e que foi entregue ao herói para ser criado por ele em nome da amizade que unia os dois homens. O enredo também segue uma seqüência similar de episódios: nos dois, atendendo ao pedido de um amigo, Alatriste aceita um trabalho que se revela mais do que aparenta.

No primeiro volume, contratado por homens misteriosos para assassinar dois desconhecidos, Alatriste não realiza o serviço que lhe foi encomendado, topa com uma intriga internacional e se enreda nos gabinetes da monarquia, contrariando a poderosa Igreja Católica. No segundo volume, um pedido para que Alatriste invada uma casa e recupere uma jovem raptada revela-se uma cilada que leva o herói aos porões da Inquisição.

O inusitado em Alatriste é que suas aventuras, escritas para lembrar os clássicos capa-e-espada espanhóis como Tirso de Molina e Manuel Fernández González, entremeiam duelos e traições com digressões anacrônicas sobre a Inquisição, a religiosidade, o poder, a política e a honra, algumas que poderiam ser aplicadas como comentários da nossa própria realidade contemporânea.

Um tributo moderno à história do passado.

DeCOHENlogo

Primeiro uma justificativa: ninguém combinou nada com antecedência, mas o que acontece é que ao começarmos este site cada um foi mais ou menos dirigindo suas preferências temáticas para aquilo que conhecia melhor: Tcheloco sobre  tecnologia, SempreAlerta sobre música, Espantalho sobre cinema e eu sobre livros – e essa ordenação varia pouco na maioria dos posts assinados por nós quatro (as garotas são mais ecléticas).

Leonard Coé, hein?

Leonard Coé, hein?

Um dia nosso camarada SempreAlerta levantou a sugestão: e a se agente trocasse? Achei bacana, mas não cheguei a topar com nada que em um primeiro momento me entusiasmasse a dar pitaco sobre música, por exemplo, quando nosso camarada SempreAlerta é muito mais qualificado para escrever sobre isso – embora tenha andado meio mudo, ultimamente. Aí enquanto escrevia uns troços no computador, um CD do Leonard Cohen amontoado com outros na escrivaninha me acendeu essa fagulha (ele fica ali com umas duas ou três coisas avulsas que eu realmente gosto e que de vez em quando eu gosto de escutar enquanto estou escrevendo – duas ou três mesmo, não escuto mais tanta música quanto antes). E Cohen era uma ótima saída: ele é ao mesmo tempo clássico e pouco conhecido para a maioria, o que me permitiria dizer bobagem sem passar vergonha (rere). Então, camaradas, finalmente resolvi me arriscar além de minha própria seara e elaborei este pequeno decálogo, ou melhor, deCohenlogo, com “10 razões pelas quais você deveria curtir Leonard Cohen tanto quanto eu”. E já, no processo, apresentar o cara para quem não o conhece.

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O ladrão de mitos

“Quíron suspirou.
A maioria dos observadores inteligentes concordaria que o roubo não faz o estilo de Poseidon. Mas o Deus do Mar é orgulhoso demais para tentar convencer Zeus disso. Zeus exigiu que Poseidon devolva o raio até o solstício de verão. Isso será em 21 de junho, dez dias a contar de agora. Poseidon quer um pedido de desculpas por ser chamado de ladrão até essa mesma data. Eu tinha esperanças de que a diplomacia prevalecesse, que Hera ou Demeter ou Héstia fariam os dois irmãos verem a razão. Mas a sua chegada inflamou o gênio de Zeus. Agora nenhum dos dois deuses quer recuar. A não ser que alguém intervenha, a não ser que o raio-mestre seja encontrado e devolvido a Zeus antes do solstício, haverá guerra. E você sabe como poderia ser uma guerra.
– Ruim? – adivinhei
– Imagine o mundo em caos. A natureza em guerra consigo mesma. Os olimpianos forçados a escolher lados entre Zeus e Poseidon. Destruição. Carnificina. Milhões de mortos. A civiilzação ocidental transformada em um campo de batalha tão grande que fará a Guerra de Tróia parecer uma luta de balões d’água.
– Ruim – repeti.”

No mínimo duas vertentes verificáveis na atual literatura se cruzam nas páginas de O Ladrão de Raios, do americano Rick Riordan (Tradução de Ricardo Gouveia. Intrínseca, 400 páginas. R$ 29,90). A primeira é a de uma certa veia pop de releitura das mitologias antigas, um campo no qual mr. Neil Gaiman pontificou nos últimos anos graças a trabalhos como Sandman, Deuses Americanos e Os Filhos de Anansi, histórias que reapresentavam personagens mitológicos com um viés mais afeito ao que uma história em quadrinhos ou romances de aventura exigiam. A segunda linha de força pela qual é possível explicar a existência desse livro é puramente comercial. É simples: com o sucesso cinematográfico da série O Senhor dos Anéis, bem como a acachapante vendagem da série Harry Potter (também ela transformada em série cinematográfica de sucesso), criou-se um verdadeiro um filão editorial de livros nos quais o protagonista vive uma jornada por mundos fantásticos que mesclam fantasia e mitologia _ uma tentativa de catar o mais rápido possível um novo best-seller juvenil que garanta milhões em licenciamento de produtos e venda de direitos cinematográficos.

Foi assim com a trilogia Fronteiras do Universo, de Philip Pullmann (cujo primeiro episódio foi filmado com o nome de A Bússola de Ouro), com a trilogia “de tinta” de Cornelia Funke (que também já chegou ao cinema com Coração de Tinta) e até com a malfadada série Eragon (da qual também foi feito um filme e mais nenhum, se tivermos sorte). 

Ou aquilo é o Olimpo ou o bagulho era forte mesmo...

Ou aquilo é o Olimpo ou o bagulho era forte mesmo...

O Ladrão de Raios também embarca nessa onda. O livro é o primeiro a sair aqui no Brasil de uma série chamada Percy Jackson e Os Olimpianos, que acompanha a saga de Percy Jackson, jovem rebelde de 12 anos que nunca conheceu o pai, vive às turras com a mãe até descobrir que em pleno século 21 da nossa modernidade os deuses gregos ainda caminham pela Terra (sim, a ideia é mais ou menos a mesma de Os Eternos, de Jack Kirby — que o Gaiman andou reescrevendo tempos atrás). Criado sem pai, Jackson logo descobrirá que tem uma herança divina a resgatar e se envolverá em uma disputa política entre Zeus e seu irmão Poseidon.

A prosa do livro é bastante funcional, mais a serviço da história, sem grandes invenções ou mesmo requintes de estilo, mas um mérito ao menos Riordan tem: seu livro aborda uma história que, para ser fruida, necessita de um mínimo conhecimento prévio, e ele provê esse conhecimento ao longo do livro: é mais divertido ler que Poseidon e Zeus estão prestes a entrar em guerra tendo na lembrança que os dois (mais o terceiro irmão, Hades), repartiram o mundo no início dos tempos, após a guerra contra os Titãs (os deuses antigos, não a banda) que garantiu aos Olímpicos o domínio sobre o universo. Pequenas informações que Riordan vai semeando na narrativa sem truncá-la em demasia. Não é o novo Senhor dos Anéis, mas até que é divertido.