16- Starman – O Homem das Estrelas

Starman_film_posterJohn Carpenter é um rebelde. Um iconoclasta da estirpe de Sam Peckinpah, Sergio LeoneDon Siegel, e mais recentemente, Walter Hill, Clint Eastwood e John Millius, os últimos diretores machos. Em 1984 seu nome era reconhecido por ter dirigido dois grandes sucessos de bilheteria produzidos com parcos recursos: Halloween e Fuga de Nova York. Em seguida, com um pouco mais de grana, a refilmagem de The Thing. Psicopatas, mercenários pós-apocalípticos, monstros espaciais… Como se vê, no menu desse outsider parecia não haver espaço para romances água-com-açúcar, dentro dos moldes dos grandes estúdios. E então ele surpreendeu a todos com Starman – o Homem das Estrelas.

Em 1977 a NASA enviou uma sonda espacial, a Voyager 2, com mensagens de paz e um convite para que eventuais viajantes de outros planetas nos visitassem. Uma civilização alienígena intercepta a mensagem e em resposta enviam um representante, para uma missão de três dias em nosso solo. O pacífico visitante, contudo, é perseguido por forças militares, vendo-se obrigado a se esconder sob uma forma humana. Ele assume as feições de um homem recentemente falecido, Scott. Com a ajuda de Jenny, a viúva de Scott, o extraterrestre deve cruzar parte dos Estados Unidos até chegar no ponto de encontro, onde seus conterrâneos irão buscá-lo. No caminho, aprenderá sobre os modos e costumes humanos, e é claro, sobre o amor. Ah, mas como não se apaixonar por Karen Allen, com aqueles dois imensos faróis azuis?singhstrmn720p233658

Starman deveria ter sido realizado alguns anos antes. A Columbia Pictures desenvolvia dois roteiros em paralelo, ambos tratando sobre o mesmo tema: aliens perdidos na Terra. O estúdio concluiu que apenas um dos roteiros deveria ser levado adiante, descartando o outro. O roteiro rejeitado foi produzido  pela Universal. Dirigido por um tal Steven Spielberg, conquistou relativo sucesso mundial, com o título de E.T. – O Extraterrestre. Alguma cabeça deve ter rolado na Columbia.

John Carpenter

John Carpenter

Apesar de estar fora de seu ambiente natural, Carpenter dirigiu Starman com rara sensibilidade. Há que se ressaltar também a bela trilha sonora de Jack Nietzsche. Mas o maior mérito do filme é a inspirada performance de Jeff Bridges como o alienígena, que lhe valeu inclusive uma indicação ao Oscar de 1985. E pensar que o papel inicialmente era pra ser do Kevin BaconD0B7AB1BCAB4A5B05697D5B09159F6

Curiosidade: Starman não foi um sucesso de bilheteria. Foi somente o 30º filme mais visto em 1984. Ainda assim, gerou apelo suficiente para a realização de um seriado homônimo. Na série, o alienígena voltava à terra 15 anos depois, na pele de um jornalista, para junto de seu filho adolescente (ele engravidara a moça antes de retornar a seu planeta), tentar encontrar Jenny, que está desaparecida. O alien era vivido por Robert Hays, o piloto atrapalhado dos Apertem os Cintos, o Piloto Sumiu. E por falar em piloto, o seriado era tão ruim que não deveria ter passado do piloto. Durou uma temporada, e foi muito.

Trailer de Starman.

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17 – O Último Guerreiro das Estrelas

95b9dac3753abf88dba4c87812f8dc8a_2_jpg_210x312_crop_upscale_q90Corriam os últimos dias de 1984. Era 29 de dezembro, um sábado, sei disso porque costumava anotar esse tipo de coisa na época. Nesse dia saí da sala de cinema certo de que recém assistira ao melhor filme da minha vida. Ora, em 1984 um bom cinéfilo teria bons motivos para sair do cinema com essa sensação: o ano nos presenteara com Amadeus e Era Uma Vez na América, clássicos absolutos. Mas eu ainda era um moleque de 12 anos: naquela tarde, meu melhor filme de todos os tempos foi O Último Guerreiro das Estrelas.

 O porquê de tamanho fascínio e arrebatamento não é difícil de explicar: as únicas diversões de Alex, rapaz pobre que morava em um estacionamento de trailers no meio do nada, eram encontrar a namoradinha white trash como ele e jogar um arcade chamado Starfighter. Após bater o recorde do jogo, Alex recebia a visita de um alien. O visitante revelava que a máquina era na verdade um teste: os controles da máquina de fliperama emulavam os comandos de uma nave espacial verdadeira, e aqueles que se destacassem no jogoimages (1) eram “recrutados pela União Interplanetária para defender a fronteira de Xur e a Armada de Ko-Dan”. Resumindo, após algumas idas e vindas, Alex aceitava a missão, virava um piloto intergalático, salvava o universo e voltava consagrado pra buscar a namorada. Viveriam felizes para sempre viajando pelo espaço sideral. Ora, que guri não se identificaria com um filme destes?

O diretor de O Último Guerreiro das Estrelas, Nick Castle, trazia no DNA a manha de agradar o público adolescente. Seu pai, William Castle, foi um pioneiro na exploração dessa fatia do mercado. Era uma figura ímpar, gênio do marketing e da autopromoção, um tremendo picareta. Sua trajetória inspirou o filme Matinée – Uma Sessão Muito Louca, de Joe Dante. Vale a pena dar uma conferida.

Ainda que não tenha sido um estrondoso imagessucesso, O Último Guerreiro… amealhou alguns fiéis, que o transformaram em um cult, com direito a documentário e mesmo a um jogo baseado no arcade que aparece no filme. Apesar do merchandising nada sutil – o arcade era da Atari e as naves da União Interplanetária exibiam sua logomarca nas naves –  a lendária empresa de videogame nunca conseguiu desenvolver o game. Os fãs é que se mobilizaram para dar vida ao jogo.

Olhando o filme hoje, muita coisa parece ultrapassada e até mesmo risível. Os efeitos visuais são de doer, mas tinham algo de revolucionário na época. O Último Guerreiro não sobreviveu aos efeitos do tempo, mas ainda assim parece ter deixado um herdeiro aqui e ali. Vejam, por exemplo, a trama de Ender`s Game, filme do ano passado, sobre uma equipe de adolescentes recrutada para defender a Terra contra invasores de outros planetas. É justamente o talento para os videogames que os credencia para a tarefa. Familiar?

Aqui um link bacana com mais informações, fotos e o trailer de O Último Guerreiro…

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18 – Amanhecer Violento

red-dawnA Guerra Fria dava seus últimos suspiros em meados dos anos 80. A partir de 1985, com a ascensão de Gorbachev, teria início um rápido processo de distensão política e econômica na União Soviética, culminando com o fim dos regimes socialistas no leste europeu e parte da Ásia. Encerrava-se também o conflito com os países do bloco capitalista ocidental, que se arrastava desde o fim da Segunda Guerra. Em 1984, contudo, ainda vivíamos sob o medo de uma guerra total. Tínhamos vivas em nossa memória as imagens de O Dia Seguinte (1983), filme que mostrava os efeitos que um ataque nuclear teria sobre a vida das pessoas comuns. A paranoia nuclear era presente constante em nossos dias, o medo da bomba era palpável. E ela veio em 1984. A maior bomba da Guerra Fria, até então: Amanhecer Violento.

Uma pequena cidade do interior dos Estado Unidos tem sua pacata rotina interrompida por uma invasão de paraquedistas russo, cubanos, salvadorenhos e demais países que na época se opunham ao Tio Sam. A cidade cai em poder desses invasores comunistas. Um grupo de oito valorosos jovens, contudo, decide resistir. Autodenominando-se os wolverines (em alusão ao time de futebol local), fogem para as montanhas, arrumam armamento pesado e mandam chumbo nos malditos comunas: os valores da pátria e da liberdade estão a salvo, mais uma vez. Este, em poucas linhas, o argumento de Amanhecer Violento.1 a ared macdonalds

Poucos filmes são tão fiéis ao espírito de sua época quanto Amanhecer Violento. Título emblemático dos anos Reagan, Amanhecer Violento serviu como uma espécie de comissão de frente, abrindo alas para o bloco de conservadores formado por Stallone, Schwarzenegger, Bruce Willis, etc. Paradoxalmente, essa mesma visão reaça de mundo que impulsionou a carreira desses grandes astros, foi a causa da derrocada do responsável por Amanhecer Violento, John Milius. Quem é John Milius? Vamos deixar que ele mesmo se apresente:

“Eu amo a bomba atômica. Para mim, é como se fosse uma espécie de totem religioso. Como as pragas da Idade Média, ela é a mão de Deus vindo para acabar com todos, indiscriminadamente.”

“Levei uma vida inteira atrás das linhas inimigas. Eu sou o bárbaro de Hollywood.”2014-03-12 18.04.56

“Luxo e conforto são males para o ser humano.”

“Muitas pessoas pensam em mim como uma ameaça à civilização ocidental.”

“Sempre tive problemas com as autoridades.”

“Eu tenho uma Magnum .44. Eu amo a Magnum .44.”

“Eu sou um general, sou alguém que faz algo. Eu vou lá, luto as guerras e as venço.”

“Eu sou um anarquista zen.”

miliusnowMilius é um baby boomer, filho da geração do pós-guerra que contava cerca de 20 anos no início dos anos 60. Porém, enquanto a maior parte de seus contemporâneos da Califórnia falava em amor livre e colocava flores no cabelo, Milius glorificava figuras como Teddy Roosevelt e os Johns, o Ford e o Wayne. Beligerante até os ossos, posicionava-se frontalmente contra a visão pacifista dos liberais da época. Se os jovens usavam buttons com o símbolo da paz e amor e os dizeres “Nirvana Now”, Milius via no famoso ícone um avião, um bombardeiro, e retrucava com um “Apocalypse Now”.

Apesar da forte  personalidade, Milius era bastante querido por seus colegas de faculdade, gente como George Lucas e Francis Ford Coppola. Steven Spielberg também era um grande amigo. Todos reconheciam principalmente seu grande talento como escritor. Roteirista de mão cheia, a especialidade de Milius eram as falas: alguns dos principais monólogos e diálogos do cinema pós-1970 saíram da cabeça desse lunático de extrema direita. Você certamente reconhecerá algumas destas passagens:

– Eu adoro o cheiro de napalm pela manhã. –  Apocalypse Now (1979 – o roteiro, adaptado de Conrad, lhe rendeu o Oscar)

– Eu sei o que você está pensando, punk: “será que ele deu seis tiros ou apenas cinco?” Pra falar a verdade, eu mesmo esqueci de contar, no meio dessa bagunça toda. Mas sendo esta uma Magnum .44, a mais poderosa arma de mão do planeta, capaz de explodir a sua cabeça, você deveria se fazer uma pergunta: “Estou com sorte?” Bem, você está, punk? – Perseguidor Implacável (1971)

miliusAlém dessas duas pérolas, imortalizadas por Robert Duval e Clint Eastwood, Milius também colaborou com uma das melhores cenas de Tubarão (1975): Robert Shaw, Roy Scheider e Richard Dreyfuss comparam cicatrizes dentro do barco; em seguida, Shaw relata sua experiência a bordo do U.S.S. Indianapolis, o navio que entregou a bomba de Hiroshima. Grande momento, chefe.

Milius virou uma espécie de garoto-maravilha nos anos 70, disputado a tapa pelos grandes estúdios. O roteiro de Roy Bean, levado às telas por John Huston (outro John modelo de comportamento seu), estabeleceu um recorde na época: foi o primeiro roteiro a atingir a casa dos U$ 200.000. Com o tempo, Milius acabou dirigindo filmes, sendo Conan, o Bárbaro (1982) o mais popular.

Ao longo dos anos, Miius criou uma persona para si: o cara durão, que fala o que pensa, charuto na boca, um palavrão a cada frase. Evidentemente, é um fervoroso defensor do porte de armas, fazendo parte da mesa diretora da infame NRA. Milius se parece tanto com um personagem que acabou virando um, de fato. Seus amigos Joel e Ethan Coen não resistiram à tentação de parodiá-lo com Walter, imortalizado por John Goodman em O Grande Lebowski (1998).2014-03-12 19.54.17

Quando não estava pisando nos calos dos liberais com seus comentários inconvenientes, Milius gostava de pegar onda na ensolarada California. Sua paixão pelo surfe era tanta que fez um filme sobre o assunto (além, é claro, de ter escrito a famosa sequência de Apocalypse Now, com os soldados surfando ao som de Wagner), Big Wednesday. Sua ode ao esporte foi um retumbante fracasso de bilheteria, mas Milius riu à toa: pouco antes de 1977, ele, Lucas e Spielberg trocaram “pontos”, que é como eles chamam as cotas de participação nos lucros dos filmes, referentes aos seus futuros projetos. Milius comprometeu os pontos de Big Wednesday, enquanto Lucas e Spielberg cederam pontos de Guerra nas Estrelas e Contatos Imediatos de Terceiro Grau. Milius ficou rico sem fazer nada. Anos mais tarde, só de gozação, Spielberg cobraria de Milius seus pontos pela bilheteria do filme sobre surfe.

A turma deles é mais legal que a tua.

A turma deles é mais legal que a tua.

Acrescente-se ao currículo de Milius a idealização do UFC, ao lado de Rorion e Rickson Gracie.

A reação negativa à Amanhecer Violento fez com que Milius fosse escanteado pela Indústria. Para piorar, além da falta de convites, teve o dissabor de ser tungado por um sócio, ficando com o cofre raspado. A coisa ficou tão preta que nos anos 90 teve que bater na porta dos estúdios de televisão atrás de um trampo como roteirista de staff, o grau mais baixo na cadeia alimentar dos escritores. Começou aí sua volta por cima, e também o marco de uma revolução na TV: Milius foi o idealizador e redator principal de Roma. Justamente nessa época as pessoas começaram a perceber que havia mais vida inteligente na televisão do que no cinema.

Em meio à pré-produção daquele que seria o projeto de sua vida, a cinebiografia de Genghis Khan, Milus sofreu um derrame, perdendo a fala e parte dos movimentos do braço. Nos últimos cinco anos vem se recuperando, através de intensa fisioterapia. Já consegue, inclusive, acertar uns pratos com seu rifle. Vaso ruim não quebra.

Curiosidade: acusado pelos críticos de ser anacrônico, Milius deve ter dado risada quando soube que Amanhecer Violento seria refilmado. Na versão de 2012, porém, os comunistas da hora são os norte-coreanos; de resto, o filme não passa de um F5 sobre a sua ideia original. Não bastasse isso, a operação que caçou e capturou Saddam Hussein foi batizada com o nome de Red Dawn, e as equipes de comandos envolvidas se denominavam Wolverine 1 e 2.

Trailer de Amanhecer Violento.

19 – Nausicaä do Vale do Vento

MV5BMTM1NjIxNTY4OF5BMl5BanBnXkFtZTcwNDE5MDIyNw@@._V1_SX148_CR0,0,148,200_Em 2013 os grandes estúdios produziram ao menos uma dezena de animações. Juntos, esses desenhos arrecadaram cerca de U$ 1,7 bilhões, somente no mercado doméstico norte-americano. Contudo, se expandirmos a projeção de faturamento para o mercado global, apenas um desses títulos, Frozen, arrecadou sozinho mais de um bilhão de dólares. O mercado vai bem, e não dá mostras de enfraquecimento. A boca é tão boa que a produção extrapolou os muros dos tradicionais produtores, como a Disney: hoje todos estúdios possuem uma divisão de animação, ou distribuem trabalhos oriundos de companhias independentes. Até a sisuda Weinstein Company resolveu entrar no jogo em 2013, com Escape From the Planet Earth.

Há 30 anos o quadro era bem diferente. Era desolador. Em 1984, os estúdios Disney ainda estavam sob controle do grupo conhecido como Os Nove Velhinhos, animadores  remanescentes dos anos de ouro, que desde a morte do patrão Walt em 1966, vinham produzindo bomba atrás de bomba. Uma nova geração de animadores, insatisfeita com os rumos da companhia, resolveu debandar, e sob a liderança de Don Bluth, começou a produzir por conta própria. Mas os resultados também não eram grande coisa. Assim como as tentativas do israelense Ralph Bakshi, que muito  prometiam mas pouco entregavam. Até o renascimento da Disney com A Pequena Sereia (1989) e a revolução digital da Pixar com Toy Story (1995), o cinema de animação em longa metragem seguiria em estado vegetativo. Isso nos Estados Unidos. Porque do outro lado do mundo o quadro era bem diferente.mia

É sabido que animação é assunto sério para os japoneses. Mas para um sujeito chamado Hayao Miyazaki, a coisa se reveste de uma gravidade tal que se eleva à categoria de arte. E não há artista como Miyazaki. Nos últimos 30 anos, à frente do Estúdio Ghibli, esse senhor de 73 anos desfilou uma invejável obra, composta por obras primas como Meu Amigo Totoro, Porco Rosso, Princesa Mononoke, A Viagem de Chihiro e tantas outras. A iniciativa de fundar o estúdio foi tomada em 1984, após o sucesso do segundo longa de Miyazaki, Nausicaä do Vale do Vento.

Em uma paisagem pós-apocalíptica, o que sobrou da humanidade está dividido em pequenos grupos, isolados uns dos outros pelo Mar da Corrupção, uma floresta tóxica povoada com insetos gigantescos. Nausicaä, princesa do reino do Vale do Vento, procura compreender a essência dessas florestas, enquanto se vê às voltas com agressões dos reinos vizinhos.

O longa é um cartão de visitas da obra de Miyazaki. Muito do que se vê ali estará presente no resto de sua filmografia: protagonista feminina, a obsessão com objetos voadores e vilões – melhor dizendo, antagonistas – ambíguos, representados de maneira diferente da tradicional. E é claro, o apuro técnico: feitas sempre do jeito tradicional, à mão, as animações apresentam um requinte digno dos melhores títulos da Disney nos anos 30/40. A paleta de cores, a “iluminação”, ângulos, movimentos, tudo é de um bom gosto ímpar. São, indubitavelmente, obras de arte. Infelizmente, o mestre anunciou sua aposentadoria ano passado, após a realização de Vidas ao Vento.

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Dica: a Ghibli não se resume à Miyazaki. Ao longo desses 30 anos, outros grandes diretores também produziram excelente animações. The Grave of the Fireflies (1988), de Isao Takahata, mostra os esforços de dois irmãos para sobreviver em meio a um Japão devastado pela Segunda Guerra. Faz chorar até coração de pedra.

Para saber mais sobre os estúdios Ghibli e sua história, visite o site oficial dos caras, em português.

Curiosidades:

Na Odisseia, Nausicaä é filha de Ancínoo, rei dos feácios. É ela que ajuda o náufrago Ulisses, após o rei de Ítaca deixar a ilha de Calipso.

Ghibli significa “O quente vento do deserto do Saara”.

Trailer de Nausicaä do Vale do Vento

20 – Isto é Spinal Tap

220px-ThisisspinaltapposterSenhor Burns, Smithers, Ned Flanders, Reverendo Lovejoy, Kent Brockman, doutor Hibbert, Lenny, diretor Skinner, Otto, Rainier Wolfcastle… O que essas figurinhas folclóricas têm em comum, além de, obviamente, serem personagens dos Simpsons? Todas compartilham a honra de serem dubladas pelo mesmo sujeito, o pequeno grande Harry Shearer, um californiano de 1,67m, cujo talento é inversamente proporcional ao seu tamanho.

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Mesmo antes do nascimento do próprio rock, aos 10 anos de idade, Harry Julius Shearer já trabalhava no cinema: estreou em 1953, em Abott & Costello no planeta Marte. A convivência com os criadores da célebre rotina Who’s on the first? deve ter influenciado o menino. No mesmo ano ele ainda apareceria no épico O Manto Sagrado, o primeiro filme a ser exibido no formato Cinemascope. Dá pra perceber que o cara já tá rodando por aí faz tempo.

abc_harry_shearer_090609_sshLá pelos idos de 1984, pouco antes de parar em Springfield, Shearer saudava os deuses do rock and roll como o baixista Derek Smalls, em This is Spinal Tap, o falso rockumentário de Rob Reiner. O episódio da réplica de Stonehenge modelada em escala inadequada é um dos pontos altos da história da comédia em todos os tempos. A vida imitou a arte: um quarto de século depois a banda continua na estrada, como podemos conferir nesse clip com os sessentões Shearer, Michael McKean e Christopher Guest provando que ainda são a Majestade do Rock.

Isto é Spinal Tap é um dos melhores mockumentaries já feitos. Mockumentary vem da junção das palavras mock (brincar, debochar) e documentary. É possível que Reiner tenha se inspirado nos Ruttles de Eric idle, de All You Need is Cash, realizado alguns anos antes, uma bela paródia aos trocentos documentários hagiográficos sobre a trajetória dos Beatles que havia então.

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Rob Reiner, o diretor, também faz o papel do documentarista que passa o tempo todo filmando e entrevistando os membros da banda. Apesar de haver um roteiro escrito, a maior parte do que se vê na tela é fruto de improviso. A piada, aliás, ficou tão bem feita que na época do lançamento muitos acharam se tratava de fato de um documentário, o que explicaria o fracasso nas bilheterias. Apenas com o passar do tempo é que veio a se tornar um cult.

Curiosidade – O episódio de Stonehenge, acima mencionado, foi inspirado nos bastidores da turnê do Black Sabbath para divulgação o álbum Born Again. Aqui neste pod a história é contada, a partir de 07:00.

Trailer de Isto é Spinal Tap.

Edição ontem, edição hoje

Quero falar a respeito de edição e sua evolução e a velocidade com que as coisas acontecem na tela. Tudo isso baseado no que sempre foi, desde sua estréia, o máximo de sua época. Claro que o exemplo é James Bond.

Sempre que estréia um filme, mesmo que tenha referências com aventuras anteriores, o filme em si considera que embora seja passado, faz parte do passado da época em que se passa o filme. Tudo que está, em cada um dos filmes de 007 é o melhor. Tem a roupa da moda, para homem e para mulher. Tem as expectativas da tecnologia, tem o que se espera de um vilão e os medos da sociedade, por vezes transformados em piada involuntária, mas isto é praticamente assunto para outro post. Hoje é sobre edição de imagens. Tanto faz se edição de vídeo ou edição de filme.

No lançamento de 007 a serviço de sua majestade, o único com George Lazemby, lá em 1969, o trailer que atraia o público deveria mostrar muito, aliás, quase tudo. A edição do próprio trailer era lenta e com cortes que parecem apenas um amontoado de imagens. Depois, um trailer feito por um fã. É impressionante que parece ser até outro filme. Vale a pena ver os dois trailers e comparar a qualidade de uma edição e outra. Não é que tenha envelhecido ou se tornado ruim, mas sim é o representante de uma época.

Primeiro, o original

 

 

Trailer feito por um editor e fã de 007

 

21 – O Exterminador do Futuro

Terminator1984Não havia internet em 1984. Pelo menos não para nós, pobres mortais vivendo no fim do fundo da América do Sul. A única ideia que tínhamos a respeito de uma rede mundial de computadores vinha do Jogos de Guerra, e pelo que o filme apresentava, ela servia somente para lançar mísseis nos soviéticos e brincar de jogo-da-velha. Nesses tempos sem Omelete e IMDB, conseguir qualquer informação que fosse sobre os lançamentos da telona era tarefa árdua. A única revista disponível no mercado era a Cinemin, da EBAL. E foi através de uma edição especial de Cinemin que ficamos sabendo a respeito de O Exterminador do Futuro.

Cinemin Fantastic era o nome da revista; o Tcheloco guarda consigo até hoje a sua cópia, como um tesouro. No interior, informações  preciosas sobre clássicos dacinemin-fantastic-james-bond-indiana-jonas-ed-ebal_mlb-o-92221183_726 ficção científica, filmes de James Bond e anúncios dos lançamentos da época… Entre eles, uma foto promocional de O Exterminador do Futuro. Apenas uma foto, com o rosto de Arnold Schwarzenegger, metade homem, metade máquina, e uma econômica legenda informando o título. Nada mais. Mas já foi o suficiente para estimular nossa imaginação juvenil. Aguardávamos ansiosos pela estreia.

Quando finalmente o Exterminador do Futuro chegou em Porto Alegre, temíamos que não nos deixassem entrar, pois devido às sequências de violência e uma cena curta de sexo, o filme fora proibido para menores de 16 anos no Brasil. Para nossa sorte, contudo, nessa época de inflação e crise, os donos de cinema estavam mais preocupados em faturar do que ficar barrando moleque na portaria por determinação da Censura.

Dentre as inúmeras razões que fizeram de O Exterminador do Futuro um clássico instantâneo, a principal foi a engenhosidade de seu roteiro, uma abordagem criativa do tema da viagem no tempo. No ano 2029, homens e máquinas travam uma guerra sangrenta. A humanidade está levando a pior. Usando a tecnologia a seu dispor, as máquinas enviam um andróide (Arnold Schwarzenegger) ao passado, com a missão de matar Sarah Connor (Linda Hamilton), que um dia será a mãe do futuro líder da resistência humana. Os homens, contudo, também conseguem enviar um voluntário (Michael Biehn) para proteger Sarah e tentar salvar a humanidade. No final, uma grande sacada: o tal redentor da nossa espécie era filho justamente do homem que havia sido enviado para salvar sua mãe.

Linda Hamilton e James Cameron

Linda Hamilton e James Cameron

O roteiro, assim como a direção ágil e o design dos temíveis T-800, foram obra de um canadense chamado James Cameron. Egresso da turma do Roger Corman, em seu currículo trazia créditos em equipes de efeitos especiais visuais, como pintor de tela de matte ou técnico em stop motion: trabalhou em pérolas como Galáxia do Terror, Mercenários das Galáxias e Fuga de Nova York. A estreia na direção foi com o medonho Piranha 2. Reza a lenda que durante as filmagens deste terror písceo, Cameron teria sonhado com a imagem do torso do que viria a ser um T-800 se arrastando pelo chão. Três anos após o pesadelo, Cameron arrombava as portas do mainstream, de onde nunca mais sairia.

Outro grande mérito de Cameron foi ter feito muito com pouco: o Exterminador é um filme B com pinta de produção de grande estúdio. Se não podia contar com um John Wiliams acompanhado de uma sinfônica completa para a trilha, os sintetizadores de Brad Fiedel davam conta do recado. Quem não lembra deste tema? Se a grana não era suficiente pra contratar a ILM, o negócio era chamar o Stan Winston e juntos fundarem a própria companhia de efeitos visuais. Através da tática de guerrilha, Cameron e sua turma transformaram um filme de U$ 6,5 milhões em uma franquia bilionária.terminator1

Curiosidades: a famosa frase “I’ll be back”, que viria a ser a marca registrada de Arnold Schwarzenegger, foi dita pela primeira vez em O Exterminador do Futuro. O American Film Institute elegeu o bordão como a 37.a melhor frase do cinema de todos os tempos. No roteiro original estava escrito “I’ll come back” .

segredos-exterminador-futuro_8Bill Paxton pode arrogar para si a glória de ter sido morto por três monstros lendários do cinema pós-moderno: ele é o punk de cabelo azul que o exterminador liquida logo no início do filme. Dois anos depois morreria vítima de um “Alien”, e pouco depois ainda sucumbiria ao Predador.

Aqui o trailer.