18 – Amanhecer Violento

red-dawnA Guerra Fria dava seus últimos suspiros em meados dos anos 80. A partir de 1985, com a ascensão de Gorbachev, teria início um rápido processo de distensão política e econômica na União Soviética, culminando com o fim dos regimes socialistas no leste europeu e parte da Ásia. Encerrava-se também o conflito com os países do bloco capitalista ocidental, que se arrastava desde o fim da Segunda Guerra. Em 1984, contudo, ainda vivíamos sob o medo de uma guerra total. Tínhamos vivas em nossa memória as imagens de O Dia Seguinte (1983), filme que mostrava os efeitos que um ataque nuclear teria sobre a vida das pessoas comuns. A paranoia nuclear era presente constante em nossos dias, o medo da bomba era palpável. E ela veio em 1984. A maior bomba da Guerra Fria, até então: Amanhecer Violento.

Uma pequena cidade do interior dos Estado Unidos tem sua pacata rotina interrompida por uma invasão de paraquedistas russo, cubanos, salvadorenhos e demais países que na época se opunham ao Tio Sam. A cidade cai em poder desses invasores comunistas. Um grupo de oito valorosos jovens, contudo, decide resistir. Autodenominando-se os wolverines (em alusão ao time de futebol local), fogem para as montanhas, arrumam armamento pesado e mandam chumbo nos malditos comunas: os valores da pátria e da liberdade estão a salvo, mais uma vez. Este, em poucas linhas, o argumento de Amanhecer Violento.1 a ared macdonalds

Poucos filmes são tão fiéis ao espírito de sua época quanto Amanhecer Violento. Título emblemático dos anos Reagan, Amanhecer Violento serviu como uma espécie de comissão de frente, abrindo alas para o bloco de conservadores formado por Stallone, Schwarzenegger, Bruce Willis, etc. Paradoxalmente, essa mesma visão reaça de mundo que impulsionou a carreira desses grandes astros, foi a causa da derrocada do responsável por Amanhecer Violento, John Milius. Quem é John Milius? Vamos deixar que ele mesmo se apresente:

“Eu amo a bomba atômica. Para mim, é como se fosse uma espécie de totem religioso. Como as pragas da Idade Média, ela é a mão de Deus vindo para acabar com todos, indiscriminadamente.”

“Levei uma vida inteira atrás das linhas inimigas. Eu sou o bárbaro de Hollywood.”2014-03-12 18.04.56

“Luxo e conforto são males para o ser humano.”

“Muitas pessoas pensam em mim como uma ameaça à civilização ocidental.”

“Sempre tive problemas com as autoridades.”

“Eu tenho uma Magnum .44. Eu amo a Magnum .44.”

“Eu sou um general, sou alguém que faz algo. Eu vou lá, luto as guerras e as venço.”

“Eu sou um anarquista zen.”

miliusnowMilius é um baby boomer, filho da geração do pós-guerra que contava cerca de 20 anos no início dos anos 60. Porém, enquanto a maior parte de seus contemporâneos da Califórnia falava em amor livre e colocava flores no cabelo, Milius glorificava figuras como Teddy Roosevelt e os Johns, o Ford e o Wayne. Beligerante até os ossos, posicionava-se frontalmente contra a visão pacifista dos liberais da época. Se os jovens usavam buttons com o símbolo da paz e amor e os dizeres “Nirvana Now”, Milius via no famoso ícone um avião, um bombardeiro, e retrucava com um “Apocalypse Now”.

Apesar da forte  personalidade, Milius era bastante querido por seus colegas de faculdade, gente como George Lucas e Francis Ford Coppola. Steven Spielberg também era um grande amigo. Todos reconheciam principalmente seu grande talento como escritor. Roteirista de mão cheia, a especialidade de Milius eram as falas: alguns dos principais monólogos e diálogos do cinema pós-1970 saíram da cabeça desse lunático de extrema direita. Você certamente reconhecerá algumas destas passagens:

– Eu adoro o cheiro de napalm pela manhã. –  Apocalypse Now (1979 – o roteiro, adaptado de Conrad, lhe rendeu o Oscar)

– Eu sei o que você está pensando, punk: “será que ele deu seis tiros ou apenas cinco?” Pra falar a verdade, eu mesmo esqueci de contar, no meio dessa bagunça toda. Mas sendo esta uma Magnum .44, a mais poderosa arma de mão do planeta, capaz de explodir a sua cabeça, você deveria se fazer uma pergunta: “Estou com sorte?” Bem, você está, punk? – Perseguidor Implacável (1971)

miliusAlém dessas duas pérolas, imortalizadas por Robert Duval e Clint Eastwood, Milius também colaborou com uma das melhores cenas de Tubarão (1975): Robert Shaw, Roy Scheider e Richard Dreyfuss comparam cicatrizes dentro do barco; em seguida, Shaw relata sua experiência a bordo do U.S.S. Indianapolis, o navio que entregou a bomba de Hiroshima. Grande momento, chefe.

Milius virou uma espécie de garoto-maravilha nos anos 70, disputado a tapa pelos grandes estúdios. O roteiro de Roy Bean, levado às telas por John Huston (outro John modelo de comportamento seu), estabeleceu um recorde na época: foi o primeiro roteiro a atingir a casa dos U$ 200.000. Com o tempo, Milius acabou dirigindo filmes, sendo Conan, o Bárbaro (1982) o mais popular.

Ao longo dos anos, Miius criou uma persona para si: o cara durão, que fala o que pensa, charuto na boca, um palavrão a cada frase. Evidentemente, é um fervoroso defensor do porte de armas, fazendo parte da mesa diretora da infame NRA. Milius se parece tanto com um personagem que acabou virando um, de fato. Seus amigos Joel e Ethan Coen não resistiram à tentação de parodiá-lo com Walter, imortalizado por John Goodman em O Grande Lebowski (1998).2014-03-12 19.54.17

Quando não estava pisando nos calos dos liberais com seus comentários inconvenientes, Milius gostava de pegar onda na ensolarada California. Sua paixão pelo surfe era tanta que fez um filme sobre o assunto (além, é claro, de ter escrito a famosa sequência de Apocalypse Now, com os soldados surfando ao som de Wagner), Big Wednesday. Sua ode ao esporte foi um retumbante fracasso de bilheteria, mas Milius riu à toa: pouco antes de 1977, ele, Lucas e Spielberg trocaram “pontos”, que é como eles chamam as cotas de participação nos lucros dos filmes, referentes aos seus futuros projetos. Milius comprometeu os pontos de Big Wednesday, enquanto Lucas e Spielberg cederam pontos de Guerra nas Estrelas e Contatos Imediatos de Terceiro Grau. Milius ficou rico sem fazer nada. Anos mais tarde, só de gozação, Spielberg cobraria de Milius seus pontos pela bilheteria do filme sobre surfe.

A turma deles é mais legal que a tua.

A turma deles é mais legal que a tua.

Acrescente-se ao currículo de Milius a idealização do UFC, ao lado de Rorion e Rickson Gracie.

A reação negativa à Amanhecer Violento fez com que Milius fosse escanteado pela Indústria. Para piorar, além da falta de convites, teve o dissabor de ser tungado por um sócio, ficando com o cofre raspado. A coisa ficou tão preta que nos anos 90 teve que bater na porta dos estúdios de televisão atrás de um trampo como roteirista de staff, o grau mais baixo na cadeia alimentar dos escritores. Começou aí sua volta por cima, e também o marco de uma revolução na TV: Milius foi o idealizador e redator principal de Roma. Justamente nessa época as pessoas começaram a perceber que havia mais vida inteligente na televisão do que no cinema.

Em meio à pré-produção daquele que seria o projeto de sua vida, a cinebiografia de Genghis Khan, Milus sofreu um derrame, perdendo a fala e parte dos movimentos do braço. Nos últimos cinco anos vem se recuperando, através de intensa fisioterapia. Já consegue, inclusive, acertar uns pratos com seu rifle. Vaso ruim não quebra.

Curiosidade: acusado pelos críticos de ser anacrônico, Milius deve ter dado risada quando soube que Amanhecer Violento seria refilmado. Na versão de 2012, porém, os comunistas da hora são os norte-coreanos; de resto, o filme não passa de um F5 sobre a sua ideia original. Não bastasse isso, a operação que caçou e capturou Saddam Hussein foi batizada com o nome de Red Dawn, e as equipes de comandos envolvidas se denominavam Wolverine 1 e 2.

Trailer de Amanhecer Violento.

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4 Respostas

  1. Na reimaginação de Amanhecer Violento, os comunas da hora, na verdade não são os chineses e sim os norte-coreanos e seus aliados russos que não aparecem.

  2. É verdade, Dino. Corrigi lá. Mas a culpa é deles, que não usaram no filme corte de cabelo autorizado pelo Kinzinho. Se o tivessem feito, eu os teria reconhecido.
    Falando sério, era pra ter sido os chinas, mas na última hora eles mudaram de ideia: http://omelete.uol.com.br/red-dawn/cinema/amanhecer-violento-critica/

  3. Achei os uniformes dos norte-coreanos do filme muito parecido com os das forças especiais da Coreia do Sul.

  4. Pensei a mesma coisa.

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