SOPA, PIPA, Dire Straits e um (quase) coroa ranheta.

"...there's gotta be a record of you someplace..."

Em tempos de SOPA, PIPA, lamentações sobre links quebrados e argumentações por vezes fajutas defendendo o “livre acesso à cultura”, lembro dos tempos em que este “acesso” foi mais difícil. Já comentei em outro post.

Esperar por um disco, numa época em que, muitas vezes, não se sabia sequer se sua banda preferida estava na ativa ou não, tinha um lado bom e um lado ruim.

Como alguns discos de vinil, aliás.

O lado bom era a expectativa, a ansiedade. Não saber o que a banda andava fazendo musicalmente e não poder ouvir nem um trechinho sequer de uma música nova ou a declaração de algum músico a respeito de material novo fazia parte do processo. De certa forma, era divertido.
De repente, alguém no rádio soltava alguma coisa. Alguma informação, um single.

E este também era o lado ruim. Muitas vezes, a expectativa não era correspondida.
O single não fazia justiça ao resto do disco. E vice-versa. Em alguns casos, não na primeira audição, pelo menos.

E são essas ruminâncias de um quase coroa algo ranheta que me levam ao disco em questão, On Every Street, lançado no já longínquo ano de 1991.

E ao final de tarde em que eu e o colega aqui do blog, o Espantalho, chegamos na Galeria Chaves (provavelmente o grande ponto das lojas de disco na época), no centro de Porto Alegre, com as lojas já fechando as portas (literalmente), pedindo desesperadamente que nos deixassem comprar “o novo do Dire Straits”.

E, realmente, a primeira audição não foi das mais fáceis e nos deixou com sentimentos dúbios em relação à banda. Lembro de ter ficado até decepcionado.
Mesmo meia década depois, a sombra do multipremiado Brothers in Arms pairava sobre nós, mesmo que, na época, eu já estivesse voltando cada vez mais minha atenção aos primeiros trabalhos do grupo.

A intrigante Calling Elvis era a música de abertura e, se bem me lembro, a única que eu conhecia.
Em seguida, a faixa-título renovou a esperança num Dire Straits melódico e impactante, e alguns ecos dos primeiros discos se manifestavam timidamente em When It Comes to You.

Analisando em retrospectiva, não me soa absurdo dizer que o clima da gravação apontava também – mesmo que não muito claramente – para o caminho que Mark Knopfler iria trilhar em sua carreira “solo”, mesmo que, na tentativa de não alienar os fãs antigos, em alguns momentos ele pareça tentar resgatar um pouco da sonoridade de arena do antecessor – e inclusive alguns hits deste, nas fórmulas de Heavy Fuel, The Bug e You and Your Friend, ao mesmo tempo que experimentava novos sons, como na jazzística Fade to Black e nos arranjos orquestrais da tocante (quase além da conta) Ticket to Heaven.

Mas, infelizmente, já era tarde. Seis anos depois do megasucesso de Brothers in Arms, o Dire Straits havia perdido o trem da história e Knopfler aposentou a banda pouco após a tour onde, com 9 (!!!) membros no palco, arrastando e esticando músicas além do necessário com intermináveis introduções e solos de sax, pedal steel, percussão e etc, ela já havia se transformado num combo brega e tedioso, incompatível com a energia de anos anteriores.

Anos mais tarde, ouvindo novamente o disco, como tenho feito bastante nos últimos dias, devo dizer que, apesar de algumas músicas dispensáveis que com sua ausência tornariam o disco mais fluído, On Every Street é mais do que satisfatório. Agradável e, embora ao mesmo tempo, melancólico, é um bom encerramento para uma banda que deixou sua marca na história da música com apenas 6 discos na bagagem.

Todo mundo com o Rexona em dia: a contracapa de On the Night, disco ao vivo resultante da tour de On Every Street.

4 Respostas

  1. Bah, lembro que foi uma pusta decepção.
    Ainda curto a faixa-título e a Ticket to Heaven.
    E o clip da Calling Elvis, com aqueles Straits estilo Thunderbirds.

  2. “arrastando e esticando músicas além do necessário com intermináveis introduções e solos de sax, pedal steel, percussão e etc”

    Vamos combinar que no Alchemy eles já faziam bastante disso. Tinha umas músicas ali que eles ficavam meia hora ensebando.

  3. Sim, mas a guitarra ainda era o instrumento “principal”, por assim dizer.

    Telegraph Road com solo de sax e sei lá o quê mais, não dá…

  4. […] às minhas reminiscências e ranhetices, aproveito o gancho do post anterior onde falei do On Every Street e dos tempos em que ouvia discos de vinil num toca-discos portátil Philips, o que me leva ao dia […]

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