Yes – Fly from Here (2011)

Prólogo: 25 anos atrás, mais ou menos. Eu acho.

Meu primeiro contato com a expressão “rock progressivo” foi pouco tempo depois de ter ouvido o disco Myths and Legends of King Arthur and the Knights of the Round Table, de um tal Rick Wakeman. Pomposo, não? Até aí, eu achava que o disco era a trilha sonora para algum filme obscuro sobre a Távola Redonda, que eu nunca tinha visto ou sequer ouvido falar. Eram os tempos do vinil e da fita cassete. De ouvir uma música no rádio. Na casa de um amigo. De, eventualmente, ver um clipe ou pedaço de show na tv. E da dificuldade na busca por informação. Foi então que um dos meus amigos veio com a informação que o tal Rick Wakeman era tecladista de uma banda inglesa chamada Yes e que essa banda fazia o tal de rock progressivo.

E o tal disco do tal Wakeman foi meu disco de cabeceira durante muito tempo. Eu ficava pensando que, se um cara fazia tudo aquilo sozinho, imagina o grupo todo. Devia ser uma loucura.

(Neste momento, alguns fãs mais radicais podem pensar que foi aí que eu tive uma epifania, e que as maravilhas do universo se revelariam perante meus olhos a partir do momento que eu começasse a escutar a banda. Outros podem somente pensar “ok, então pelo menos o cara então descobriu uma banda legal…”)

Ledo engano.

Lembrem que essa era a época do vinil. Da fita cassete. Das dificuldades citadas anteriormente. E meus primeiros contatos com o Yes – que foram com a fase chamada clássica do grupo – não foram dos mais agradáveis. Lembro que o mesmo amigo citado acima apareceu com parte de um disco ao vivo que ele havia gravado do rádio em uma fita K7.

A gente ouvia e, usando as palavras dele, fazia “uma baita força para gostar daquilo”. Um dos principais fatores que me faziam desgostar era justamente – sacrilégio, sacrilégio – o vocalista Jon Anderson e o timbre das guitarras do Steve Howe. O tempo foi passando e o interesse no grupo diminuindo, da mesma maneira que crescia meu interesse por outros grupos do chamado rock progressivo, embora continuasse, volta e meia, dando “chances” e tentando entender o motivo de não gostar ou se eu simplesmente não entendia a música do Yes.

Nesse meio tempo, eu continuava ouvindo Rick Wakeman e não entendendo como uma cabeça conseguia pensar melhor que cinco, pelo menos na minha visão, embora o disco Journey to the Centre of the Earth não tenha sido assimilado tão facilmente nas primeiras audições.

(Agora, os mais exaltados podem estar pensando: “azar o dele”, que eu não tenho sensibilidade suficiente, ou algo assim. Um dia desses eu escrevo sobre ter interesse no rock progressivo mas não ser exatamente fã de carteirinha do Yes, Genesis ou ELP.)

Algum tempo depois eu descobri o Marillion e tive a tal epifania ouvindo um sujeito chamado David Gilmour. Mas isso é assunto para outro post. Ou não.

Corte para 2011.

Capa de Roger Dean, claro.

Tudo que foi dito acima foi para poder estabelecer uma espécie de background e chegar no momento que, com mais de 40 anos de carreira, o Yes lançou um disco novo, com Benoit David substituindo o “podicrê” Jon Anderson numa história confusa envolvendo bandas cover, tour, doenças e sei lá o que mais. O resultado de tudo isso foi o disco Fly from Here, que justamente por contar com novo vocalista, me causou curiosidade e valeu uma audição. E outra. E mais uma. Quando me dei conta, eu tinha ouvido um disco do Yes algumas vezes seguidas, e estava gostando. Troquei alguns e-mails sobre isso com meu amigo Sérgio, que escreve com muito mais know-how a respeito das gravações e outros aspectos técnicos do disco no seu blog Rock do Xaxim, já que, como ele mesmo diz, o Yes é sua banda preferida.

A primeira e positiva impressão foram justamente os vocais de Benoit David, que fez parte de uma banda cover do Yes e me soaram por demais agradáveis. O segundo aspecto foi a produção cristalina a cargo de Trevor Horn (de novo, veja lá no site do Xaxim a respeito). Mas nada disso teria efeito não fossem as músicas em si.

O disco começa com uma pequena faixa, Overture, que passeia ligeiramente por alguns dos temas principais do disco, para logo em seguida entrar de cabeça na longa suíte Fly from Here, que na primeira de suas cinco partes, We Can Fly, reaproveita músicas das sessões de gravação do disco Drama, de 1980 (casualmente o outro único disco do Yes que não conta com o vocalista Jon Anderson). Na seqüência vamos para Sad Night at the Airfield, a primeira faixa que me chamou a atenção e, se bem me lembro, foi a responsável pelo início da troca de e-mails a respeito do disco. Seu refrão, principalmente, me lembra alguma coisa que o Marillion poderia ter feito e muito provavelmente foi o que me fez gostar da faixa num primeiro momento. Independente disso, ela acabou se tornando uma das minhas preferidas do álbum, bem mais do que a anterior, que, sozinha, valeu um comentário do Sérgio no seu blog.

Na terceira parte, somos reapresentados a mais um dos temas da faixa de abertura com Madman at the Screens e então temos a dispensável Bumpy Ride, que como o próprio nome poderia sugerir, é algo truncada e acaba soando forçada e não funcionando. A suíte encerra com uma curta e boa reprise do tema de We Can Fly.

Temos também Solitaire, a quase obrigatória faixa “solo” acústica de Steve Howe, e ainda num clima mais acústico, a mais alto-astral Hour of Need, outra das minhas preferidas.

Fly from Here, como um todo, é bastante agradável, com poucos momentos que possam ser absolutamente dispensáveis.

Alguns provavelmente acham que o disco todo o é, mas isso não vem ao caso. Para outros, é um disco onde o Yes não soa como o Yes que eles esperam. O que, para outros ainda, é uma grata surpresa. É fato que a excelente produção a cargo de Trevor Horn desempenha papel fundamental nessa impressão, onde todos os instrumentos soam muito bem e junto com os vocais de Benoit David formam uma unidade bastante coesa.

Não quer dizer que eu tenha virado fã de carteirinha do Yes ou meu interesse neles tenha sido reavivado. Não. Eu gostei do álbum em si, independente dele ter sido gravado ou não pelo grupo. Mas, como foi, resta saber se eles seguirão com essa formação e como ela se sairá com mais material inédito, se é que ele virá.

Eu vou querer ouvir.

Que venham as pedras.

Uma resposta

  1. […] Em tempos de SOPA, PIPA, lamentações sobre links quebrados e argumentações por vezes fajutas defendendo o “livre acesso à cultura”, lembro dos tempos em que este “acesso” foi mais difícil. Já comentei em outro post. […]

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