Então martela o martelão

Filho meu, sabeis vós a diferença entre o leão e o veado?

Fãs de quadrinhos costumam ser apontados como infantiloides fanáticos sem noção de ridículo. Há um bom motivo para tanto: os mais acerbos e engajados em debates bizantinos sobre a matéria de fato são isso mesmo. Peguemos o exemplo do filme Thor, mais um capítulo da saga Marvel de dominação mundial que vai desembocar, sabe-se lá como, no prometido Os Vingadores, daqui a um ou dois anos. As críticas ao filme não têm sido das mais entusiasmadas, e o número de marvetes (sempre achei esse adjetivo muito constrangedor) que estrila nas caixas de comentários de veículos de imprensa mundo afora apresentando argumentos absolutamente idiotas para defender o filme da “grande mídia má” chegaria a ser comovente se não fosse irritante.

O que esse fãs, e a própria Marvel, parecem não ter se dado conta, é que a transposição de uma história em quadrinhos para a tela grande não é apenas fantasiar um bando de gente com roupas que um adulto sério não andaria na rua e fazê-los encenar o que está nos quadrinhos – é uma transposição de linguagens na qual o material original deve ser subordinado ao veículo de chegada, e não o contrário – como a Marvel parece inclinada a fazer. Para fazer filme de gibi, o essencial não é produzir um gibi animado com gente de verdade, é produzir um filme.

Uma das grandes potencialidades da forma cinematográfica é criar sequências de imagens em movimento que passam mais tarde a fazer parte do patrimônio cultural comum da humanidade. Embora uma história bem contada seja desejável, só isso não faz um bom filme, porque o cinema tem produzir, ao menos em algum momento, imagens únicas, imagens que consigam refrescar o panorama audiovisual e renová-lo exatamente como a poesia e a melhor prosa fazem com a linguagem verbal.

Na linguagem de quadrinhos, essa assinatura visual singular de uma obra é providenciada pelo próprio traço de um artista. Como não tem restrições físicas de angulação porque a “câmera” que utiliza é a própria imaginação, um desenhista de quadrinhos pode enquadrar uma cena de qualquer ângulo. A própria identidade do traço do artista – quando ele tem uma, e portanto é um grande artista — já basta para tornar uma obra algo particular mesmo quando a imagem usada é uma referência a outra coisa (como um quadroou mesmo uma cena icônica dos próprios quadrinhos, como as imagens de capa das histórias originais de Super-Homem e Homem Aranha, recriadas vezes sem conta e um pouco diferentes a cada vez).

Em cinema, a assinatura visual de um filme de estúdio, trabalho de equipe em escala industrial, é mais difusa, e portanto é preciso que um filme apresente algo original para ficar na memória, em termos visuais. Não basta uma historinha. E nesse sentido, Thor peca porque sua história é manjada por um lado, indiferente por outro, e a sua construção visual é uma colagem de coisas já vistas em um bom número de filmes recentes – não há nada de novo na forma como o material é tratado, e portanto, não há nada de relevante enquanto cinema – mas é óbvio que muitos que acham que cinema de quadrinhos deve ser uma extensão das brincadeiras de action figure da infância até podem ver mais méritos do que o filme de fato tem… E não deixa de ser surpreendente encontrar tanta mesmice em um filme dirigido por Kenneth Branagh, grande diretor de atores e o homem que transformou Hamlet e Muito Barulho por Nada em adaptações de visual impecável.

Thor abre com um prólogo em off narrado pelo deus Odin, interpretado por um Anthony Hopkins cada vez mais viciado no pôquer, pelo jeito. O “Pai de Todos” conta a árdua e difícil batalha para proteger Midgard, nosso mundo, da sanha dos Gigantes de Gelo. Com direito ao choque dos exércitos em sequências de cores pesadas e sombrias – chupadas diretamente do início de O Senhor dos Anéis, como lembrará qualquer um que tenha ido ao cinema nos últimos 10 anos. Assim como a tentativa frustrada de Thor para recuperar seu martelo, que está sendo estudado pela Shield, parece refugo de algo que não aproveitaram no 24 Horas.

Se no que devia inovar o filme não faz diferença, as mudanças que de fato foram feitas têm ainda menos sucesso. Personagem secundário mas imponente nas HQs, Heimdall é uma figura de relativa importância na trama, e é… negro. Assim como Hogun é chinês (se bem que essa até se justificaria forçando muito a barra, porque Hogun sempre foi desenhado nos quadrinhos mais como um mongol que como um nórdico). O absurdo de levar o politicamente correto a extremos tão aberrantes quanto ter um ator negro como um deus nórdico pode muito bem ser avaliado fazendo-se o percurso contrário. Imagine que um estúdio resolva fazer um filme de fantasia sobre o rico imaginário africano iorubá, e o resultado fosse algo como Xangô, o Deus do Trovão. E resolvessem que seria legal retratar Exú, o mensageiro e o deus das encruzilhadas, como um duende ruivo irlandês, ou como um loiro de cabelo cacheado, escolham a inapropriação que quiserem e terão uma ideia do que estou tentando dizer.

Se você quer mesmo ajudar a procurar as chaves, está olhando para o lado errado

Em linhas gerais, a história em Asgard segue o que todos os que já leram o gibi sabem: Thor é arrogante, indomável, e põe em perigo uma trégua milenar entre Asgard e a terra dos Gigantes de Gelo pelo seu temperamento impetuoso. Privado de seu poder, ele é enviado à Terra. Resgatado pela astrofísica gracinha Natalie Portman, é deixado em um hospital e, ao acordar, arma um barraco trajando apenas um avental de paciente. Se pintassem o Thor de azul na computação gráfica, a cena do sujeito acordando e empurrando médicos e enfermeiros seria igual à do primeiro despertar do herói de Avatar no corpo Na’Vi. O filme também apela para uma atmosfera de drama shakespeareano na figura de Loki e sua tragédia pessoal como o filho preterido em nome do irmão – que além de tudo é filho legítimo do soberano Odin, enquanto Loki é um gigante enjeitado admitido na corte de Asgard. Mas, e seria de esperar que Branagh notasse, como diretor shakespeareano que é,não dá para fazer de tudo Shakespeare quando o texto e os diálogos não estão à altura dos do bardo – fica-se com um arremedo de teatro infantil em uma Asgard dourada que parece carro alegórico de Joãozinho Trinta. A suntuosidade dourada daquela Asgard de computação gráfica contrasta, e muito, com a caracterização dos personagens, especialmente Sif e os três guerreiros, que parecem vestir o que sobrou de um saldão carnaval sado-masoquista.

Nessa maçaroca não de todo consistente, há coisas que têm lá seu destaque e merecem ser mencionadas.  O trabalho do ator Tom Hiddleston como Loki é louvável, dado o pouco que ele tem para trabalhar. O cara que faz Thor tem o porte físico necessário – embora seja um ator de recursos mínimos, quase inexistente. Natalie Portman é gata, todos sabemos, mas está lá para ganhar seu dinheirinho e se manter no posto de musa nerd para ter opções aos filmes de arte em que de fato se empenha. A parte do filme passada na Terra, embora lembre vários outros filmes em que a “inadequação” do ser divino diante dos mortais é instrumento de humor, consegue ser bem melhor conduzida, embora a redenção que vai tornar Thor digno de seu título outra vez seja apressada e sem nuanças.

Mas, é claro, muita gente vai dizer que isso não tem importância porque a Marvel está preparando “o filme dos Vingadores”. Só que do jeito que a coisa vai, o tão falado “filme dos Vingadores” não será um filme, porque falta aos Estúdios Marvel uma concepção mais acurada do que seja de fato cinema.

4 Respostas

  1. Eu já tô começando a achar que eles não tão mirando o filme dos Vingadores como ponto de chegada, e sim um crossover entre os Vingadores e os X Men.

  2. “Uma das grandes potencialidades da forma cinematográfica é criar sequências de imagens em movimento que passam mais tarde a fazer parte do patrimônio cultural comum da humanidade. Embora uma história bem contada seja desejável, só isso não faz um bom filme, porque o cinema tem produzir, ao menos em algum momento, imagens únicas, imagens que consigam refrescar o panorama audiovisual e renová-lo exatamente como a poesia e a melhor prosa fazem com a linguagem verbal.”

  3. Eu não vejo como o filme possa ser diferente disso que tu escreveu.
    Não assisti ainda, mas já tinha minhas ressalvas quando foi divulgado que o Hopkins seria o Odin
    e quando vi as fotos daquela Asgard toda colorida e dourada.

    Mas, enfim, tem a Natalie Portman…🙂

  4. Trocando algumas palavras e situações, pode servir também como resenha para o segundo filme…

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