True Grits

Um garoto de 12 anos de idade e um velho peão subiram cavalgando o topo de uma colina no Arizona, para checar um moinho de vento: uma grande tempestade assomava sobre a região e eles precisavam trancar as pás antes que o vento as atingisse. Quando terminaram o serviço, pararam para observar as nuvens negras e os raios no céu. Inspirado pelo clima sombrio, o velho vaqueiro disse ao garoto que, se olhasse com atenção na direção das nuvens, poderia avistar o rebanho do Canho, com seus olhos vermelhos, cascos de ferro, chifres negros brilhantes, um hálito tão quente que podia ser sentido da terra e a marca no pelo ainda em brasa. Atrás da sinistra manda seguia um grupo de vaqueiros amaldiçoados, obrigados a tocar a boiada através da eternidade. Cantavam um triste lamento, que podia ser ouvido por todo o vale: Yippie yi yaaaaay… Yippie yi Oohhhhh…

Impressionado, o menino montou seu cavalo e tocou rapidinho para a segurança de casa. Tempos mais tarde, no dia em que completaria 34 anos, esse mesmo garoto sentaria junto à soleira da porta de sua casa no Death Valley, e recordando aquela tarde tenebrosa junto ao moinho, escreveria uma canção. O ano era 1948, o rapaz se chamava Stan Jones e a canção era Ghost Riders in The Sky: a cowboy legend.


Stan Jones

Ghost Riders in the Sky (doravante GRITS) evoca uma atmosfera fúnebre, lúgubre, que lembra em muito a Caçada Selvagem, recorrente em muitas mitologias europeias, notadamente a escandinava. É provável que o velho vaqueiro que contou a história ao menino Jones tenha ouvido alguma versão dessa história e adaptado ao ambiente do western norte-americano. Da iconografia referente a esse mito vale a pena destacar a pintura de Arbo.

Burl Ives, grande ator e tenor, gravou a canção pela primeira vez em 17/02/1949, sem muita repercussão. Passado um mês, no entanto, foi a vez de Vaughn Monroe, um barítono, regravá-la. O resultado: número um nas paradas. Dois grandes guitarristas participaram dessa sessão: Don Costa (sim,o pai da Nikka) e Bucky Pizzarelli (sim,o pai do John).

Passadas mais de seis décadas, dezenas de artistas cantaram a música de de Jones: Bing Crosby, Frankie Laine, Gene Autry, Peggy Lee, Dick Dale (surf style), The Ventures (surf style again), Elvis (King style), The Shadows (twang style), Concrete Blonde (Blonde style), Debbie Harry (Blondie style), Children of Bodom (finnish death metal style), Christopher Lee (?!Dracula style?!), Dean Martin (Dino style), R.E.M., Dixie Chicks,

Uma das melhores covers de GRITS foi gravada por Dan Aykroyd e John Goodman para Blues Brothers 2000, em uma sequência que lembra bastante aquela da Rawhide, no filme original. “Doc, give me a mountain tempo in a minor”:

Desde os anos de 1960, o refrão de GRITS é cantado pelos torcedores do Aston Villa, que modificam a letra incluindo o verso “”Holte Enders in the Sky“, em uma alusão aos ocupantes da enorme arquibancada existente no lado sul do Villa Park Stadium.

Yippie yi yaaaaay… Yippie yi Oohhhhh…

Embora não exista confirmação, acredita-se que GRITS tenha inspirado Stan Lee na criação do Motoqueiro Fantasma. Na abertura da tenebrosa (no mau sentido) versão cinematográfica ouvimos a cover cometida pela Spiderbait. Apesar do arranjo ok, o vocal lembra mais um faceiro leprechaun trajando seu terninho verde, bebendo e dançando sobre um pote de ouro. Não adianta, pra essa música funcionar, tem que se cantar com voz de barítono, voz de homem.

Em outros países também foram gravadas versões de GRITS, nos respectivos vernáculos: em alemão, em espanhol, italiano… Como não poderia deixar de ser, também os brasileiros colaboraram: os Trigêmeos Vocalistas, em 1950, gravaram a adaptação de Santos Rodrigues, batizada Vaqueiros de Marajó(!!!). Milton Nascimento gravou Cavaleiros do Céu em 1981, para o álbum Caçador de Mim. E há uma versão que tocava na novela Ana Raio e Zé Trovão, culpa de uns tais Denis e Demian.

Os gaúchos com mais de trinta anos com certeza carregam na memória (afetiva ou não, dependendo do gosto do vivente) a lembrança de uma canção “de vaqueiro” em particular: Os Homens de Preto, gravada pelo Grupo Caverá. É a música que tocava (ainda toca?) nas chamadas e na abertura do Campo & Lavoura, programa que a RBS TV transmite há mais de 300 anos. Ainda que o Anhangá não figure na letra, Os Homens de Preto remete àquela mesma ambientação fúnebre e angustiante de GRITS.

E por falar em homens de preto, encerro o post com aquela que considero a melhor das versões de Ghost Riders in the Sky, justamente na voz daquele que é o Homem de Preto por excelência.

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