De olhos bem abertos

John Malkovich, o Ney Latorraca deles.

No início dos anos de 1990, quando Stanley Kubrick estava envolvido com a pré-produção de De Olhos Bem Fechados, um camarada saiu pela noite de Londres fingindo ser o famoso diretor novaiorquino, apesar de não conhecer quase nada de sua obra e de não se parecer nem um pouco com ele. Alan Conway (nomes que condicionam destinos? O Scliar ia curtir essa) era um tremendo 171, que engrupiu até mesmo gente do mundinho VIP inglês, convencendo a todos de que era o diretor de 2001, ainda que não tivesse barba e usasse uns acessórios assim, meio Laerte.

Totalmente Kubrick (Color me Kubrick, 2007) conta a história de Conway, e só pela premissa já despertaria curiosidade. Mas a situação esdrúxula é bem explorada pelo roteiro, que tem o indiscutível mérito de fugir do falso moralismo, tão em voga no cinemão atual. Fosse um filme americano e o personagem fatalmente se arrependeria e buscaria a redenção no fim. Além de um script  inteligente e ousado, Totalmente Kubrick tem o privilégio de poder contar com um protagonista diferenciado, John Malkovich. De acordo com o diretor Brian Cook, “o papel de Conway deveria ser entregue a alguém cujo nome fosse amplamente conhecido, mas a aparência não, assim como Kubrick.” Definitivamente um sujeito de outra divisão, Malkovich deita e rola na pele do desavergonhado. E assim como em Quero Ser John Malkovich, novamente se permite fazer piadas consigo mesmo, conforme é possível conferir a 0:47, no trailer.

O bom, o mau e o vesgo.

Conway era um sujeito fidelíssimo à Lei de Gérson, procurando levar vantagem em tudo (certo?); tal conduta estava tão fortemente arraigada em sua mentalidade que ele era incapaz de compreender como era possível que os outros também não agissem dessa forma. Era um predador sem a menor consideração pelos sentimentos alheios: com a conversa de que era Kubrick conseguia levar garotos para a cama (sim, ele era), ganhava presentes caros (até uma caneta Mont Blanc) e chegou até a fechar acordos comerciais com empresários da noite londrina. As vítimas, como é comum em casos de estelionato, ficavam envergonhadas a ponto de não desejarem  prestar queixa contra o pelintra, que assim ficava com o caminho livre para seguir aplicando das suas.

Abram alas para Stanley Kubrick e sua bolsa Louis Vuitton.

Histórias como a de Conway despertam a curiosidade – e mesmo a simpatia do público – que aceita submergir no jogo de suspensão moral , chegando até a desejar que o estelionatário se dê bem. Quem não torceu por Newman e Redford em Golpe de Mestre? A gíria usada pelos gringos para designar o trambique, con, deriva de confidence trick, que é como eles chamam o estelionato por lá. O interessante é que alguns desses sujeitos são chamados de con artist, ou seja, lá na terra do Obama a picaretagem foi elevada ao status de arte.

Outro caso da mesma natureza que o de Conway, e que chamou bastante a atenção, foi o de David Hampton, que nos anos 80 fingiu ser filho do Sidney Poitier, beneficiando-se largamente da situação. Sua história também virou filme, Seis Graus de Separação, um dos primeiros do Will Smith. E aqui no Brasil ficou famoso o caso de Marcelo Nascimento da Rocha, picareta de marca maior que afirmava ser herdeiro da família Constantino, das linhas aéreas Gol. O cara chegou até a ser entrevistado pelo Amaury Jr. Adivinha se essa também não foi para o cinema?

O que esses dois outros casos têm em comum é que os descarados afirmavam serem parentes de pessoa famosas ou influentes. Já Conway era um falcatrua tão às ganhas que sustentava na cara-dura ser o PRÓPRIO Kubrick, um diretor que, embora avesso às câmeras e à badalação, tinha um rosto relativamente conhecido, pelo menos nas rodas culturais. A reação de Kubrick, bem como outros detalhes dessa história maluca, podem ser conferidos aqui.

Após ter sido finalmente preso e cumprido a pena pelos seus crimes, Conway morreu em casa, aos 64 anos, poucos meses antes do próprio diretor bater as botas, em 1999.  Nesse caso particular o imitador foi Kubrick.

Fosse nos anos 70, Peter Sellers seria o protagonista desse filme. E  acho que Kubrick teria o máximo prazer em dirigi-lo.

Uma resposta

  1. Dica sensacional, esse filme parece ser muito bom!

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