Um Filme é para um Livro

Este alerta aqui em particular andava meio relapso em contribuir para o nosso amável bloguinho, mas revirando suas estantes para arrumar alguns livros recém-adquiridos encontrou o pretexto ideal: um exemplar do livro Um Filme é Para Sempre (Companhia das Letras, 440 páginas), de Ruy Castro, comprado faz mais ou menos um mês na Bamboletras do Guion enquanto esperava minha senhoura (e, felizmente, uma alerta ainda mais relapsa do que eu) sair do Kung Fu. Contrariando a tendência em voga no atual cinema, em que é mais fácil ver boi voando do que uma ideia que não tenha saído de algum outro lugar, Um Filme é Para Sempre não é um livro que virou filme. São dezenas de filmes que viraram um livro.

Além de seu grande talento como biógrafo, fruto de um esforço de reportagem respeitável a cada livro do gênero que publica, Ruy Castro é um escritor de prosa inspirada, e essa é a chave para o prazer com que se lê seus livros, mesmo aqueles que não foram fruto da reportagem investigativa árida que deu origem a Estrela Solitária e O Anjo Pornográfico. Em Um Filme é Para Sempre, a exemplo do que já havia feito em meados dos anos 90 com Saudades do Século 20, Ruy Castro não é apenas um repórter contando o que apurou, mas um elegante charlador dividindo com seus leitores informações que recolheu em mil e uma outras fontes, empacotou em sua prosa ao mesmo tempo refinada, inventiva e coloquial e serviu como um acepipe delicioso para dar mais gosto à conversa.

O livro reúne 60 artigos que já haviam sido publicados em diversos veículos de imprensa como Veja, Folha de São Paulo, Bravo!, Jornal do Brasil e O Estado de São Paulo – este último, o jornal que publicou a maioria dos textos. É um volume tão interessante que eu, mesmo já tendo lido a prova em xerox que a editora me enviou na época do lançamento do livro, há uns três anos, achei por bem adquiri-lo em seu formato nobre de papel – que, no futuro, quando a massa ignara estiver zumbificada em frente a seus leitores virtuais, será objeto de culto de alguns poucos e incompreendidos esnobes como este que vos escreve.

Ah, sim, eu falava do livro. Os artigos ali reunidos mesclam crônica e crítica, e navegam dos primórdios do cinema a filmes contemporâneos – pero no mucho, uma vez que 2001: Uma Odisseia no Espaço, os filmes de Roger Corman e Bonnie & Clyde parecem ser o limite cronológico para a maioria dos textos do livro. São histórias de grandes filmes e de grandes personagens que ajudaram a consolidar a linguagem do cinema pelas décadas seguintes – como Busby Berkeley, Mark Sandrich, passando pelo maquiador Max Factor e pelo roteirista William Goldman, para citar uma ínfima parte.

Ao resenhar a biografia deste último, Adventures in the screen trade, Ruy Castro não deixa de implicitamente tomar o partido do roteirista, insatisfeito com a hegemonia alcançada nos tempos modernos pelo conceito de “cinema de autor”  inventado  pelos franceses – e que fez dos diretores os únicos iluminados criadores de uma obra que, na maior parte dos casos, é o resultado dos esforços de uma equipe talentosa de técnicos e artesãos relegados a segundo plano pela frase “um filme de… Fulano“. Castro até mesmo compartilha uma história engraçadíssima contada no livro de Goldman, protagonizada pelo roteirista Ernest Lehman:

Lehman estava dando uma entrevista num Festival de Cannes a respeito de Trama Diabólica (…), do qual ele escrevera o roteiro, quando um jovem crítico francês lhe explicou como tinha decifrado a complexa simbologia na placa de um carro que aparecia no filme: 885 DJU. Lehman ouviu a longa teorização com o maior interesse, mas observou:
‘Olhe, detesto desapontá-lo, mas a razão pela qual usei aquele número na plac é que era o número da placa do meu carro, e achei que era legalmente mais seguro do que inventar uma outra que pudesse pertencer a alguém’
“.

Os textos de Ruy Castro, como se vê, são leituras, não apenas compilações. Percebe-se que cada um deles traz uma tese de fundo, com a qual se pode concordar ou não. Ao falar sobre Jerry Lewis, o herói da infância de mais de uma geração de espectadores, e sobre a tumultuada parceria entre ele e Dean Martin, Castro aventa que, apesar de Lewis ter sido desde aquela época a metade mais talentosa da dupla, era Martin que Lewis almejava ser: o sujeito tranquilo, desencanado, cantor talentoso e que na tela projetava uma imagem que era a essência do “cool” – eu disse “cool”, prestem atenção. Ao releembrar a trajetória dos talentosos dançarinos/cantores/atores Irmãos Nicholas, Castro arrisca que os dois elegantes bailarinos negros só não tiveram a projeção devida em seu tempo (anos 30 e 40) justamente por serem negros.

Ruy Castro é um delicioso contador de histórias, e seus textos são, na maioria, declarações apaixonadas de admiração por todos aqueles que o ajudaram a construir seu mundo de referências. O que explica também a já mencionada presença tímida do cinema contemporâneo, já que Castro é um entusiasta do grande cinema americano da primeira metade do século 20, de alguns filmes franceses da época em que Ruy e seus amigos os devoravam no Cine Payssandu e até de produções nacionais.

Há também uma defesa extensa e acalorada do musical como gênero – algo que agradaria ao colega Espantalho – e uma série de informações saborosas. Sabiam os senhores que a contagem regressiva só foi adotada como forma de antecipar o lançamento de uma nave ao espaço depois que o alemão Fritz Lang a inventou para o filme A Mulher na Lua, em 1930 (até ler o livro eu não sabia)? “Numa cena em que o foguete vai ser disparado, o roteiro previa uma contagem de 1 a 10. Mas Lang temeu que a cena não funcionasse, porque a platéia não podia saber quando a contagem terminaria. Então lhe ocorreu contar ao contrário, de 10 a zero — o countdown — e sua idéia foi adotada pela ciência“.

Sabiam também que, apesar da longa tradição inglesa e francesa na área da ficção científica, a idéia clássica do “robô” foi criada por um checo (essa eu sabia)? “Foi o escritor checo Karel Chapek (1890 – 1938), em sua peça R.U.R., de 1921 — os robôs da história seriam escravos mecânicos e o nome vinha da expressão robota, “trabalho forçado”, em checo“. Chapek, a propósito, que alguns grafam Tchápek, teve nos anos 90 um volume de contos, Histórias Apócrifas, lançado pela Coleção Leste, da editora 34, mas acredito que a esta altura já esteja esgotado. Falo dele noutra ocasião, quando tiver paciência e determinação para um novo post.

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7 Respostas

  1. E essa prova em xerox, ainda existe? hehe

    Empatei contigo: desconhecia essa da contagem regressiva, mas já manjava a do RUR, que – aproveito a deixa pra colaborar – significa Rossum’s Universal Robots

    http://en.wikipedia.org/wiki/R.U.R._%28Rossum%27s_Universal_Robots%29

    A capacidade que esse Castro tem de sintetizar ideias/teorias complexas em pílulas facilmente deglutíveis pelo vulgo é objeto de grande inveja da minha parte. Inveja negra mesmo…

  2. Sobre a capa: a dona daquelas canetas atendia pelo nome de Cyd Charisse, e morreu faz uns dois anos. Nunca antes na história do cinema houve um par de pernas tão belo. Nem depois.

  3. Há um texto sobre ela, no livro. E o Castro advoga essa mesma opinião: a de que a mina teve as “pernas mais belas do cinema”. Há também um texto sobre o Gene Kelly – e de como ele aprendeu praticamente tudo com o irmão, Fred Kelly.

  4. Fiquei afim de ver esse Woman In The Moon.

  5. Não seja por isso: http://www.youtube.com/watch?v=CaVLaD4vfBc

  6. Hmm…
    Obrigado pela oferta mas só aceito ver em avi/mp(e)g ou DVD com audio contendo essa trilha aqui: http://www.youtube.com/watch?v=I8gu1p939a4&feature=related
    As legendas podem ser em arquivo separado ou embutidas mas tem que ter também, né…

  7. “insatisfeito com a hegemonia alcançada nos tempos modernos pelo conceito de “cinema de autor” inventado pelos franceses – e que fez dos diretores os únicos iluminados criadores de uma obra que, na maior parte dos casos, é o resultado dos esforços de uma equipe talentosa de técnicos e artesãos relegados a segundo plano pela frase “um filme de… Fulano“.

    Alan Parker também demonstra certa insatisfação com esse conceito numa entrevista nos extras do dvd do “The Wall”…

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