Ruim demais pra ser mentira

No prólogo de Ficções (1944), Jorge Luis Borges escreveu: “Desvario laborioso e pobre o de compor livros extensos; o de espraiar em quinhentas páginas uma ideia cuja perfeita exposição oral cabe em poucos minutos. Melhor procedimento é simular que esses livros já existem e oferecer um resumo, um comentário”.

Seguindo o conselho do gigante portenho, tomo a iniciativa de descrever esta ideia para um romance, um improvável cruzamento entre os universos de Cassandra Rios e Edgar Allan Poe:

A menina é criada pela mãe, uma fervorosa neopentecostal. Com a chegada da adolescência e dos hormônios o conflito torna-se inevitável: os hábitos liberais da mocinha fazem com que a mãe a expulse de casa e ela vai morar com o pai, contra quem  pesa uma condenação judicial por estupro de menor. Já crescida, a moça troca o lar paterno pela cidade grande. Na metrópole, vira atriz pornô, recepcionista de eventos e notória maria-chuteira, envolvendo-se com um atleta multicampeão, ídolo e capitão do clube de maior torcida do país.

O jogador  fora abandonado pelos pais pouco depois do nascimento, tendo sido criado pela avó. Sua mãe, que ele só foi conhecer aos 18 anos de idade, já respondeu processo por tentativa de homicídio. Ele é casado, o que não o impede de ter um caso com a moça, que tempos depois reaparece grávida, alegando ser ele o pai da criança. Com a ajuda do melhor amigo, com quem convive estreitamente desde a infância, o jogador obriga a gestante a ingerir substâncias abortivas. A gravidez, entretanto, não é interrompida. O caso vai parar na delegacia, atraindo a atenção de parte da imprensa.

Tempos depois, após o nascimento da criança, os dois amigos, com a ajuda de um ex-policial e um menor, sequestram, aprisionam, torturam, esganam, esquartejam e jogam os restos da moça aos cães. Os ossos são concretados em lugar incerto.

O atleta e os cúmplices são presos. O crime vira assunto obrigatório de norte a sul do país. No xilindró, os policiais descobrem tatuada na pele do amigo de infância uma espécie de jura de de amor ao desportista. O avô da criança perde a guarda do menor por conta da condenação por estupro e o bebê vai morar com a avó no interior.

Em poucas linhas, está posto.

Mas pensando bem, são tantos – e tão bizarros – os elementos presentes nesta trama, que é melhor abandonar a ideia. Ficção demais. Tão pouco verossímil que ninguém acreditaria. E como disse um personagem vivido pelo grande Armin Mueller Stahl no recente Trama Internacional, “a diferença entre a verdade e a ficção é que a ficção deve fazer sentido.”

2 Respostas

  1. Nesses dramas da vida real ninguém costuma lembrar de um tipo de vítimas, os animais.
    Ninguém ousou sentir pena de pobres caes escravos obrigados a ficar longo tempo com fome (tortura) com o objetivo de devorar coisas que seu senhor quer que desapareçam. Não, para as pessoas em geral eles são apenas bandidos (já culpados) e de 2° escalão.

  2. “Nenhuma fera é tão selvagem a ponto de não conhecer um toque de piedade. Mas, se não conheço nenhuma, portanto não sou fera.”

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