Impuiando o Tremendão

Mesmo que seja eu minuto-a-minuto

00:00 – Trata-se de clássico do cancioneiro nacional, carro-chefe do disco Amar pra viver, ou morrer de amor (sic), de 1982. Pra quem não lembra – ou nunca ouviu falar – esse é o famoso álbum em que  Erasmo Carlos aparece rasgando o próprio peito na capa (ui, ui…) e uma pomba branca sai voando de dentro de sua caixa torácica (ui, ui…). Pretendiam que esta fosse uma imagem de  forte impacto dramático. O nobre ilustrador (Benício), entretanto,  inventou de  reproduzir o diastema na arcada superior do cantor, conferindo-lhe um involuntário ar de Zacarias. Puta Sacanás.

00:03 – A canção começa embalada ao som de uma guitarrinha, que se nao for do velho  e fiel escudeiro do Raulzito, o Rick Ferreira, eu como o meu chapéu.

00:08 – O cenário é um saloon do velho oeste. Erasmo está vestido como um cowboy, com um lencinho preto com bolinhas brancas amarrado no pescoço (ui, ui…). O que é que tudo isso tem a ver com o tema da música? Absolutamente nada. Mais provável é que a produção tenha reaproveitado um cenário dos Trapalhões ou do Chico City, pa modi não gastar a rica bufunfa do doutor Roberto Marinho.

00:09 – O lugar está cheio de bailarinas, todas paralisadas como estátuas. O porquê, ignoro.

00:19 – Apoiado sobre o balcão do bar, o Tremendão ensaia umas expressões  pensativas. Acting! Nos pulsos, couro e muitas tachas de metal. Headbanger pra caraio! Rob Halford com cabelo crespinho.

00:25 – Erasmo cochicha ao pé do ouvido de uma das bailarinas imóveis: “Sei que você fez os seus castelos e sonhou ser salva do dragão”. A mina nem bola dá pra ele. O Tremendão, intrigado, resolve encostar o indicador no ombro da moça, que miraculosamente sai de seu transe. Pô, o cara é foda! Se ele consegue fazer isso, imagina só o que o Rei não deve conseguir?

00:59 – O Tremendão beija a mão de outra corista-estátua, que também acorda. Nesse mesmo instante, ele canta o verso “sozinha no silêncio do seu quarto procura a espada do seu salvador” e faz uma careta maliciosa. O Tremendão é assanhadinho… Vale ressaltar que durante todo esse tempo a primeira bailarina que foi acordada fica se balançando pra lá e pra cá, numa bizarra coreografia, que nem de longe deve ser confundida com milenar arte da dança.

01:00 – Bah! O Rei está presente (ainda que seja por intermédio de um chroma key maleporcamente enjambrado)! Também está vestido como um risonho vaqueiro norte-americano, e curte o balanço com seu cabelinho soul glo.

01:07 – Erasmo acorda outra cancanista apenas com um leve sopro nas pluminhas no alto de sua cabeça. O cara é ninja preto!

01:18 – Um gesto altamente desnecessário, só pra ilustrar um “hey” que existe no meio da música.

01:37 – Basta encostar na flor que adorna o cabelo da moça que ela acorda. O príncipe da Branca de Neve, perto do Erasmo, é um mero bobo da corte.

01:35 – Tá certo que ele é o Erasmo, mas não é por causa disso que ele teria que obrigatoriamente fazer o elogio da loucura. A mina traz uma flor no pescoço, que ele usa como se fosse um microfone. Basta cantarolar o trecho “filosofia é poesia, já dizia minha vó” que ela se acorda. Menas, Erasmo, menas.

02:20 – Duas cancanistas-estátua, meio borocoxós. Pela expressão facial do talentoso Erasmo, percebemos que será um árduo desafio. Mas para não deixar margem pra dúvidas de que a empreitada é dura, ele ainda  esfrega as mãos e arregaça as mangas da camisa. Basta um abraço e uma fungadinha de leve no busto de uma delas, que as raparigas se acordam animadinhas.

02:46 – O cara que desenhou o cenário é pra lá de esperto: colocou um lampião a gás ao lado de garrafas de bebidas alcoólicas. Ainda bem que tá apagado.

02:48 – “…mesmo que esse homem seja eu…” Aparece o Rei apontando para si mesmo. Com essa segunda cena, está encerrada sua participação no clip. No total, ele apareceu dois segundos em cena. Ganhou do Hitchcock.

03:03 – A essas alturas, toda a mulherada do rendevú já tá acordada. Algumas dançam animadamente, como se estivessem na Banda de Ipanema.

03:24 – Hehe, esse Tremendão… Ao abraçar duas moças, ele quase apalpa o seio de uma delas com sua mão esquerda. Na hora H, ele deve ter lembrado que a bagaça tava sendo filmada e mudou o rumo da mão boba.

03:40 – That’s All Folks!

Uma resposta

  1. É um clássico como Menina Veneno.
    Nunca nenhum sertanejo fez versão disso?

    Tem que ser artista para cantar sério
    “filosofia é poesia, já dizia minha vó”.

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