“Disney Copy+Paste” ou “Quando a Disney Desanimou”

Há alguns dias nosso colega Trezentos mandou um e-mail com esse link do Youtube, fazendo o seguinte comentário:

Quando um ator repete sempre os mesmos trejeitos, as mesmas caretas e os mesmos gestos, tende-se a dizer que ele é “falho de recursos”.Que dizer então de um estúdio inteiro?

Bom, já faz um tempo que rolam na internet essas críticas aos Estúdios Disney por conta de algumas “semelhanças” nas seqüências de filmes feitos pela companhia, mais notadamente, se não estou muito errado, 101 Dálmatas, A Espada Era a Lei, Mogli, Aristogatas e Robin Hood.

Ao usar a expressão “falho de recursos” (ironicamente ou não), acredito que nosso colega tenha acertado no motivo que levou um estúdio, consagrado pela sua excelência em animação, a repetir essas cenas em vários de seus filmes.

Justamente a primeira expressão que me veio à mente foi “redução de custos”.

Vejamos. Vamos considerar que os filmes que mais aparecem ali são próximos entre si (1961, 1963, 1967, 1970, 1973), e Walt Disney morreu neste período (1966, aos 65 anos, vítima de câncer), então é válido especular que na época ele talvez já não apitasse muito mais na parte da produção. E, segundo informação do nosso colega Espantalho, todos esses filmes foram dirigidos pelo mesmo sujeito, Wolfgang Reinhardt.

Essa década também coincide com o surgimento da “linha de produção” da Hannah-Barbera, o que pode ter levado o estúdio a repensar seus métodos e baratear as produções. Com um intervalo de 3 ou 4 anos entre cada filme (e não havia internet na época…) talvez ficasse mais difícil perceber as semelhanças.

Em seguida, meus “argumentos” foram reforçados pelo e-mail do Tcheloco, onde ele escreveu o seguinte:

Ozamu Tezuka, criador de vários desenhos e mangás, praticamente iniciou o anime. Ele não tinha grana, então inventou um monte de coisas. Nessa época, os Hannah-Barbera já faziam os primeiros desenhos usando a técnica de reaproveitamento de acetato. Os estúdios Disney que não estavam tão bem das pernas, com a morte do Walt, foram para a TV. A TV ia acabar com o cinema, principalmente agora que os filmes e seriados inéditos e com melhor produção estavam bombando. Os executivos da Disney descuidaram do cinema, preferindo seriados e desenhos para a televisão. É só ver a “qualidade” dos desenhos na década de 70, principalmente, onde a maré ficou tão feia que cogitaram fechar o estúdio de animação para cinema. As produções só se pagavam no máximo… melhorou com a entrada do video. VHS salvou a pátria. Se o desenho empatasse, os merchandisings e VHS garantiriam grana nos próximos anos com o selo DISNEY CLASSICS. A soma disso só podia dar no que tem nesse vídeo aí. Reaproveitamento, custo menor…

Algumas coisas não entram no esquema “acetato é caro”, entra no esquema das gags. Se a piada deu certo, repita. É fácil. Correria que fez criança rir, vai fazer rir de novo. O curso de animação do Don Bluth e outros que passaram na Disney, incluindo o Animation Survivor Kit. Existem posições e perspectivas que são usadas SEMPRE. Como uma fórmula, nunca dá erro. É como a fórmula dos quadrantes para, com aspas bem grandes, “criar anúncios”. Não tem erro se a chamada ficar numa determinada posição e o logotipo noutra. Sempre dá certo. No caso de propaganda, se faz porque não está lá num dia muito criativo… no cinema talvez porque o custo seja tão alto que é melhor não ultrapassar em linha dupla. Tipo… segundo a regra, depois de uma cacetada, é engraçado ver o cara muito grande porém gentil não se mover, mas dizer um “ai” movendo apenas a boca. Se ele for um sujeito mau, a pancada não faz nem o cabelinho se mover. Escola de Tex Avery e Chuck Jones. Os dois inventaram essas 2 gags. É como acender um charuto enquanto se explode coisas.

Eu também havia escrito que achar que a cena do baile de A Bela e a Fera ter sido simples e descaradamente copiado do baile de A Bela Adormecida era forçar demais a barra, uma vez que, se eu bem me lembrava, o próprio A Bela e a Fera já havia sido considerado uma espécie de “volta à boa forma” do estúdio.

O Tcheloco, mais uma vez, confirmou meu raciocínio:

Já a Bela e a Fera dançando foi uma homenagem a Bela Adormecida. O contexto foi diferente. O estúdio estava dando uma última cartada, investindo pesado num filme de animação, como já não fazia há vários anos. Se não me engano, o filme anterior (seria A Pequena Sereia?) tinha dado até lucro. Eles resolveram investir. Também se não me engano, foi o Ron Miller, um dos que ficava sempre com o pé atrás, que resolveu apostar em animação de novo. Deu certo e o cara morreu no meio da produção do melhor de todos, O Rei Leão.

Era a retomada do estúdio de animação Disney.

Tem muitas outras coisas ai no meio dessa história, como a demissão de John Lasseter, quando mostrou 2 minutos de animação com computação gráfica como base. Foi um trechinho do “Onde Vivem os Monstros”. Não que fosse animar a história, mas para provar que dava certo. Foi demitido porque CG nunca ia dar certo e era muito caro para o cinema. O bom mesmo é fazer o mais barato possível. Só que isso é outra história e faz parte da virada na vida de Lasseter, Lucas e claro… Steve Jobs. Mas isso serve para ilustrar que a coisa não ia muito bem nos estúdios Disney e que a falta de Walt foi pesada durante muito tempo.

Podemos concluir que, sim, o estúdio estava “falho de recursos”, e provavelmente o financeiro seria o maior deles.

Os tempos eram outros, a audiência era outra, a concorrência estava tomando seu espaço, e a Disney teve que se adaptar.

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5 Respostas

  1. A Pequena Sereia é apontada como o ponto de partida no processo de ressurrreição do estúdio.
    Outros dois nomes sempre lembrados como responsáveis por esse ressurgimento das cinzas são o de Michael Eisner, que era o principal executivo do estúdio (durante muitos anos o cara foi célebre por receber “o maior salário do mundo”) e o do produtor Jeffrey Katzemberg, que pouco depois do Rei Leão, saiu da Disney com cacife suficiente para ser o “K” da Dreamworks SKG, junto com o Spielberg e o Geffen.

  2. Há tempos eu tô querendo fazer um post sobre os meus favoritos: Tex Avery, Chuck Jones, Fred Quimby, Leon Schlesinger e Friz Freleng… Enfim, sobre esse pessoal que descobriu outros usos para a bigorna.

    Agora até fiquei animado, vou ver se escrevo para levar adiante o debate, que tá legal.

  3. E por falar em Dreamworks, recomendo o Como treinar seu dragão, em 3-D.

  4. Lasseter voltou a caminhar pelos corredores da Disney fazendo um desenho bem tradicional. A Princesa e o Sapo. Isso seria o quê? Volta triunfal? Retorno as origens? Ironia do destino?

  5. Isso seria o que? Ora, seria um desenho pra lá de bacana!

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