Lobo bobo

As roupas rasgadas são fashion, mas uivar para a lua é tãão século 19...

A pergunta que O Lobisomem, filme de Joe Johnston com Anthony Hopkins (apático) e Benicio Del Toro (sonolento), tem me provocado desde que saí do cinema é: ainda há espaço para os monstros de horror clássicos? Será que essas criaturas, que experimentam tentativas de renascimentos periódicos  na cultura pop de tempos em tempos, ainda têm o que dizer ao mundo contemporâneo de terrores mais prosaicos e comezinhos?

No momento atual, quem domina o cenário são os vampiros, trazidos de volta em versões românticas e assexuadas, tão repletas de açucar que me admira que os atuais chupadores de sangue não sejam diabéticos – favor que devemos à escritora e dona-de-casa gorda Stephenie Meyers. Com o horror dominando outra vez a cena, ainda que um horror que não assusta ninguém, talvez o terreno se abra para que outras manifestações mais dignas de um dos gêneros mais antigos e nobre da arte seja revitalizado, correto? Bom, se uma dessas manifestações for esse filme do Lobisomem, esqueça.

O filme segue de perto a história da produção de 1941 dirigida por George Waggner e estrelada por Lon Chaney – o Jr., filho do consagrado “homem de mil faces” que havia criado um Mr. Hyde apavorante com muito pouca maquiagem. Mas os produtores, espertos, tiraram o “jr.” do rapaz dos créditos e do cartaz, provavelmente para induzir ao erro os espectadores numa época em que não havia blogs ou fóruns de discussão na internet para pôr a boca no trombone.

Mas o filme: o aristocrata Larry Talbot, que há anos deixou a mansão rural da família para excursionar pelo mundo como ator de prestígio (nos palcos nova-iorquinos, principalmente, é que o filme insinua na breve cena a respeito), recebe, durante uma passagem por Londres, uma carta informando que o seu irmão mais novo desapareceu. A correspondência é assinada pela bela noiva do irmão, vivida pela atriz gracinha inglesa Emily Blunt (e que em vários momentos do filme parece muito com a francesa igualmente gracinha Marion Cotillard, a Piaf), e é óbvio que nos tempos de horror açucarado que vivemos ela será o interesse romântico futuro do protagonista. O irmão aparece morto, aparentemente retalhado por uma espécie de fera. É o terceiro crime semelhante, que os supersticiosos locais (sim, a clássica cena de discussão na taberna está lá também) atribuem aos ciganos que recém acamparam nos arredores da aldeia: seja pela magia perversa dos forasteiros seja pelo urso que a tribo arrasta numa jaula, não se sabe direito com que finalidade a não ser oferecer um medinho conveniente aos aldeões. Essas suspeitas levam Talbot ao acampamento no exato momento em que os ciganos são atacados por um lobisomem e ele, para dar razão ao filme, será mordido pela criatura e amaldiçoado. O resto já se sabe.

Vampiros e lobisomens partilham, mais do que a imortalidade fictícia, a presença constante em folclores ancestrais – no caso dos lobos, a Grécia antiga, tanto que o romano Ovídio, em suas Metamorfoses, recupera a história do rei da Arcádia, Licaon (ou Licaão, depende do tradutor), castigado por Zeus com a transformação em um lobo por oferecer ao Todo-poderoso carne humana em um banquete, para pôr a prova a onisciência do senhor dos deuses. Embora dotado de inúmeras variações regionais, o homem tomado pela forma de um lobo devido a uma maldição é um dos elementos mais clássicos do repertório do horror – então por que não consegue emplacar uma no cinema desde os anos 198o (embora o Espantalho curta o Lobo com o Jack Nicholson, de 1994)?

Na literatura, até que o lobisomem tem visto uma que outra representação mais digna, como em contos de Neil Gaiman protagonizados por um lobisomem chamado exatamente de  Larry Talbot, em homenagem ao personagem original de 1941. Mas nos cinemas, os lobos têm sido relegados ao papel de coadjuvantes dos mais glamourosos (e às vezes xaropes) vampiros: na sacarínica Crepúsculo, já citada, o lobo índio está lá por dois motivos: fazer as meninas suspirarem no filme quando tira a camisa e servir de terceiro elemento em um triângulo amoroso de cartas marcadas desde o início, montado para que a colegial chatinha fique feliz para sempre (mesmo) com o vampiro emo. Não sei se tal ingenuidade não é uma virtude, uma vez que a série Underworld, anterior, era sombria e pretensiosa, por isso mesmo muito chata – e lá também a protagonista era a vampira Kate Beckinsale (em couro preto justíssimo, única coisa de mérito no filme), mudando de lado na guerra ancestral entre os chupadores de sangue e seus ex-escravos lobisomens.

O problema é que esse novo Lobisomem não tem vigor suficiente para tornar os homens-lobo pop outra vez. Amparado na ambientação sombria da Inglaterra vitoriana, Joe Johnston até começa criando um bom clima (tem de ser muito incompetente para não conseguir um clima numa mansão inglesa no meio do mato, convenhamos). Mas esse mérito é logo desperdiçado e substituido pela exasperação do espectador diante daquelas tentativas manjadas de sustos previsíveis: câmeras que se deslocam para onde não há nada e depois voltam para o espaço ocupado por uma ameaça enquanto a trilha de efeitos sobe ao volume máximo.

O lobo que se apossa de Talbot é uma criatura de natureza bestial que não pode ser controlada pela sua personalidade humana – e nesse sentido, se assemelha mais ao Mr. Hyde de O Médico e o Monstro ou mesmo ao Hulk dos quadrinhos.  A alusão não é despropositada, uma vez que o filme e sua colcha de referências inclui ainda King Kong e muito sangue e tripas ao estilo do terror barato contemporâneo. O problema – que não é pequeno para um filme chamado “O Lobisomem”  – é que a produção piora sensivelmente quando a criatura que lhe dá nome entra em cena. Talvez isso seja uma variação do que eu chamo de “Efeito Peter Jackson”. Explico: depois que o à época gorducho diretor provou que tudo era passível de ser mostrado com computação gráfica, parece que todo mundo quer VER tudo em cena (monstros? beleza. Trolls? beleza? travelling por dentro de uma mina lotada de trols e monstros? Beleza. Hulk que parece um balão de gás verde? beleza),e isso reduz bastante o impacto em filmes de terror – simplesmente não dá para assustar com bonecos de pixels uma gurizadinha que cresceu matando zumbis deformados no videogame. Talvez para salvar-se o horror precise voltar às origens, usando mais da sugestão e menos da imagem, recuperando a herança de uma época em que não se desenhava qualquer coisa no computador.

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Uma resposta

  1. Muito justo. Não vi o filme, justamente porque estava esperando que alguém o fizesse. Perguntando se o mundo precisa de outro filme de lobisomem, assim como se o mundo precisa de outro King Kong.
    Acho que lobisomem nunca meteu medo. O legal era ver alguém se transformando num. Nunca um lobisomem foi tão legal quanto o de “Um Lobisomem Americando em Londres.”. Esquece a história. O que interessa é o efeito especial e um ou outro susto causado pelo estrondo sonoro que pela cena.
    Com efeitos digitais, onde a realidade pode ser transformada em pixels e onde qualquer zé mané com um tutorial dos programas pode fazer o cunhado se transformar, a coisa toda perde a graça. Não há surpresa na transformação.
    Então, a resposta para se ter filme de terror só pode ser essa mesma. Sugestão.
    Até hoje tubarão é um espetáculo, porque o dito cujo quase não aparece no filme.

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