O novo Sherlock

Watson, você está usando salto alto?

A grande pergunta que pairava no ar acerca do Sherlock Holmes dirigido por Guy Ritchie – com a escolha inesperada de Robert Downey Jr. para o papel e com Jude Law como um dos poucos Watsons do cinema mais altos que o próprio Holmes _ era se o estilo marcado do diretor, já sobejamente conhecido por filmes como Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes conseguiria preservar, como havia prometido, a essência básica do personagem. Se Ritchie cumpre, ao menos em parte, essa tarefa, é porque, como qualquer personagem  desenvolvido reiteradamente por seu autor ao longo de 30 anos, quatro romances e 56 contos, Holmes tem tantas facetas que, para uma mudança de abordagem, só é preciso saber selecionar o material certo.

A origem da adaptação de Guy Ritchie é uma série de histórias em quadrinhos escrita por Lionel Wigram – uma das coisas que deixaram o autor deste texto bem preocupado, na época, foi que o Omelete anunciava como uma grande qualidade o fato de a adaptação “deixar de lado algumas frescuras vitorianas e se concentrar na ação“. Pera lá, meu fio: algum de vocês leu o Sherlock? O que vocês chamam de “frescuras vitorianas” é hoje uma das grandes qualidades literárias das histórias de Conan Doyle: o leitor, na maioria das histórias de Holmes, não é convidado a deduzir junto com ele, pelo contrário, sempre precisa da presença de Watson para entender como Holmes chegou às conclusões que, à primeira vista, parecem mais magia do que lógica dedutiva. Logo, o mistério, o enigma, não é o principal dos assim chamados “romances policiais” de Arthur Conan Doyle, e sim dois eixos centrais: o retrato da Londres vitoriana e a dinâmica da relação entre Holmes e Watson. Abandonar um desses pilares em nome de uma supostamente meritória “ação” parecia o atalho certo para que o edifício ruísse.

Querido, que história é essa de "frescuras vitorianas"?

O filme comprova essa premissa: o que ele tem de válido vem da nova interpretação para esses dois pilares: a relação entre os dois personagens principais e o retrato cru da Londres suja de becos e vielas do período. Já a ação em si não empolga pela deficiência mais básica de um cineasta: Ritchie parece ter enrolado todo mundo esse tempo todo se apresentando como um diretor de ação, quando, pelo que se vê em Holmes, fica claro que ele não sabe filmá-la. Talvez Ritchie seja bom com tiroteios de automáticas e sujeitos sentados atrás de uma mesa de bar ou de pôquer, mas sua condução das (excessivas) cenas de luta em Sherlock Holmes é atroz: planos entrecortados, cortes frenéticos em ambientes escuros que não dão muita chance ao espectador de saber quem está batendo e quem está apanhando. A única exceção é quando Holmes planeja golpe por golpe seus movimentos em uma luta (algo que ele faz na cena inicial e depois na do pugilato). Mas aí fica fácil entender: Holmes visualiza seus golpes em câmera lenta e depois o diretor repete as cenas em ritmo acelerado. Vendo duas vezes, é mais fácil. Quando a luta não conta com esse recurso, é uma mixórdia.

Mas voltando ao material original. Muitos pretenderam reclamar de um certo desvirtuamento do personagem nas mãos de Ritchie, o que é bobagem: o roteiro de Sherlock Holmes apenas se propõe a fazer uma seleção de elementos menos “família” nas histórias criadas por Conan Doyle, elas próprias plenas de contradições e incongruências que o autor deixou passar de um texto para o outro. O Holmes do filme é um  excêntrico que não consegue manter a tranquilidade quando está longe de um caso, o que, se combina com histórias como O Signo dos Quatro, contradiz a afirmação de Watson em Um Estudo em Vermelho de que Holmes “tinha maneiras tranquilas e hábitos regulares”.

O Holmes do filme é tão exímio com os punhos quanto com seus afiados raciocínios, como já falamos – e isso também vem das histórias de Conan Doyle. No conto O Ciclista Solitário, incluído no volume A Volta de Sherlock Holmes, o detetive é agredido por um brutal cavalheiro que, incomodado com as perguntas que o investigador anda fazendo, parte para cima dele. Holmes reage e seu oponente leva a pior. A diferença do filme, entretanto, é que em Conan Doyle não vemos a violência. Ela é narrada por Holmes depois de retornar da viagem em que se deu o episódio. Como convinha à época, Doyle mostrava pouco e narrava muito. Os episódios são contados, não descritos.

No romance O Signo dos Quatro, Holmes recebe de um boxeador profissional, McMurdo, com quem havia lutado em um evento beneficente, o elogio de que poderia ter ido longe se se dedicasse a lutar profissionalmente, logo, sua habilidade marcial não é estranha. O que realmente desconcerta os leitores no novo filme, contudo, é que o Watson do filme também luta muito bem. Ritchie explica essa circunstância pelo fato de Watson ser ex-militar, o que seria bastante plausível. A não ser pelo fato de que já na primeira história do detetive, Um Estudo em Vermelho, o fiel auxiliar conta que precisou reformar-se do exército britânico, no qual era oficial médico, depois de levar um tiro de mosquete no ombro _ o que resulta em fratura do osso e devia fazer um estrago considerável em meados do século XIX. Em outros livros, Doyle se confunde e o membro ferido passa a ser a perna, mas tanto em um caso como no outro seria de duvidar que alguém recuperado de um tal ferimento poderia ser capaz das proezas atléticas que o assistente de Holmes exibe no filme.

Holmes, seja sincero. Vou precisar da lupa?

Ritchie atualiza com mais violência e brutalidade elementos que vêm das histórias de Doyle – o poder de dedução avassalador de Holmes e os próprios personagens – Rachel McAdams vive a Irene Adler de Um Escândalo na Bohemia, a única mulher que realmente ludibriou Holmes (embora o contato dos dois na literatura, nesse único conto, seja breve e sem a sensualidade do filme). E a deleitável ruivinha Kelly Reilly encarna Mary Morstan, a noiva de Watson e pivô de certa tensão entre os dois amigos – claro que, para isso, Ritchie também inventa a cena do médico apresentando a amada ao melhor amigo, já que, na literatura, Watson conheceu Mary Morstan como cliente do próprio Holmes, na aventura O Signo dos Quatro. A respeito disso, a propósito: essa história traz desdobramentos sombrios envolvendo a família da moça que bem poderiam embasar uma continuação do filme, quem sabe?

A crueza de Ritchie pode provocar algum choque nos que só conhecem Holmes de sua versão higienizada por centenas de adaptações para o cinema. Mas ele ainda não vai tão longe quanto os livros – basta lembrar que a primeira cena do romance O Signo dos Quatro é a de um Holmes agitado pelo tédio entre os enigmas que se dedica a resolver aplicando um pico de cocaína na veia (numa época em que a cocaína ainda era vendida em farmácia, claro). Essa cena em particular não está no filme, ainda que fique subentendido que Holmes, quando não está se entretendo com enigmas desafiadores, se entrega a atividades perigosas para si mesmo – e Downey Jr. profere, na tela, a justificativa textual que Sherlock Holmes usa em O Signo dos Quatro: “O meu espírito rebela-se contra a estagnação”.

Anúncios

9 Respostas

  1. Esse cara que queria que as “frescuras vitorianas” fossem preteridas em favor da ação deve ter tido um orgasmo quando foram anunciadas versões zumbis da obra da Jane Austen.

  2. Rachel McAdams. Me deu vontade de comê-la. De novo.

  3. Eu li todas as histórias com Sherlock Holmes. Legado de família… Gostei muito do filme. Até das cenas de luta, embora tenha achado estranho o Watson ser bom de briga. Muito melhor do que em outras adaptações, onde um tapa faz o inimigo ficar desacordado. Frescuras vitorianas? Bom, o retrato sujo é tão vitoriano quanto cavalheiros cheiradores de rapé. Se fosse para vender a idéia do filme para o executivo de “O Jogador”, venderia como “Sherlock Holmes encontra Jack Sparrow”.
    O melhor do filme mesmo é a relação entre Sherlock e Watson. Os dois são na verdade um casal, só que nenhum deles sabe disso.

  4. E bem melhor que o Jovem Sherlock Holmes, produzido por Spielberg em 1985, já que oferecia uma “releitura” para o clássico.

  5. É, o Jack Sparrow foi claramente uma das inspirações. Jack Sparrow com o cabelo do Dudley Moore, hehe.
    Na boa, a única coisa que eu acho que vou me lembrar desse filme é aquele excelente flashback em que o Holmes segue a Rachel McAdams, e no fim descobrimos que era ele o merduncho pedindo esmola ao lado da carruagem. De resto…

  6. “descobrimos que era ele o merduncho pedindo esmola ao lado da carruagem. De resto”

    Não sei se “descobrimos” é a palavra, uma vez que fica claro logo na primeira aparição do merduncho que é o Holmes – ou ao menos ficou claro para mim porque mais de uma vez Holmes se valeu desse expediente de se disfarçar de mendigo nos livros.

  7. A mim pareceu que a intenção do Ritchie foi a de supreender a audiência com a revelação. Se não fosse assim, o próprio flashack seria dispensável, será que não?

  8. Ah, sobre a amizade do “casal” protagonista: achei a dinâmica do relacionamento muito parecida com a do House (do seriado homônimo) e seu fiel escudeiro, o oncologista e ex-poeta morto Dr. Wilson. Porém, com uma pitadinha a mais de Molho Bornai.

  9. Molho Bornai é o melhor trocadilho que ouvi nos últimos tempos.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: