O meio é a mensagem

Avatar, a ambiciosa empreitada de James Cameron, está prestes a se tornar a maior bilheteria da história do cinema. Um marco e tanto, ainda que se façam necessárias algumas ressalvas: o ranking, da forma como é elaborado, desconsidera o ajuste da inflação ao longo dos anos. Com a desvalorização da moeda, …E o Vento Levou permanece como recordista absoluto, ainda que já tenham passado 70 anos de seu lançamento. E mesmo na comparação com o grande recordista contemporâneo, Titanic (também de Cameron, 1997), é grande a diferença em número de ingressos vendidos. Trocando em miúdos: apesar de levar menos pessoas aos cinemas, Avatar vem faturando muito mais que seus predecessores.

A explicação para tal fenômeno é simples: o ingresso para se ver Avatar custa o dobro do preço de um filme convencional. Essa diferença de valores, como já deve ser do conhecimento geral a essas alturas, deve-se à forma como Avatar foi produzido e vem sendo exibido: passado um período de silenciosa ausência e muita expectativa, o diretor cumpriu a promessa que fizera em fins do século XX, de que iria revolucionar a indústria com uma nova tecnologia de filmagem e projeção estereográfica, o famoso 3-D, diferente de tudo que já havia sido realizado. O filme está prestes a ser o primeiro a ultrapassar a espantosa cifra de 2 bilhões de dólares nas bilheterias de todo mundo. Avatar já faturou o Globo do Ouro de melhor diretor e filme, deve ganhar vários Oscar e, desde já, coloca o diretor canadense sozinho no posto de rei do entretenimento de massas, deixando pra trás nomes como Lucas, Spielberg e Jackson.

- I'm the king of the world... Again!

Meses antes da estreia, o trailer de Avatar, visualizado pela maioria das pessoas na tela dos PC’s, sugeria estarmos diante de uma bomba de proporções gigantescas: “como é possível que esse cara tenha se metido numa roubada dessas?”, era o sentimento dominante nas conversas entre os membros do AG. Qualquer um podia entrever, naqueles dois minutos, que o roteiro não passava de uma costura mal enjambrada de lugares comuns, remetendo a filmes como Dança com Lobos, Duna e até mesmo Pocahontas (vejam aqui a genial comparação que esse cara traçou entre a animação da Disney e o filme de Cameron). Todos os indícios apontavam na direção de um fracasso colossal. Ora, é mais do que sabido que o sujeito responsável por títulos como O Exterminador do Futuro, True Lies e O Segredo do Abismo não é nenhum coió e não bate prego sem estopa. Algum crédito o cara merecia: entretanto, diante de um enredo daqueles, restava apenas especular que suas fichas estivessem todas apostadas na forma, e não no conteúdo. O segredo deveria estar no tal do “novo 3-D”. Foi durante esse período de especulações que o camarada Sempre Alerta teve uma grande sacada, traçando um paralelo entre Avatar e a primeira exibição pública do cinematógrafo dos Irmãos Lumiére, em 1895.

Assim, de supetão, tal comparação pode parecer exagerada: “A saída dos operários da Fábrica Lumière” ou “A chegada do trem à Estação Ciotat“, mais do que introduzir uma forma de entretenimento, modificou profundamente a cultura universal, vindo mesmo a ditar regras e tendências no comportamento em todo o mundo. Em pouquíssimo tempo, surgia uma nova e poderosa forma de comunicação de massa, eminentemente imagética (portanto, ao alcance até mesmo dos iletrados), bem como de expressão artística. Ao lado do aperfeiçoamento tecnológico, foram desenvolvidas as técnicas narrativas, possibilitando aos cineastas contarem histórias e arrebatarem multidões.

Mas naquela primeira exibição pública, em 28/12/1895, o que a plateia do Grand Café de Paris testemunhou foram meros instantâneos do cotidiano. Não havia enredo, roteiro, apenas um trem chegando na estação, ou operários saindo de uma fábrica. Ainda assim, houve quem se impressionasse a ponto de acreditar que havia de fato uma locomotiva vindo em sua direção. Sem receio do chavão: depois daquele dia o mundo nunca mais seria o mesmo. Após assistir Avatar, saí do cinema com a intuição de ter testemunhado o surgimento, não de uma tecnologia meramente acessória, como no caso do som ou da cor, mas de algo tão novo e revolucionário quanto o advento do próprio cinema: uma forma inédita de comunicação e expressão audiovisual, que em poucos anos vai modificar profundamente a forma como as pessoas se relacionam e se comportam. Avatar representa um “point of no return” na cultura de massa. Não será no ano que vem, provavelmente não será na próxima década, mas podem escrever: a tecnologia desenvolvida por Cameron para esse filme vai se tornar a forma predominante de reprodução da imagem técnica.

Esse caráter revolucionário é o mais evidente ponto de aproximação entre Cameron e os Lumiére. Mas o Sempre Alerta, espírito arguto e um tanto sacana, apontaria ainda mais uma característica comum às duas realizações: ambas primam pela mais absoluta falta de conteúdo. O roteiro de Avatar é tão nulo que prescindiria até mesmo de diálogos para poder ser entendido (o que talvez seja até um mérito). O conteúdo é o que menos conta, e Cameron parece não fazer a mínima questão de esconder isso: o que importa aqui é a forma. E que forma!

A tecnologia 3-D foi desenvolvida nos anos 50, como uma tentativa dos estúdios de combater o avanço da televisão. Imagens tridimensionais são representações gráficas de um objeto elaboradas de maneira que proporcionem a ilusão de três dimensões. Qualquer representação gráfica, um desenho, por exemplo, apresenta-se em duas dimensões, altura e largura. Com o auxílio de óculos especiais, que transmitem uma imagens diferentes para cada olho, alternado assim o ângulo de cada um deles e fazendo com que o cérebro crie a ilusão de profundidade. Entretanto, no que diz relação ao cinema, a tecnologia estereográfica nunca entregou o que prometia, tornando-se mais fonte de desapontamento do que propriamente de admiração. E mesmo passados 30 anos, na década de 80, a coisa ainda permanecia precária. Lembro de ter experimentado tal frustração algumas vezes, ao lado do camarada Tcheloco, encarando títulos de qualidade duvidosa como Tubarão 3, Metalstorm e Treasure – O Tesouro das 4 Coroas, exibidos invariavelmente no falecido cinema Imperial. Os prometidos efeitos 3-D, que deveriam ser visualizados com o auxílio daqueles sofríveis oclinhos de papelão, não passavam de balela. O tão propalado cinema em terceira dimensão permanecia uma bela teoria que não encontrava tradução na prática. Foi aí que Cameron resolveu chamar pra si a responsabilidade de fazer a bagaça funcionar. E conseguiu. Com Avatar, a experiência tridimensional finalmente se tornou realidade.

Óculos 3-D: antes e depois

O que torna o ato de assistir a Avatar em 3-D uma experiência sensorial tão diferenciada? Senso comum: a maioria das pessoas, ao pensar  nessa forma de  se exibir filmes, espera ser bombardeada com cenas em que objetos parecem sair da tela, indo em sua direção. É nisso que consiste o 3-D, afinal? Sim, a nova tecnologia possibilita tal ilusão, e Avatar se vale largamente do recurso. Mas a coisa vai além: o que mais me impressionou não foram as imagens que pareciam vir até mim, mas a sensação de que era eu que estava indo na direção das imagens. Mais do que as sequências grandiloquentes de ação, repletas de efeitos digitais, mais do que a criação de um mundo totalmente novo, o que mais chamou minha atenção foram as sequências internas, em que os personagens não faziam mais que dialogar. A sensação de profundidade e de imersão criavam a mais perfeita ilusão de realidade. Era como se aquelas pessoas – e aquele cenário – estivessem ali de fato.

- Doutor, fizeram um vodu tecnológico em mim e acordei como um smurf da NBA com cabelos USB.

Há que se abrir um parênteses aqui, para que não se cometa uma injustiça. A nova tecnologia estereográfica já vem sendo utilizada por outros estúdios, com resultados bastante satisfatórios e enorme sucesso comercial. Os exibidores mundo afora farejaram a bufunfa e passaram a abrir salas 3-D em razão geométrica. Entre os realizadores, Robert Zemeckis foi um que abraçou a causa com unhas e dentes. A Disney e a Dreamworks já vinham produzindo suas animações direto no formato. Entretanto, nenhum desse títulos conseguiu levar a experiência ao extremo, como Avatar. À certa altura do filme, um personagem sentencia algo como “you’re not in Kansas anymore”. A referência ao Mágico de Oz, que também foi usada em Matrix, soa como uma espécie de carta de intenções, um aviso de que estamos prestes a pisar em um terreno totalmente novo. No caso de Avatar, a citação não poderia ser mais verdadeira. É certo que a partir de agora Hollywood vai passar a limpo todo o ficcionário universal no formato estereográfico:  além da releitura de Alice por Tim Burton, não será de estranhar se em breve tivermos novas novas versões de Tarzan, Zorro, da Bíblia, Moby Dick, Batman, Senhor dos Anéis e da própria obra de L. Frank Baum, naturalmente. E mesmo aqueles título essencialmente cinematográficos, como Star Wars, deverão ser refilmados ou reformatados em 3-D.

Com o sucesso de Avatar, os estúdios de Hollywood reafirmam mais uma vez sua incrível capacidade de superar as adversidades e se reinventar, mantendo sempre o faturamento lá no alto. No início dos anos 50, com a chegada da TV, muitos decretaram o fim do cinema. A resposta veio na forma de épicos grandiosos, em Technicolor e Cinemascope, que só poderiam ser desfrutados em sua totalidade no interior de uma sala de cinema. Os anos Cecil B. De Mille. A chegada do mercado de home video, primeiro com o VHS, depois com o DVD, nem chegou a representar uma ameaça, pois os estúdios trataram logo de dominar o mercado de distribuição, e o que é pior: deram origem ao infame hábito de produzir filmes diretamente para essas mídias. O verdadeiro perigo surgiria  a partir da difusão da Internet, somada à expansão do mercado de home theater e das TV’s de tela grande. Com o futuro baratemanto desses equipamentos, a indústria do cinema iria se ver em maus lençóis. Os filmes poderiam ser pirateados mesmo antes de seu lançamento, e exibidos em casa, com uma ambientação similar à experiência da sala de cinema. Avatar, mais do que um projeto individual da Fox, representou um movimento desesperado de todos os grandes estúdios na luta pela própria sobrevivência. Os números finais de 2009 revelam que os cara ganharam pelo menos esse round: em plena crise econômica, obtiveram o maior faturamento da sua história, ultrapassando a espantosa cifra de 10 bilhões de dólares. Curiosamente, foi também durante um período de crise financeira, no pós-crash de 1929, que esses mesmos estúdios vivenciaram sua fase áurea. Como se vê, vender ilusões em tempos obscuros era, e continua sendo, um excelente negócio.

Sam Worthington, canastrão na altura, largura e profundidade.

Para além do cinema, é possível especular as aplicações dessa tecnologia na indústria dos games, na comunicação, medicina, arquitetura, engenharia, educação e, evidentemente, no ramo da pornografia (vai dizer que vocês não pensaram nisso?). Que privilégio poder testemunhar revoluções tão importantes em um espaço tão curto de tempo: informática, internet, 3-D… O próximo passo lógico deve ser o aperfeiçoamento e a difusão da realidade virtual.

Avatar é um divisor de águas, e será lembrado como tal. Cameron indicou o caminho. É necessário agora que se desenvolvam novas técnicas narrativas, adequadas a esse novo meio. Uma linguagem totalmente diferente, quem sabe? Caberá aos novos Eiseinstein, aos Griffith, explorar e expandir as fronteiras. As possibilidades são inúmeras. Quanto ao canadense, imagino que vá lançar mão de alguns dos seus milhões e comprar um novo submarino pra brincar no fundo do mar. Ou, quem sabe até, se aposentar? Merece.

Pra finalizar, três dicas para aqueles que ainda não viram Avatar obterem o máximo da experiência do cinema em três dimensões:

1° – Conversei com uma meia dúzia de quatro-olhos que assistiram ao filme usando os óculos 3-D por cima dos de grau: apenas uma delas, o Trezentos, relatou ter experimentado o efeito estereográfico em sua plenitude. As restantes não conseguiram ou ficaram na dúvida. Como a imensa maioria dos nerds usa óculos, recomendo o uso de lentes de contato; podem ser aquelas descartáveis da Johnson & Johnson, vendidas em farmácias.

2º – Vejam a versão dublada: a trama é um mero acessório, e de tão simples, pode ser seguida mesmo que você não leia os diálogos. Se o filme fosse mudo, não faria a menor diferença. Assim, os olhos ficam livres para se dedicar apenas a contemplar os efeitos 3-D.

3° – Sentem nas primeiras fileiras, de preferência na quarta. Eu mesmo nunca fui fã de sentar próximo à tela, mas percebi, durante a projeção, que quanto maior a proximidade, maior a área ocupada pelo filme em nosso campo de visão, e portanto, maior a sensação de imersão.

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5 Respostas

  1. Ah, pra quem é Farrista, aqui vai um link pro making of Avatar: http://www.forum.clickgratis.com.br/farra/t-28462.html

  2. Cara, eu assisti em duas dimensões e fiquei AMARRADÃO no filme.

  3. Jaspiom, se tiver sala 3-D onde tu mora, não perde a chance de ver.

  4. Confesso que meu entusiasmo pelo teu texto foi maior do que pelo potencial da nova tecnologia… A maioria dos diretores que eu realmente aprecio ainda faz filme com o mínimo de efeitos especiais e coisas digitalmente criadas para o cinema, logo, a tese de que em breve cineastas de verdade vão extrair todo o potencial dessa técnica me parece meio otimista demais.

  5. Continuo com o mesmo problema bidimensional.

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