Minuto-a-minuto: A lenda dos sete vampiros

00:00:10 – Transilvânia, 1804. Um andarilho vagueia cambaleante pela região montanhosa dos Cárpatos. Sua fisionomia revela que é de origem oriental, provavelmente chinesa.

00:02:14 – O andrajoso peregrino (Shen Chan) mal consegue disfarçar seu contentamento ao divisar um certo castelo no horizonte. Sua jornada finalmente chegou ao fim.

00:02:25 – O chinês desce ao porão da fortaleza, um ambiente nada assustador, banhado em tons de verde e laranja.

00:02:53 – Avistamos um ataúde com uma imensa letra “D” gravada na lateral; presumivelmente, não é de “discreto”.

00:03:04 – Um par de morceguinhos serelepes, pendurados em fios de nylon, vem recepcionar o visitante.

00:03:15 – Ajoelhado diante do caixão, o homem faz uma solene reverência. A tampa da tumba se move, e de seu interior emerge simplesmente o Conde Drácula mais frutaço da história do cinema (John Forbes-Robertson, uma espécie de reserva de Drácula do Christopher Lee na Hammer).

00:04:15 – “Quem ousa invadir os domínios de Drácula?”, pergunta a mona, enfezada. Ainda de joelhos, e com os olhinhos praticamente ocidentais de tão arregalados, o forasteiro se apresenta: “Meu senhor, eu sou Khan, o sumo-sacerdote dos Sete Vampiros Dourados de Ping Kwei, na China. Quando os vampiros caminhavam sobre a terra, meu templo era o centro de todo o poder na região. O populacho era leal a mim. Mas agora os vampiros dormem e as pessoas vivem da forma que bem entendem. Perdemos o poder. Caminhei por muitas luas procurando o seu castelo, e agora curvo-me diante do senhor, pedindo ajuda. Ressuscite os sete vampiros dourados! Permita que a lenda viva novamente!” Que texto! Laurence Olivier deve ter se roído todo de inveja por não ter sido ele a declamar tão rica prosa. A resposta do Conde, contudo, é bem menos eloquente: – “Patife! Eu não faço favores!”

00:05:45 – Cansado da vida miserável em seu castelo, Drácula resolve assumir a forma do visitante recém-chegado: – “Eu preciso de seu corpo mortal. Preciso da forma de sua carcaça miserável. Preciso de sua vil imagem. Preciso percorrer novamente essa terra, sair desses muros. Libertar-me desse mausoléu. Regressarei ao seu templo com a sua imagem, Khan. Eu serei o mestre dos sete vampiros dourados. Eles serão a ferramenta para minha vingança contra a humanidade. Vou ocultar-me no seu manto. Com sua aparência… Com sua imagem…” Drácula arreganha os caninos e uma fumacinha azul ascende do solo. Coitado do Khan, perdeu a viagem. Num passe de mágica, o espírito malévolo do arqui-vampiro encarna no couro do desafortunado chinês. E assim termina a introdução de A Lenda dos Sete Vampiros (1974), insólito resultado do encontro da Hammer (a lendária companhia inglesa especializada em filmes de horror) com a Shaw Brothers (produtora de Hong Kong conhecida por suas fitas de artes marciais). Sim… Shaolin encontra Drácula! Roy Ward Baker o nome do responsável por essa  indigesta salada de gêneros.

00:09:45 – Chung King, China, 1904. Cem anos depois dos sinistros acontecimentos acima descritos, vamos encontrar o professor Van Helsing (Peter Cushing) ministrando uma palestra na Faculdade de História da universidade local. O lendário caçador de vampiros narra a uma plateia incrédula a “Lenda dos Sete Vampiros Dourados”: “as lendas da antiga China são milenares. Algumas são inventadas e terríveis em suas implicações. Outras são reais, fundadas sobre a verdade. Há uma aldeia amaldiçoada situada em algum lugar da vastidão da China cuja maldição se repete a cada ano durante a sétima lua. Escuta com pavor os lamentos das almas atormentadas e o medo apodera-se do coração de seus habitantes. Todos sussuram a palavra “vampiro”, e o horror é real, e muito próximo. De tempos em tempos um homem valente, cansado de tanta dor e ira frustrada, arma-se com valor e sai dos muros de sua aldeia para enfrentar os monstros que atormentam seu povo. Há alguns anos existiu um homem assim; um agricultor, um pobre pai que tinha perdido seu bem mais precioso para os vampiros. Seu nome era Hsi Tien-en (vemos o pobre Hsi se arrastando sobre uma perna côxa, armado de uma enxada, indo ao encontro dos sete vampiros. Eu não apostaria uma pataca nele…).

00:13:18 – Hsi Tien-en (David Chiang, um dos grandes astros dos filmes da Shaw nos anos 70) alcança o templo, onde os sete vampiros realizam um ritual bárbaro: ao redor de um tonel de sangue, sete mocinhas indefesas, amarradas, aguardam o inevitável sacrifício. Khan, o andarilho em cujo corpo Drácula encarnou, é o mestre de cerimônias.

00:13:41 – Hora de conhecer os notórios sete vampiros dourados. A primeira coisa que aprendemos a seu respeito é que têm muito mau gosto na escolha dos acessórios: cada um deles traz pendurado em sua túnica um amuleto de ouro em forma de morcego, muito do bagaceiro. Mas o pior de tudo é a aparência dos sete sanguessugas: são máscaras bisonhas, nada convincentes. Um deles tem cabelos azuis e seus caninos superiores estão nitidamente colados nos lábios inferiores. Nem o Bento Carneiro era tão pobre assim…

00:14:50 – Prosseguindo com o flashback, Hsi Tien-en intervém no culto, tentando libertar sua filha. Os vampiros contra-atacam, matando a pobre moça. Irado, o pai da defunta avança sobre o assassino, conseguindo arrancar o amuleto-morcego às suas vestes. Do lugar onde o talismã foi retirado, começa a sair uma fumaceira dos infernos. A razão eu ignoro; vai ver, o morceguinho dourado carregava o mojo deles. O velho agricultor aproveita a manobra pra dar no pé.

00:15:34 – O líder dos vampiros soa o gongo, fazendo com os mortos levantarem de suas tumbas e se unirem aos sete vampiros na perseguição a Hsi Tien-en. Alguns desses mortos-vivos correm de forma esquisita, saltitando lépidos e fagueiros como se fossem a própria Heidi nos Alpes Suiços. Vampiros, kung fu e zumbis! Só faltou sexo explícito para esse filme se tornar o Cidadão Kane da trasheira!

00:18:45 – Hsi Tien-en tem sua garganta cortada pelos vampiros. Antes disso, porém, mocoseia o amuleto no colo de uma imagem de Buda, em um ebó de beira de estrada. O vampiro tenta recuperá-lo, mas é pulverizado ao simplesmente tocar na estatueta. Mais adiante, Van Helsing, em tom professoral, comentará que os vampiros temem os símbolos sagrados de maneira geral: Na Europa é a imagem de Cristo na cruz. Aqui no oriente, por analogia, deve ser o Buda. Imaginem só o vampiro recuando apavorado diante da simples visão daquele gordinho careca, ditoso e pachorrento: – AAAAARRRGGH! Um Buda!!! Socorro!!! Eu, hein? Não me admira a Hammer ter ido à bancarrota poucos anos depois desse filme.

00:19:50 – Nosso flashback encerra com Van Helsing dizendo acreditar que a lenda é real e que é provável que o fundamento  do mito do vampiro se encontre na própria China. A assistência abandona a sala de aula, censurando o professor. Não sei ao certo se pelo fato da estória toda soar como uma grande balela ou por considerarem ofensivo um holandês petulante ir até seu país para ensiná-los sobre suas próprias lendas.

00:25:22 – Van Helsing recebe a visita de Hsi Ching (novamente David Chiang), que afirma ser neto do agricultor da lenda. Hsi pede ajuda ao caça-vampiros, pois sua aldeia ainda é constantemente aterrorizada pelos seis vassalos remanescentes do Cão. A princípio, Van Helsing recusa. Mas após alguns minutos de enrolação, quando conhecemos o filho de Van Helsing, Leyland, e Vanessa Buren (Julie Ege, ex-miss Noruega, falecida ano passado), uma europeia rica, gostosa e entediada, que se dispõe a financiar a expedição (com a condição de tomar parte nela), o professor muda de ideia, e nossos heróis finalmente tomam o rumo da aldeia amaldiçoada de Ping Kwei, o lar dos sete vampiros dourados.

00:36:24 – Uma longa sequência de artes marciais, com nossos heróis combatendo o bando de um pelintra que tinha diferenças com o Van Helsing Filho. A cena é importante para mostrar em ação todos os irmãos de Hsi Ching, cada um deles um especialista em uma arma em particular: os gêmeos Sung e San, mestres espadachins; Chi Tao usa as maças e tem a força de dez bois; Po Kwei, que há muitos anos optou pela lança cortante; Ta e seu machado; Kwei, o arqueiro; e por fim, Mai Kwei, a irmãzinha, que eventualmente vai cair na fala mansa do holandês jovem, formando um dos pares interétnicos da trama (o outro será a lôra e Hsi Ching).

00:45:55 – Ao redor de uma fogueira, Van Helsing ensina aos oito irmãos como se deve matar um vampiro: fala da estaca de madeira no coração e também recomenda um projetil de prata (??). Bastaria ele ter dado essa informação antes, e sua ida até a aldeia se tornaria completamente desnecessária. Mas tudo bem, segue o barco.

00:46:09 – Van Helsing toma o medalhão-morcego em suas mãos: – “Uma coisa eu sei… Este medalhão de ouro é o símbolo da força vital dos não-mortos (Acertei! Era mesmo o mojo dos sacanas). Os seis vampiros restantes farão de tudo para recuperá-lo. Assim que o conseguirem, poderão reencarnar o sétimo vampiro.” À simples menção do lacaio do Canho, o medalhão arde como fogo nas mãos de Van Helsing, que larga o artefato blasfemo no chão: – Eles sabem que estamos a caminho.

00:50:00 – Enquanto alguns dos heróis desfrutam de um breve interlúdio romântico à beira de um lago, na aldeia as coisas ficam pretas: os seis vampiros dourados e seus serviçais defuntos tocam o terror, matando alguns aldeões e sequestrando suas filhas. Levam as moças para o templo, perpetrando o mesmo rito satânico descrito por Van Helsing em sua aula. O sangue das jovens sacrificadas escorre para o tonel localizado no centro do bizarro altar.

00:54:00 – O grupo acampa uma última vez, dentro de uma caverna próxima à aldeia. Ao cair da noite, três morcegos de papel-maché que dormiam nas paredes da gruta revelam sua verdadeira identidade: vampiros dourados! E não estão sozinhos! Aos poucos, a caverna fica lotada de zumbis. Como diria o sobrinho favorito da Tia Petúnia, “é hora do pau!”

01:00:40 – Com a morte dos três vampiros dourados (até o velho Van Helsing, quem diria, consegue dar cabo de um deles), os mortos-vivos, atordoados pela falta de liderança, fogem correndo do abrigo. Nenhuma baixa no grupo dos viventes. Entretanto, o combate exauriu as suas forças: Hsi teme que ele e seus irmãos não sobrevivam a um segundo round. E ainda faltam três VD’s…

01:05:50 – Nossos heróis alcançam a aldeia de Ping Kwei, e imediatamente se lançam ao trabalho de guarnecer o local. Confeccionam estacas de madeira e cavam uma grande trincheira na entrada, o que julgo inútil contra inimigos que podem se transformar em morcegos e atrevessar  obstáculo voando. Mas, enfim, quem sou eu para julgar uma cultura de quase cinco milênios? Pelo menos contra os zumbis deve surtir algum efeito.

01:10:00 – Cai a noite e a batalha tem início; os servos de Belzebu atacam, mas não avistamos Drácula-Khan entre eles. Pra bobo esse não serve, não foi à toa que se tornou o arqui-vampiro.

01:14:50 – A luta é encarniçada; um dos vampiros dourados morde a lôra europeia, que imediatamente vira uma sugadora de sangue do Cão. Sem perceber a metamorfose, Hsi vai acudir a amada e acaba mordido por ela. Temendo pelo pior, ele afunda o belo corpo da moça em uma estaca, e antes que ele mesmo se transforme, dá a vida em holocausto.

01:17:35 – Na sequência do entrevêro, morrem mais dois VD’s. Alguns dos irmãos de Hsi também morrem, mas não sei quais. Podem me acusar de preconceituoso, mas o fato é que no meio daquele furdunço todos eles me parecem todos iguais. A irmã, contudo, ainda está viva. O VD remanescente taca a mão na pobrezinha e a leva em seu cavalo. O Van Helsinho vai atrás.

01:18:10 – A bela chinesa é levada ao templo, como seria de se supor. Van Helsing também corre para salvá-la, acompanhado de dois guerreiros (Po Kwei e Kwei, que eu confesso, só consegui identificar pelas armas).

01:18:22 – O VD amarra Mai Kwei no altar de sacrifícios. Antes que possa fazer algum mal à moça, entretanto, é impedido pelo Van Helsinho, que se arroja sobre ele como um bólido. O Van Helsing pai chega pra ajudar, cravando uma lança no último dos vampiros dourados. Após ser trespassado, o débil começa a rodar e gritar como uma pomba-gira, indo em direção ao tonel de sangue localizado no centro do altar de sacrifícios. Devido à máscara e à espessa maquiagem, o ator certamente devia enfrentar dificuldades para visualizar onde estava o tonel onde deveria cair. Dificuldade ainda maior, visto que deveria realizar a manobra com o corpo girando… É possível nitidamente ver o cara dando uma paradinha básica entre um giro e outro, só pra ver onde estava o tonel, antes de se atirar em definitivo. O sangue devia estar fervendo ou misturado com ácido, pois em questão de segundos o VD vira sukyaki. Pena que tá chegando ao fim… Agora só falta o Patrão.

01:20:47 – Os jovens deixam o templo. Van Helsing permanece, sua expressão denota apreensão: pressente que o perigo ainda não acabou. Seu medo não é infundado, pois de fato, ainda resta a origem do mal:

– Van Helsing, por todo o mundo, através do globo, até mesmo aqui, tem me perseguido!

– Drácula!

– Rárárárárá!

– Conde Drácula! Eu sabia! Sabia que tinha que estar por aqui!

– Eu amaldiçôo você e toda sua casta!

– Mostre-se! Ou será que você precisa se esconder sob a imagem de outro homem? Será que o poderoso Drácula tem medo de revelar-me o seu rosto?

– Eu sou Drácula, senhor da escuridão, lorde dos vampiros, príncipe dos não-mortos, chefe dos malditos (o cara é meio sensível com esse lance de ostentar títulos).

– Demonstre isso!

– Certo! Van Helsing… Você verá meu rosto mais uma vez… Antes de MORRER!

01:21:45 – O china cruza os braços, a fumacinha sobe e… voilá! Temos de volta o Drácula-Moça do início do filme. O combate terá início: será um duelo de titãs, uma luta como nunca se viu antes, uma batalha sem igual… Pfffui… Que nada! Anticlímax total: a luta entre Drácula e Van Helsing dura míseros e exatos 15 segundos. Resumidamente, Drácula dá um tapa em Van Helsing (tapa… coisa de mulherzinha), que reage atravessando seu coração com uma lança. O arqui-vampiro se transforma em purpurina, digo, poeira.

E é isso. That’s all, folks!

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3 Respostas

  1. nossa. que horror.

  2. O horror… O horror!

    This is the end… My only friend, the end.

  3. e eu que julgava já ter visto de tudo: o vampiro+ou- gay da hora do espanto, Jorge Hamilton, entre outros; eu tenho que virar vampiro, pois se não morro e não vejo tudo

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