A vida imita a arte

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Antes de mais nada, é preciso que se diga: que voz! Na década de 50, quando James Brown ainda não havia entrado em campo, Sam Cooke ocupava sozinho o trono de rei do soul: entre 1957 e 1964, emplacou nada menos do que 29 hits no Top 40 dos Estados Unidos. Dono de um timbre inigualável, gravou clássicos como Another Saturday Night, You Send Me, Chain Gang e principalmente, A Change is Gonna Come, sua maior composição, presença constante na maioria dessas listas das “10 mais da música pop em todos os tempos” que grassam por aí. Um petardo! A versão do Seal também é digna de nota.

A partir de meados dos anos 80, sua música foi redescoberta por alguns cineastas americanos; mais do que mero pano de fundo, entretanto, as canções funcionavam como verdadeiras protagonistas das cenas, desempenhando papel de destaque. Foi o caso de (What a) Wonderful World, que Harrison Ford usou para seduzir Kelly McGillis em A Testemunha; já em Viagem Insólita, um desesperado Dennis Quaid lançava mão da balada Cupid para convencer Meg Ryan a reatar o namoro com ele: – Não é justo!, reclamava a  eterna donzela casadoira de Hollywood, desarmada pela voz melíflua de Cooke. Ao fim do filme, Martin Short dirigia velozmente um conversível embalado por Twistin’ the Night Away, na versão rasgada de Rod Stewart; o escocês, a propósito,  sempre considerou Cooke o maior cantor da história da música pop.

42-16891433A adaptação que fez para a tradicional canção country Frankie e Johnny também alcançou êxito nas paradas. A letra conta a história de Frankie, uma mulher apaixonada, que bancava as maiores mordomias para seu amado Johnny, desde roupas finas até um Jaguar zerinho. Ainda assim, o sujeito conseguiu pisar na bola: uma amiga revela a Frankie que flagrou Johnny circulando pela noite acompanhado de uma baranga. Tomada de ódio, a moça vai até o rendevu e encontra seu homem  nos braços da dita cuja; antes que  ele possa dizer qualquer coisa em sua defesa, Frankie saca o berro de sua bolsa e sapeca três pipocos no pobre, que morre ali mesmo, jurando inocência. “Hell hath no fury…” Como se sabe, Frankie & Johnny é também o título de um romance protagonizado por Al Pacino e Michelle Pfeiffer em 1991, notável pela rara sensibilidade com que aborda o universo desglamurizado de pessoas ordinárias, de gente como a gente.

Dia desses me dei conta de que era um completo ignorante a respeito da biografia desse formidável cantor, apesar de já apreciar sua música há tempos. Pesquisando alguns sites especializados em soul, descobri que o cara morreu muito jovem, aos 33 anos. O que mais chama a atenção, no entanto,  é a forma como  ocorreu a tragédia: em dezembro de 1964, após aprontar um tremendo barraco em um motel de Los Angeles, o rei do soul foi baleado pela dona do estabelecimento, Bertha Franklin, sob circunstâncias que ainda hoje permanecem inexplicadas. O que se sabe é que Cooke entrou no local acompanhado por uma prostituta. Após uma ríspida discussão, o cantor teria partido pra cima da profissional, que fugindo do quarto, foi buscar ajuda na recepção. Nitidamente alterado, Cooke avançou sobre a mundana e a proprietária, que, agindo em legítima defesa, não teve outra alternativa a não ser mandar fogo. Essa, pelo menos, foi a versão de Bertha que colou nos tribunais, rendendo sua absolvição. A verdade, porém, é que a investigação ignorou uma série de discrepâncias e contradições nos depoimentos dos envolvidos, bem como na reconstituição dos fatos, o que  ainda hoje gera  controvérsia entre os fãs de Cooke. Mais detalhes sobre o crime aqui.

A comparação pareceu inevitável: após aprontarem poucas e boas, tanto Johnny como Cooke tiveram seus destinos selados por dedos femininos ao gatilho.

He was a man all right but he was doing all wrong…

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