Batman da vida real

Na última segunda-feira, lá pelas cinco e meia da matina acordei com alguns gritos vindo da rua. No meio do sono, acabei aos poucos compreendendo o que diziam lá embaixo. Entre palavrões e xingamentos, ouvi as palavras “ladrão”, “tu acha que é bom roubar dos outros?”, “agora tu vai ver só uma coisa”.

Logo depois dos xingamentos, percebi alguns sons parecidos com o som de alguém chutando forte uma bola de futebol. Resolvi então ir até a janela para ver o que estava acontecendo.

Não conseguia ver nada, porque seja lá o que estava rolando, estava acontecendo embaixo da marquise. Só ouvia os barulhos e os gritos. Pelo jeito o assaltado estava levando a melhor. Um pouco depois, começaram outros gritos:

– Eu não fiz nada. Eu não fiz nada.

Depois, a mesma voz que estava xingando, falou:

– E vocês aí? Estão juntos com ele, né? Vão fazer o quê?

– Não! Ele foi só pedir um cigarro.

Não deu um segundo e dois sairam correndo pela rua em direção do viaduto. Correndo com muita vontade. Apavorados. Foi daí que vi o dono da voz de antes. Na verdade eram dois sujeitos. Nada anormal. Só dois caras de abrigo escuro. Eles pararam no meio da rua e daí voltaram para “falar” com o sujeito que eles diziam ter assaltado a casa deles.

– Eu não fiz nada!

– Tu tá com o meu chaveiro no bolso ainda safado. Tu tá com a chave da minha casa no bolso! Tu achou que ia se dar bem? Achou bonito limpar a minha casa? Então toma!

E a pancadaria continuou. Vi que aquilo ia longe. Eles não iam parar tão cedo. Os dois estavam com certeza desossando o sujeito vivo. Quando eu peguei o celular para chamar a polícia, uma outra moradora do prédio gritou:

– Já chamei a polícia! Já chamei a polícia!

Os dois nem aí para se alguém chamou ou não. Continuaram batendo no cara, mandando ele dizer onde tinha escondido as coisas que eles diziam que haviam sido roubadas.

O cara já não falava mais que não havia roubado nada. Já pedia socorro.

Nada da polícia.

O cara já estava pedindo para que a polícia chegasse para salvar ele. Só ia falar com a polícia.

Os dois arrastaram o sujeito pela rua, agarrando o cara pelo pé. Um deles era realmente bem forte. Sumiram pela ladeira da outra rua, para o meio das sombras da rua menos iluminada. Bem depois disso, sem sono, vi o reflexo das luzes do giroflex da polícia.

Não sei se isso deu em alguma coisa. Só sei que de manhã, na frente da loja que fica embaixo da marquise, estava uma poça de sangue. Acho que se derrubarem uma lata de extrato de tomate no chão, não faz tanta sujeira.

Não vou colocar minha opinião aqui. Só relatar esse fato. Sem defesa e nem acusação sobre o que houve. Vai que os caras confundiram o chaveiro. Vai que tenham pego o cara certo e de raiva, num acesso de loucura, fizeram justiça com as próprias mãos. Só digo que a polícia precisa de mais efetivo, mais equipamentos e mais pessoas. Assim quando alguém os chama, eles podem vir mais rápido.

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Uma resposta

  1. Mas e se ninguém chamou a polícia de verdade, no final?

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