O médico e o monstro

BORISO inglês Boris Karloff atuou em cerca de duzentos filmes no decurso de cinco décadas: uma longa e fecunda carreira, intimamente ligada ao cinema de horror em geral, e a um personagem em particular, a criatura de Frankenstein dos filmes de James Whale. Suas caracterizações posteriores, como a Múmia, foram todas encobertas pela enorme sombra projetada pelo monstro inspirado em Mary Shelley. Uma imagem que o tempo tratou de transformar em ícone: a cabeça retangular, os olhos mortiços, o paletozinho surrado com as mangas quase na altura dos cotovelos, aqueles indefectíveis eletrodos cravados no pescoço… Passados mais de 70 anos, a figura daquele pobre diabo deve inspirar mais riso do que medo; apesar disso, se alguém menciona o nome Frankenstein, a primeira lembrança que nos vem à tona é inevitavelmente a do rosto de Karloff sob a pesada maquiagem desenvolvida por Jack Pierce nos laboratórios da Max Factor.

o monstro de Frankenstein, Capitão Gancho, Hinchley, Fu Manchu e o Sr. Wong

O Monstro de Frankenstein, Capitão Gancho, Hinchley, Fu Manchu e o Sr. Wong

O próprio Karloff, cujo nome verdadeiro era William Henry Pratt, admitia ter uma dívida de gratidão para com a criatura de Frankenstein: “o monstro foi o melhor amigo que tive”, afirmou certa vez. Para os fãs, entretanto, ele foi muito mais:  encarnou por cinco vezes O Misterioso Sr. Wong, a resposta B aos populares filmes do Charlie Chan na Fox; o hilário Dr. Scarabus de o Corvo ; Hinchley, em Farsa Trágica ; a voz do Grinch, na adaptação do lendário Chuck Jones para a obra do Dr. Seuss; subiu aos palcos 321 vezes para dar vida ao Capitão Gancho, em uma montagem novaiorquina de Peter Pan; um improvável Fu Manchu… Curiosamente, Karloff também viria a encarnar o criador do Monstro, por duas oportunidades: na primeira, em um filme sem grande brilho dos anos 50: em seguida, dublando o personagem em Mad Monster Party, um clássico realizado com marionetes nos anos 60. O cara trabalhou até o fim da vida; octogenário, curvado sob o peso dos anos, ainda conseguia infundir terror nas plateias, como demonstra esse inspirado monólogo extraído de Targets, preciosidade dos tempos em que o Peter Bogdanovich era a grande promessa de Hollywood. Uma lista de caracterizações memoráveis, sem a menor sombra de dúvida. Nenhuma dessas, contudo, tem minha preferência; meu Karloff favorito é O Túmulo Vazio (The Body Snatcher, 1945).

O Túmulo Vazio é daqueles filmes que consegue despertar a atenção apenas por suas credenciais: o diretor era ninguém menos que Robert Wise, sujeito cujo currículo dispensa apresentações; a produção ficou a cargo de Val Lewton, um mestre dos filmes B, responsável por clássicos como The Cat People e I Walked With a Zombie. O roteiro era baseado em um conto do escocês Robert Louis Stevenson , que, por sua vez, buscara inspiração em uma série de acontecimentos funestos que chocaram os habitantes de sua Edimburgo, por volta de 1830, vinte anos antes de seu nascimento. Eventos que permaneceram um bom tempo na memória de seus conterrâneos: o autor de A Ilha do TesouroO Médico e o Monstro cresceu ouvindo  histórias escabrosas sobre assassinos e ladrões de túmulo.

Entre os compatriotas do Sean Connery o episódio ficou conhecido como “Os Assassinatos de Burke e Hare” ou “Os Crimes de West Port”. Entre 1827 e 1828, dois imigrantes irlandeses, William Burke e William Hare, tendo por cúmplices suas respectivas esposas, foram acusados de assassinar 17 pessoas e vender seus corpos para as aulas de anatomia da Faculdade de Medicina de Edimburgo. Seu principal cliente era o respeitado Dr. Robert Knox.  A princípio, eles obtinham os presuntos através da violação dos túmulos de pessoas recém-falecidas. A notícia dos saques escandalizou a população, fazendo com que os cemitérios passassem a ser fortemente vigiados. Burke e Hare apelaram para métodos menos ortodoxos, tratando de providenciar eles mesmos as encomendas do Dr. Knox. Seu modus operandi deu origem à expressão burking, significando morte por sufocamento, causado por uma forte pressão sobre o peito da vítima.

Robert Knox, um médico sem fronteiras

Robert Knox, um médico sem fronteiras

Naquele tempo os cadáveres disponíveis para estudo nas escolas de medicina eram insuficientes. Utilizavam-se geralmente corpos de criminosos executados pela justiça. Nessa mesma época, contudo, um abrandamento na lei penal diminuiu de forma sensível o número de condenados à pena máxima. Os defuntos viraram artigo de luxo, chegando ao ponto de só haver duas ou três carcaças para todos alunos da faculdade, ao longo de um ano inteiro. A necessidade levou Knox a fazer vista grossa para os métodos de seus fornecedores.

Após cometerem uma série de deslizes, os irlandeses acabaram presos. As provas, no entanto, ainda não eram suficientes para garantir a condenação dos dois à pena capital. O juiz entrou em acordo com Hare, oferecendo a comutação de uma provável condenação à morte por uma sentença perpétua, caso testemunhasse contra o cúmplice. Burke acabou enforcado diante de uma multidão furiosa. Ironia do destino: seu corpo foi dissecado em uma concorrida aula, na mesma faculdade de medicina que tantas vezes se beneficiara de seus serviços. Knox escapou da justiça, mas não da censura de seus pares. Acabou sbuke-hareeus dias no ostracismo. O governo escocês modificou a legislação referente ao fornecimento de corpos para estudo, ampliando as possibilidades de obtenção destes por parte das faculdades.

O cinema retratou o caso diretamente em pelo menos três ocasiões. A versão mais digna de nota, A Carne e o Diabo, data de 1960, e traz Peter Cushing como Knox e Donald Pleasence no papel de Hare. O conto é apenas inspirado nos crimes de West Port: apesar disso, os personagens de Louis Stevenson cometem os mesmo crimes dos irlandeses. A diferença é que, em vez de uma dupla, temos somente um assassino, o cocheiro John Gray, personagem vivido magistralmente por Boris Karloff em O Túmulo Vazio.

O John Gray de Boris Karloff

O John Gray de Boris Karloff

Tão logo aparece em cena, John Gray nos causa aversão. O olhar de Karloff  deixa transparecer toda a corrupção que uma alma pode comportar. Sua figura inspira asco e medo no Dr. McFarlane, o equivalente de Knox na ficção. É sobre a relação doentia entre esses dois homens que Wise e Lewton vão construir essa verdadeira obra-prima do horror psicológico: um horror proveniente não do sobrenatural, mas do mal que o homem pode causar. Um horror que prescindia dos grandes orçamentos e dos efeitos especiais.

Karloff era o efeito especial.

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4 Respostas

  1. ñ tem nada a ver com o q eu qro

  2. Não seja por isso. Eu tenho exatamente aquilo que tu queres…

  3. Artigo muito interessante e bem escrito. Parabens, gostei muito. Este também é o meu filme preferido do tio Boris até agora, e também adorei o conto do Stevenson.

  4. Gustavo,

    descobri recentemente o The Old Dark House, que tb me agradou bastante. Além do Karloff, tem a recentemente falecida Gloria Stuart e o grande (em todos os sentidos) Charles Laughton. O diretor é o mítico James Whale.

    Está dividido em partes, infelizmente.

    Abração, valeu.

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