Voltando do além

Ou: como fazer uma lista de 10 melhores justificar uma volta às postagens.

Seguinte, bagualada, já faz uns dois meses que eu não escrevo aqui, por pura falta de tempo por um lado e de saco para completar os longos posts que eu deixei pela metade. Como daqui a pouco o conselho editorial do blog vai acabar me despejando por inatividade, resolvi dar um jeito de voltar a postar alguma coisa, e este post fluiu redondinho do início ao fim e se concluiu sozinho, digamos assim. Ficamos com ele, por enquanto, até porque representa uma segunda incursão deste que vos escreve, que é quase o homem da literatura neste blog, em outra seara que não a sua, no caso música. Embora tenha a certeza absoluta de que o assunto não interesse muito aos outros (não música, especificamente, mas o cara de quem escolhi falar). Mas tudo bem, esse não é um tipo de sensação incomum a quem, como eu, é admirador do trabalho de Bob Dylan.

Recentemente comentei com uma colega de trabalho que deve ter uns, sei lá, 20 anos, que eu gostava de Dylan, e ela me devolveu um olhar de “de onde saiu essa múmia?” enquanto comentava que para ela Dylan era uma mala sem alça, sem voz, um tremendo chato, um insuportável e esses adjetivos hiperbólicos que só a juventude justificam. Não discuti. Haverá tempo para ela ouvir Dylan ou ela nunca ouvirá, e aí não vai, bem ou mal, fazer diferença. Considerando que o estereótipo do fã de Bob Dylan é o jornalista Eduardo “Peninha” Bueno, muito do que a moça disse deve ter razão de ser, então até entendo sua opinião.

Pra mim, contudo, Dylan foi um dos elementos que colaboraram na minha formação estética. Seu som, de trovador fora de época, sua voz inusitada – não, não estou dizendo que ela é agradável. Pelo contrário, um dos seus mistérios reside justamente no apelo de uma voz metálica e desagradável daquelas e de como ela se ajusta sempre muito bem às canções que ele interpreta. Como fazia muito tempo que eu não exercitava o Nick Hornby em mim (na verdade fazia muito tempo que eu sequer escrevia aqui, como já falei antes), elaborei uma lista de “10 mais”. Não está por ordem de preferência e sim de memória mesmo. Comentários e discordâncias, estejam à vontade.

It ain’t me babe
Triste, melancólica, uma balada de som dolente e agradável, com uma letra ao mesmo tempo muito bonita, muito seca e muito cruel. Não é uma declaração de amor, é uma declaração de não-amor, de covardia e fraqueza, com toda a carga patológica que isso representa.

A Hard Rain’s A-Gonna Fall
Uma letra assustadora, com imagens apocalípticas e ao mesmo tempo inusitadas, um olhar ensandecido sobre um mundo por acabar, embalado em uma melodia folk sem muitas inovações, mas que progride estrofe a estrofe até explodir no refrão como a tempestade que o narrador espera. Um delírio surrealista, como um quadro pintado por alguém com a imaginação de Dalí, concilando a atmosfera opressiva de Hyeronimous Bosch e a crueldade de Francis Bacon.

Positively 4th Street
Um desabafo contundente de alguém que se sente cercado por pessoas em quem acredita não poder mais confiar. Alguém que perdeu a capacidade sequer de reconhecer quem é verdadeiro ou falso. Ao mesmo tempo, a cantilena triste de um paranóico ressentido, numa melodia também folk, com direito a assobiozinho, mas leve o suficiente para iludir o ouvinte que não conhece a letra.

Just Like a Woman
Melodia de cortar o coração, cadência meio blues, meio canção pop, com uma letra que é uma das mais complexas e bem-sucedidas “descrições de personagens” já escritas. Feita para Eddie Seddwigg, uma maluquinha que Dylan conheceu na época e que foi uma lendária presença no cenário musical dos anos 60: pessoa linda e instável, que ganha nessa homenagem a eternidade como uma instável e fascinante garota, mesclando fragilidade e doçura com sentimentos capazes de levar um vilarejo por diante como o mais cruel vendaval. Mas imagino que, depois de terem visto o filme com a Sienna Miller, vocês já devem ter se dado conta disso.

Mr. Tambourine Man
O retrato dos perdidos na noite suja da história. Insônia, angústia, vazio, reprecutindo numa melodia melancólica e ao mesmo tempo monótona, com poucos pontos de aceleração ou mudanças de andamento, uma levada única nas longas estrofes, uma das que mais acentuam o caráter de lírica trovadoresca do bardo urbano.

Hurricane
Eu poderia dar uma de “indie” e retirar essa da minha lista depois que sua inclusão na trilha sonora do filme aquele com o Denzel Washington a popularizou outra vez, levando-a ao conhecimento de gente que não sabia que ela existia. Mas como cago e ando, continuo reverenciando a mágica obtida aqui nestas longas 11 estrofes que condensam uma trama de conspiração e corrupção com absoluta competência, usando até mesmo recursos cinematográficos como descrição do cenário, mudança de pontos de vista e alternância de vozes narrativas. Tudo para passar muito bem um recado de protesto. Claro que ele também abrevia muito alguns pontos não tão positivos na biografia do personagem Rubin “Hurricane” Carter, coisas que contestariam a versão de simples conspiração. Mas narrativa também é seleção, logo… Ah, sim, a música: não gosto de percussão excessiva, mas aqui Dylan utiliza elementos de percussão que lembram muito tambores tribais e isso acrescenta ao efeito uma sonoridade forte, mesclada à guitarra que passeia cínica pela história, como se também ela comentasse a narrativa.

Love Sick
O Blues ainda se faz presente nesta melodia monocórdica, sustentada por uma batida monótona ao piano que parece simular o bater ritmado do coração do apaixonado desiludido que peramblua pela cidade lembrando seu amor perdido. A batida uniforme sustentada por guitarra e teclados prepara estrofe a estrofe uma vigorosa ascensão da melodia até o ponto em que uma parede sonora se ergue no refrão, como se a música fosse tomada pela febre de amor da qual o personagem padece. Um dos grandes momentos recentes de Dylan, se não o melhor.

Most of the time
Eu falava do Alta Fidelidade no início deste post, e agora esta música está ligada à adaptação cinematográfica do livro. Ela é de um álbum de 1989 chamado Oh Mercy, que eu ouvi uma vez só e não registrei como deveria por achar que havia coisas ali que sinceramente NÃO deveriam ter visto a luz do dia. Daí, foi quase como se não tivesse ouvido. O resultado é que quando essa música começa a tocar no filme, numa cena particularmente dramática, eu me pego a ouvir embevecido, parecendo que a letra – construída toda sobre um recurso retórico chamado preterição, pelo qual um sujeito diz que não vai dizer o que está dizendo, está falando sobre mim. Reconheci a voz de Dylan, fui atrás da música, um pop romântico sem o folk de sempre, com o uso até mesmo de alguns elementos aparentemente estranhos como bateria eletrônica, e ela derrubou Desolation Row na minha lista de melhores.

Like a Rolling Stone
Não sei se tenho algo de útil a dizer sobre esta música, um retrato de decadência comovente e ao mesmo tempo agressivo. Dizer o quê? que sua letra é perfeita, imagética, narrativa e aijdna por cima rimada? valeria para quase todas as músicas que eu elenquei aqui. Que seu som sintetiza os avanços que Dylan estava fazendo na época ao eletrificar seu som e comprar briga com todos aqueles que o adoravam havia bem pouco tempo? Já foi dito isso, e bem melhor do que eu poderia, por pessoas de real talento musical ou ao menos sensibilidade de ouvinte. Que é uma música tão boa que resiste a versões? E que ficou realmente do caralho na voz de Mick Jagger? E que ver Dylan em dueto com Jagger no palco quando os Stones estiveram no Brasil, cantando exatamente ESSA música, seria o suficiente para colocar essa canção em qualquer lista de melhores que eu fizesse? Vamos preterir. O que eu tinha pra dizer já foi dito. Não direi nada.

My Back Pages
Sempre na minha cabeça essa música trava um duelo por um lugar na lista com a também bela I’ll keep it with Mine, mas o fato é que I’ll Keep… muitas vezes me parece mais bonita na versão totalmente irreconhecível grava por Nico em seu The Fairest of the Seasons, o que eventualmente decide a questão a favor de My Back Pages, canção estranhamente otimista em se tratando de Dylan. Uma espécie de acerto de contas pessoal dele com a própria lenda, com suas convicções políticas, com sua seriedade de combatente – ou ao menos a seriedade de combatente que ele deixou entrever por anos. O refrão “I was so  much older then / I’m younger than that now” é um daqueles momentos em que a música pop realmente se aproxima um tantinho da visão sábia de mundo que muito da melhor literatura costuma oferecer. Pensando bem nas minhas justificativas, agora me dou conta que sempre gostei mais dessa música na versão dos Byrds, o que invalida o argumento que usei para decidir em favor dela – ah, mas vai assim mesmo.

Eu poderia apontar muitas outras, mas uma lista de 10 mais, infelizmente, nunca pode ser maior do que 10. Nesse sentido, a matemática, por ser o reino da ordem, é também um instrumento autoritário.

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4 Respostas

  1. É por isso que eu não escrevo mais. 🙂
    Excelente, como sempre.
    Abraço.

  2. Mas como é que se compete com isso?

  3. And I’ll tell it and think it and speak it and breathe it,
    And reflect it from the mountain so all souls can see it,
    Then I’ll stand on the ocean until I start sinkin’,
    But I’ll know my song well before I start singin’,
    And it’s a hard, it’s a hard, it’s a hard, it’s a hard,
    It’s a hard rain’s a-gonna fall.

    Feliz Aniversário!

  4. Perfeito na sua justa forma. Deu sentido a minha madrugada.

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