Os maiores entre os menores

aipO post que segue é uma livre combinação e adaptação de dois artigos, publicados nos (excelentes) sites especializados Bad Movie Planet e Horror Wood. O primeiro, A Tribute To Samuel Z. Arkoff And American International Pictures, foi escrito em conjunto pela turma do B-Movie Message Board, comunidade de fãs de filmes B. O segundo, Sam Arkoff and A.I.P., de autoria de Ron Waite, é baseado na autobiografia de Sam Arkoff, Flying Through Hollywood by the Seat of my Pants.

O Corvo, O Abominável Dr. Phibes, Blácula, Mad Max, … Atuando como produtora ou distribuidora, a AIP – American International Pictures foi responsável pelo lançamento de alguns dos filmes mais legais já realizados. Com parcos recursos mas com muita cara-de-pau, Sam Arkoff e Jim Nicholson conseguiram incomodar os grandes estúdios; a AIP chegou a ser reconhecida como “o maior pequeno estúdio que já existiu”.  Vale a pena contar a história dessa companhia – ainda que ao custo de um post quilométrico…

arkoff2Apesar da pança e da pressão alta, Samuel Zachary Arkoff, um matuto do Iowa, conseguiu ingressar na Força Aérea durante a 2ª Guerra, trabalhando como criptógrafo. Com o fim do conflito, aproveitou a G.I. Bill, lei que facultava aos combatentes veteranos o direito de cursar a faculdade a expensas do erário, e tornou-se um advogado. Decidido a ingressar no mundo do show business, somou seus esforços aos de um camarada dos tempos da Força Aérea, Hank McCune. Criaram a Video Associations e venderam para a NBC um humoristico chamado The Hank McCune Show. Atribui-se a esse programa o discutível mérito de ser o precursor no uso da claque pré-gravada, aquelas risadas que ouvimos nos programas que não contam com auditório ou plateia (a Globo ainda utiliza largamente esse recurso infame). Como se vê, desde o início Arkoff demonstrava talento ímpar na arte da avareza…

Ainda sobre o Hank McCune Show: vejam o que um usuário do IMDB escreveu a respeito do programa: o cara é clichê em estado bruto! Não lembra aqueles dois matusas ranhetas do Muppet Show (Statler e Waldorf)? Ou então o Abe Simpson? Consigo até ouvir a voz rabugenta dele na minha cabeça, enquanto leio o comentário.

Em meados dos anos 50, o lendário Ed Wood havia produzido The Outlaw Marshalls, faroeste financiado por um grupo de mórmons. O filme estava pronto, mas o sempre descapitalizado Wood não contava com o numerário necessário para a revelação dos rolos. Impacientes, os mórmons queriam o seu investimento de volta. Criou-se um impasse legal; Alex Gordon, parceiro de Wood na empreitada, requisitou os serviços legais de Arkoff. Cruzavam-se, assim, as trajetórias de dois dos expoentes máximos do cinema canguinhas.

O inglês Alex Gordon ostentava uma biografia no show business, tendo trabalhado inclusive com Gene Autry, um dos mais populares cowboys dos EUA. Arkoff viu no sujeito a possibilidade de ingressar no ramo do cinema, e decidiu trabalhar pro bono no caso. Após dois anos de chicanice, conseguiu com que lançassem o bang bang.

O próximo projeto da dupla Wood/Gordon, The Atomic Monster, contaria com Bela Lugosi no elenco. Eles levaram o roteiro ao dono da RealArt Pictures, um picareta de marca maior chamado Jack Broder, que ganhava a vida relançando velhos filmes de monstro da Universal com títulos diferentes. Broder recusou o script, mas em questão de poucos meses lançou um filme com o mesmo título, com Lon Chaney, Jr. no papel principal. Arkoff foi novamente acionado, e contra todas as expectativas, conseguiu arrancar um acordo de U$ 500 das mãos de Broder. Curiosidades: pouco tempo depois Wood levaria adiante o projeto, com o titulo modificado para Bride of the Monster.  Lugosi e Broder ainda realizariam o filme com um dos títulos mais esdrúxulos da história: Bela Lugosi meets a Brooklyn gorilla.

O responsável pela área de projetos da RealArt, Jim Nicholson, ficou muito impressionado com a forma como Arkoff conseguiu arrancar a grana de seu patrão, apenas na base da lábia. Nicholson também queria entrar no negócio de produção e distribuição de filmes. O ano era 1954. Em pouco tempo os dois tornaram-se sócios de uma companhia distribuidora, a American Releasing Corporation.

thefastandthefuriousUm outro encontro feliz acabaria selando de vez o destino da recém-nascida companhia: Roger Corman, um produtor novato, ex-estudante de engenharia de Detroit, procurava um estúdio para distribuir seu recém-realizado The Fast and the Furious (esse mesmo, que anos depois seria refilmado com o Vin Diesel); vários distribuidores demonstraram interesse no filme dirigido e estrelado John Ireland, mas nenhum deles queria adiantar um centavo ao jovem diretor. Prometiam apenas pagar após o lançamento, com o dinheiro resultante das bilheterias. Corman, que não era coió, queria algum adiantado, e foi bater na porta de Arkoff e Nicholson. Eles imediatamente conseguiram vender o filme para distribuidores, e Corman, de quebra, ganhou um contrato para dirigir três filmes para a dupla. Era o início de tudo. Em pouco tempo ocorria a mudança de nome: em 1956 nascia a American International Pictures.

Arkoff e Nicholson eram considerados loucos por abrirem uma companhia em um período tão obscuro, quando até mesmo os grandes estúdios se viam em  apuros. Muitas salas de cinema haviam fechado suas portas; os mais velhos preferiam ficar em casa assistindo televisão. Enquanto os grandões tentavam atrair as plateias adultas lançando mão de recursos como o Cinerama ou o Vistavision, a AIP deu seu pulo-do-gato indo atrás de uma parcela da população até então relegada a um segundo plano: os adolescentes.

Sem condições de produzir um filme classe “A”, eles vendiam aos exibidores dois filmes “B”, para serem exibidos em sessões duplas. A ideia pegou, principalmente entre os donos de drive-ins. Além dos rolos, os proprietários dos cinemas recebiam farto material publicitário para ajudar na divulgação dos títulos. Esse material promocional é um capítulo à parte na história da AIP: idealizados por Nicholson, os cartazes chamavam a atenção das plateias, alguns até impressionando pela sua beleza; entretanto, os filmes entregavam bem menos do que o prometido. Arkoff costumava dizer que, se um filme tivesse a metade da qualidade de seu poster, já seria o suficiente para que desse lucro. Outra grande picaretagem eram os nomes sofisticados como SuperScope, Super-Rama ou Hypno-Vista, sugerindo sistemas inovadores de projeção ou processos revolucionários de filmagem, mas que na verdade, não passavam de meros nomes impressos no cartaz.

 

 

Luz e sentido e palavra...

Luz e sentido e palavra...

 

O sucesso finalmente veio com I Was A Teenage Werewolf (sim, exatamente como na canção do Legião). O protagonista era Michael Landon, um canastrão elevado ao cubo, que anos mais tarde se tornaria conhecido do público brasileiro por suas “atuações” em séries como Bonanza, Os Pioneiros e O Homem que Veio do Céu. Na verdade, foi o próprio título que trouxe notoriedade para o filme, que acabou sendo a maior bilheteria do estúdio até então: custou U$ 150.000 e em apenas duas semanas faturou dois milhões. Até mesmo grandes estrelas da TV como Jack Benny e Bob Hope faziam piadas sobre teenagers em seus programas. Arkoff imediatamente tratou de capitalizar o sucesso, lançando spinoffs como I Was a Teenage Frankenstein. Play it again, Sam!

Enquanto ruíam o star system e a velha forma de se fazer filmes, a A.I.P. prosperava. Com um ritmo frenético de filmagens (A Pequena Loja de Horrores foi filmada em dois dias e uma noite), sem precisar arcar com a manutenção de estúdios gigantescos (muitas vezes filmavam na rua mesmo), eles chegaram a produzir mais de 50 filmes em um ano – mais que a Warner, a MGM, a Paramount e a Columbia juntas – e fizeram dinheiro em cada um deles.

Se fosse necessário, Sam, Jim ou um dos atores usavam seus próprios carros, suas próprias casas nas filmagens. Até mesmo suas próprias roupas. Não raras vezes os atores acabavam trabalhando na produção, fazendo o que quer que o chefão mandasse. A maquiagem podia ser realizada de improviso, em banheiros de postos de gasolina. E em vez de serviço de bufê, as refeições eram hamburgers em lanchonetes; muitas vezes a esposa de Jim trazia sandubas para o set. Era um esquema familiar, quase amador. A fórmula de Arkoff foi revelada pelo próprio Sam em um talk show, em 1980. Suas ideias sobre como produzir um filme formavam um acrônimo:  ARKOFF: Action, Revolution,  Killing,  Oratory, Fantasy e Fornication.

rodanQuando o custo das produções começou a inflacionar, Sam e Jim voltaram suas atenções para o além-mar, importando e dublando filmes estrangeiros. Além de ser bem mais barato do que produzir filmes próprios, ajudava a dupla a cumprir seus contratos com os exibidores, entregando sua cota periódica de filmes. Do Japão vieram os monstros gigantes, como Rodan: “Never a horror like it”! Um slogan desses não precisa necessariamente ser interpretado como elogioso… Percebe-se claramente a diferença entre o que o cartaz prometia e o que era apresentado nas telas. A Itália contribuía com os épicos B de Cinecittá, aqueles filmes de Hércules, Maciste, Sansão…, subgênero que foi jocosamente apelidado pelos americanos de sword and sandals. Enquanto Hollywood gastava milhões para produzir um épico bíblico ou um filme de gladiador, Sam comprava dois espécimes italianos, dublava em inglês, adicionava alguns efeitos sonoros e lançava com uma ruidosa campanha.

O mestre Mario Bava também chamou a atenção de Arkoff, que importou obras como A Máscara do Demônio e o Planeta dos Vampiros. O segundo, um clássico da FC pica-fumo, conta com a especialíssima participação de Norma Bengell em seu elenco. Do país de Hamlet veio Reptilicus, a resposta dinamarquesa a Godzilla. Não deixem de ver esse trailer

Nessa onda de dublar filmes estrangeiros, até mesmo Woody Allen teve sua chance com Arkoff: o resultado foi o hilário What’s Up, Tiger Lily?, uma dublagem sacana em cima de uma cópia japonesa bagaceira de fimes de James Bond. Exatamente como fazem o Hermes & Renato hoje em dia, mas sem os “caralho!” Tem o mérito de ser o primeiro crédito de Allen como diretor.

200px-voyageplanetprehistoricwomenVoyage to the Planet of Prehistoric Women, Voyage to the Prehistoric Planet e Queen of Blood também são exemplos da engenhosidade da AIP: eles importavam filmes russos, produções razoáveis, muitas delas contando com efeitos especiais convincentes, bem à frente de seu tempo; Sam contratava diretores como o Peter Bogdanovich, e atores para refilmar as sequências de diálogo em inglês. Reeditava o filme e lançava como se fossem produções originais de milhões de dólares.

Com a chegada dos anos 60, Arkoff e Nicholson resolvem dar um passo adiante: abandonariam as sessões duplas e concentrariam seus esforços – e recursos – na produção de um único filme, a cores. O amigo Roger Corman e o escritor Richard Matheson (autor de Eu Sou a Lenda e Em Algum Lugar do Passado) subiram a bordo, e em pouco tempo aquele filme único deu origem a uma série de oito longas baseados na obra de Edgar Allan Poe, que os fãs posteriormente chamariam de Ciclo raven1Corman-Poe. Esse “baseados na obra” é pura cortesia, pois a única coisa que os livros e os filmes guardavam em comum eram os títulos. Porém, graças aos scripts engenhosos de Matheson e a ambientação assustadora (em grande parte mérito do desenhista de produção Daniel Haller), os filmes obtiveram carreira exitosa, chegando inclusive a receber elogios da crítica, coisa até então rara na vida da A.I.P. O ciclo Corman-Poe merece um post à parte.

O sucesso continuou nos anos 60 com os filmes de praia (beach party movies), capitaneados por Frankie Avalon e Annette Funicello. Como Rechear um Biquíni Selvagem é um dos exemplos. Walt Disney, patrão de Annette, liberou a moça para atuar nos filmes, mas não sem antes arrancar de Arkoff a promessa de que ela nunca atuaria de biquíni. Arkoff cumpriu a palavra.beachparty230r

A inocência e o alto astral do pessoal da praia logo cederia lugar aos motoqueiros e aos cabeludos puxadores de fumo. O período da psicodelia e da contestação social era retratado de forma irreverente por jovens talentos como Jack Nicholson, Peter Fonda, Dennis Hopper e Bruce Dern. Muito sexo, drogas e rock and roll em filmes como Wild Angels e Viagem ao Mundo da Alucinação.

Sam e Jim estavam no ramo pela grana e não pela arte, e nunca fizeram a menor questão de disfarçar. Desavenças financeiras e artísticas muitas vezes levavam a atritos com seus contratados. Foi o caso de Corman, que saiu da AIP e foi abrir sua própria companhia, a New World (ele ainda está na ativa, aos 83 anos : produziu aquela refilmagem sofrível do Death Race 2000, com o Jason Stathan). Mas já era então a época em que “os loucos tomaram conta do hospício”: para cada diretor que Arkoff demitia, havia um exército de reserva formado por nomes como Francis Ford Coppola, Martin Scorsese, Peter Bogdanovich, John Milius, Joe Dante e Jonathan Demme, muitos deles recém saídos da faculdade de cinema e loucos por uma chance de entrar no ramo. Por outro lado, não dá pra esquecer que na época eles eram os únicos a dar emprego a astros que Hollywood havia escanteado, como Vincent Price, Boris Karloff, Basil Rathbone, Peter Lorre e Ray Milland.

 

susan-hart

Hmmm... Bem melhor que a Yoko.

 

Há rumores de que existiu uma Yoko Ono entre Arkoff e Nicholson: a atriz Susan Hart, protagonista de Dr. Goldfoot and the Bikini Machine (produção da A.I.P., como o título já sugere), foi o pivô do divórcio de Nicholson. O clima nos sets ficou pesado. As coisas haviam mudado, já não havia mais aquele clima familiar. Pouco tempo depois, os dois se divorciaram. Com os dois divórcios seguidos, Nicholson perdeu espaço dentro da companhia, visto que sua parte das ações foram divididas entre ele e as ex-esposas. Após receber uma proposta  da FOX para produzir seis longas, desligou-se da A.I.P. Destes seis, realizou apenas dois, ambos clássicos: a Casa da Noite Eterna, com Roddy McDowall, e Fuga Alucinada, com Peter Fonda e Susan George, um dos road movies mais legais já feitos. Os dois filmes foram lançados após a morte de Nicholson, vitimado por um câncer no cérebro em dezembro de 1972.

blaculaArkoff havia perdido seu amigo e parceiro, mas a AIP seguiu adiante. Sam decide investir em outra parcela ignorada pelos estúdios, a comunidade afroamericana: era a blaxploitation, trazendo títulos como Blacula e Sugar Hill, e revelando talentos como Pam Grier. Do outro lado do espectro, as odes aos caipiras e caminhoneiros: Breaker Breaker (com Chuck Norris) e Macon County Line. Além da blaxploitation, também havia o mercado da sexploitation. Filmes de garotas na prisão, decotes generosos, essas coisas. Destacam-se Savage Sisters, Black Mama White Mama e Caged Heat. Jonathan Demme dirigiu este último.

Os tempos definitivamente já não eram mais os mesmos, mas Sam ainda conseguiu ensaiar um breve retorno aos dias de glória da AIP, trazendo Vincent Price, o astro do ciclo Corman-Poe, para os dois filmes do Dr. Phibes. Mas o negócio dos filmes estava mudando, e ficava cada vez mais difícil competir. Os custos de produção haviam se tornado estratosféricos, e a audiência já não se deixava tapear tão facilmente. A AIP mal conseguia se manter na superfície. Os últimos suspiros da empresa, porém, foram em grande estilo: no final dos anos 70, Arkoff comprou os mad-max-poster-1direitos para exibição de The Amityville Horror, que se tornou o maior sucesso de bilheteria da história da empresa. Coube-lhe  o mérito de financiar Vestida para Matar, de Brian De Palma. Pouco antes de vender a AIP  ainda teve tempo de farejar o sucesso em uma produção australiana independente, realizada por um  novato chamado George Miller: o filme era Mad Max.

Esteve até o fim envolvido com o mundo do show business: pouco antes de morrer atuava como produtor executivo em uma série de refilmagens de antigos títulos da A.I.P. para um canal de cabo. Arkoff não era o sujeito mais legal do mundo. Pelo contrário: era um ríspido homem de negócios, mais interessado na mufunfa e em bons charutos do que em qualquer outra coisa. Entre os que conviveram com ele, o número dos que o consideravam um grande sujeito não era lá muito diferente daqueles que o julgavam o maior filho da puta que já existiu. O mais provável é que fosse um pouco dos dois.

Morreu a 16 de setembro de 2001. Cinco dias antes, meia dúzia de lunáticos fundamentalistas, altamente motivados e com pouquíssimos recursos, produziram o maior abalo da história contemporânea dos EUA. Exatamente como Sam gostava de trabalhar.

Anúncios

Uma resposta

  1. […] um produto com a chancela da AIP, o estúdio do senhor Sam Arkoff, responsável por alguns dos filmes mais legais (e baratos) dos […]

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: