Espada de aluguel

O que o século 17 pode ter a dizer ao século 21? É essa a pergunta que faz ao leitor a série de romances de capa-e-espada protagonizada pelo espadachim Capitão Diego Alatriste y Tenório, criado em 1996 pelo escritor espanhol Arturo Pérez-Reverte, que já tem seis livros lançados em sua terra natal, dois deles traduzidos para o Brasil: O Capitão Alatriste e Limpeza de Sangue, ambos pela Companhia ds Letras.

Arturo Pérez-Reverte é conhecido do leitor brasileiro apreciador de obras de fantasia por livros como A Carta Esférica ou O Clube Dumas (que foi adaptado para o cinema como O Último Portal, com Johnny Depp e um Frank Langella virando a mais ridícula tocha humana do universo). Na Espanha, as aventuras de Alatriste, que além dos seis episódios já publicador por lá  ainda deve ganhar outros três nos próximos anos, são uma espécie de fenômeno pop nacional: viraram história em quadrinhos (a imagem que ilustra este post saiu de uma delas, a adaptação “oficial” do primeiro livro, feita por Carlos Giménez e Joan Mundet), bonecos, jogos de tabuleiro, até mesmo, em 2002, uma série de estampas de selos do correio espanhol. E, recentemente, Alatriste foi adaptado em filme, dirigido por Agustín Díaz Yanes e estrelado pelo “Aragorn” Viggo Mortensen, interpretando em espanhol – o cara realmente fala o idioma, viveu na Argentina e é torcedor do San Lorenzo de Almagro.

Tecnicamente, o que de cara já surpreende pelo anacronismo, Alatriste filia-se ao chamado gênero de literatura capa-e-espada (muito popular no século 19), aquele que reúne espadachins heróicos e galantes, amores tumultuosos, aventuras tortuosas e conspirações (os espanhóis tiveram todo um ramo literário de romances capa-e-espada, mas está certo tambem quem, com as características ali descritas, lembrar de Os três mosqueteiros, do francês Alexandre Dumas, uma dos mais acabados exemplos do gênero).

O Alatriste de Pérez-Reverte é um ex-militar e hoje mercenário que vive uma vida instável, sem recursos na Espanha dos anos 1600 — o esplendoroso período conhecido por Século de Ouro, período de uma sociedade rica, de alto desenvolvimento artístico, mas onde campeia uma decadência subterrânea que ainda levará à queda o poderoso império espanhol. Voltando a Alatriste: pobre, porém altivo, ele serviu nas guerras espanholas contra os holandeses em Flandrers, onde provou sua bravura e sua habilidade com a espada, mas um homem como ele, impetuoso, pouco político e de grande coragem física, é um incauto nas batalhas políticas tão ou mais cruentas que tomam lugar na corte, e o outrora valente capitão é hoje um mercenário como tantos outros, com a algibeira sempre vazia e alugando sua destra espada a quem melhor pagar. Por vezes, vale-se da caridade da mulher que o ama, uma prostituta chamada muito apropriadamente Caridad, La Lebrijana.

Os dois volumes já lançados no Brasil, O Capitão Alatriste e Limpeza de Sangue, têm estrutura semelhante. A história é sempre narrada do ponto de vista do jovem pajem de Alatriste, Iñigo Balboa, órfão, filho de um ex-companheiro de armas de Alatriste e que foi entregue ao herói para ser criado por ele em nome da amizade que unia os dois homens. O enredo também segue uma seqüência similar de episódios: nos dois, atendendo ao pedido de um amigo, Alatriste aceita um trabalho que se revela mais do que aparenta.

No primeiro volume, contratado por homens misteriosos para assassinar dois desconhecidos, Alatriste não realiza o serviço que lhe foi encomendado, topa com uma intriga internacional e se enreda nos gabinetes da monarquia, contrariando a poderosa Igreja Católica. No segundo volume, um pedido para que Alatriste invada uma casa e recupere uma jovem raptada revela-se uma cilada que leva o herói aos porões da Inquisição.

O inusitado em Alatriste é que suas aventuras, escritas para lembrar os clássicos capa-e-espada espanhóis como Tirso de Molina e Manuel Fernández González, entremeiam duelos e traições com digressões anacrônicas sobre a Inquisição, a religiosidade, o poder, a política e a honra, algumas que poderiam ser aplicadas como comentários da nossa própria realidade contemporânea.

Um tributo moderno à história do passado.

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Uma resposta

  1. Curiosidades:

    O Pérez-Reverte decidiu criar o personagem quando viu que o livro de história usado por sua filha na escola trazia apenas uma página dedicada ao Século de Ouro. A menina, então com 12 anos, ajudou o pai na pesquisa sobre o período, a ponto de a primeira novela, publicada em 96, sair assinada pelos dois.

    O filme, que é meio chato e bastante confuso, apresenta uma mulher, Blanca Portillo, no papel do frei Bocanegra (o inquisidor).

    Tem alguns textos do cara no site oficial: http://www.capitanalatriste.com

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