O ladrão de mitos

“Quíron suspirou.
A maioria dos observadores inteligentes concordaria que o roubo não faz o estilo de Poseidon. Mas o Deus do Mar é orgulhoso demais para tentar convencer Zeus disso. Zeus exigiu que Poseidon devolva o raio até o solstício de verão. Isso será em 21 de junho, dez dias a contar de agora. Poseidon quer um pedido de desculpas por ser chamado de ladrão até essa mesma data. Eu tinha esperanças de que a diplomacia prevalecesse, que Hera ou Demeter ou Héstia fariam os dois irmãos verem a razão. Mas a sua chegada inflamou o gênio de Zeus. Agora nenhum dos dois deuses quer recuar. A não ser que alguém intervenha, a não ser que o raio-mestre seja encontrado e devolvido a Zeus antes do solstício, haverá guerra. E você sabe como poderia ser uma guerra.
– Ruim? – adivinhei
– Imagine o mundo em caos. A natureza em guerra consigo mesma. Os olimpianos forçados a escolher lados entre Zeus e Poseidon. Destruição. Carnificina. Milhões de mortos. A civiilzação ocidental transformada em um campo de batalha tão grande que fará a Guerra de Tróia parecer uma luta de balões d’água.
– Ruim – repeti.”

No mínimo duas vertentes verificáveis na atual literatura se cruzam nas páginas de O Ladrão de Raios, do americano Rick Riordan (Tradução de Ricardo Gouveia. Intrínseca, 400 páginas. R$ 29,90). A primeira é a de uma certa veia pop de releitura das mitologias antigas, um campo no qual mr. Neil Gaiman pontificou nos últimos anos graças a trabalhos como Sandman, Deuses Americanos e Os Filhos de Anansi, histórias que reapresentavam personagens mitológicos com um viés mais afeito ao que uma história em quadrinhos ou romances de aventura exigiam. A segunda linha de força pela qual é possível explicar a existência desse livro é puramente comercial. É simples: com o sucesso cinematográfico da série O Senhor dos Anéis, bem como a acachapante vendagem da série Harry Potter (também ela transformada em série cinematográfica de sucesso), criou-se um verdadeiro um filão editorial de livros nos quais o protagonista vive uma jornada por mundos fantásticos que mesclam fantasia e mitologia _ uma tentativa de catar o mais rápido possível um novo best-seller juvenil que garanta milhões em licenciamento de produtos e venda de direitos cinematográficos.

Foi assim com a trilogia Fronteiras do Universo, de Philip Pullmann (cujo primeiro episódio foi filmado com o nome de A Bússola de Ouro), com a trilogia “de tinta” de Cornelia Funke (que também já chegou ao cinema com Coração de Tinta) e até com a malfadada série Eragon (da qual também foi feito um filme e mais nenhum, se tivermos sorte). 

Ou aquilo é o Olimpo ou o bagulho era forte mesmo...

Ou aquilo é o Olimpo ou o bagulho era forte mesmo...

O Ladrão de Raios também embarca nessa onda. O livro é o primeiro a sair aqui no Brasil de uma série chamada Percy Jackson e Os Olimpianos, que acompanha a saga de Percy Jackson, jovem rebelde de 12 anos que nunca conheceu o pai, vive às turras com a mãe até descobrir que em pleno século 21 da nossa modernidade os deuses gregos ainda caminham pela Terra (sim, a ideia é mais ou menos a mesma de Os Eternos, de Jack Kirby — que o Gaiman andou reescrevendo tempos atrás). Criado sem pai, Jackson logo descobrirá que tem uma herança divina a resgatar e se envolverá em uma disputa política entre Zeus e seu irmão Poseidon.

A prosa do livro é bastante funcional, mais a serviço da história, sem grandes invenções ou mesmo requintes de estilo, mas um mérito ao menos Riordan tem: seu livro aborda uma história que, para ser fruida, necessita de um mínimo conhecimento prévio, e ele provê esse conhecimento ao longo do livro: é mais divertido ler que Poseidon e Zeus estão prestes a entrar em guerra tendo na lembrança que os dois (mais o terceiro irmão, Hades), repartiram o mundo no início dos tempos, após a guerra contra os Titãs (os deuses antigos, não a banda) que garantiu aos Olímpicos o domínio sobre o universo. Pequenas informações que Riordan vai semeando na narrativa sem truncá-la em demasia. Não é o novo Senhor dos Anéis, mas até que é divertido.

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2 Respostas

  1. Bicho, não mencionaste o Stardust, xêimoniú!
    Não li o livro (ou seria conto ilustrado?), mas a julgar pelo filme que rendeu, é um dos melhores a explorar o filão.

  2. É um livro ilustrado.
    Mas na edição nova é livro mesmo, limaram as ilustrações do Charles Vess.

    E eu não mencionei o Stardust porque quer fazer um texto só sobre o livro, quando tiver tempo e motivação.

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