Nowhere Boy

Imaginei que ninguém ia estar no lago congelado, e não tinha mesmo pessoa alguma por lá. Estava passando Superman 2 na tevê. Assisti a esse filme há uns três anos, no cinema de Malvern. Era aniversário do Neal Brose. Não é um filme ruim, mas não valia a pena abandonar meu lago congelado particular só pra assistir de novo. Clark Kent abre mão dos poderes só pra ter relações sexuais com Lois Lane numa cama toda brilhante. Quem faria uma troca tão imbecil? Podendo voar? desviar mísseis nucleares pro espaço? Fazer voltar o tempo girando o planeta de trás pra diante? Relações sexuais não podem ser uma coisa tão boa assim.

Celebrizado em alemão com o termo “bildungsroman”, o romance de formação tem como núcleo narrativo o ponto em que um jovem, marcado por experiências transformadoras ao longo do livro, faz a síntese de sua breve vida e, como resultado, adquire uma dolorosa consciência da realidade, abandonando assim a infância e ingressando de vez no universo adulto. Na maioria das vezes, pode ser algo lírico, ou melancólico, mas nos melhores exemplares do gênero é sempre doloroso, já que se fala de um segundo nascimento, do parto de um adulto (não esquecer a associação que Sócrates fazia entre a iluminação intelectual e o parto, a maiêutica).

Pois para aqueles que, como os autores deste blog, já passaram dos 30, o belo romance Menino de Lugar Nenhum do inglês David Mitchell, lançado aqui no Brasil faz poucos meses, faz também o retrato de uma época ligada diretamente ao nosso universo afetivo. Menino de Lugar Nenhum, do qual vocês leram o trecho que abre este post,conta um ano na vida de um garoto de 13 anos que sofre com as onipresentes rusgas no colégio, com a inadequação própria da idade, com um problema de gagueira que faz tudo para esconder, com a inabilidade de equacionar um rico universo interior de um garoto que curte escrever poesia com o mundo exterior, o mundo exterior sendo uma comunidade rural inglesa pequena e truculenta.

Provando que a globalização como se conhece hoje dava seus primeiros passos naqueles precoces 1980 sem internet, sem TV a cabo, sem DVD e com o video recém se popularizando, Jason Taylor, o protagonista, organiza as experiências pelas quais passa tendo sempre como referências coisas que nós aqui podemos reconhecer e nos identificar, afinal o ano em que a história se passa é 1982, auge da política linha dura da Era Thatcher, período de recessão na Inglaterra e da Guerra das Malvinas (sim, senhores, já há romances de formação passados na Guerra das Malvinas, e não na II Guerra no ou Vietnã – definitivamente estamos ficando velhos).

4 Respostas

  1. Leio o livro ou espero a versão para o cinema? Eheheh.
    Pareceu bem interessante.
    Um abraço.

  2. Eu lembro de 05 de julho de 1982. Nesse dia minha infância acabou.

  3. Abrir ou não abrir mão dos poderes para fazer sexo com a Lois Lane? Ora, se estamos falando da Margot Kidder, é evidente que o sujeito fez uma péssima barganha. Mas e se fosse a Teri Hatcher?

  4. […] um bildungsroman com o mesmo título, mas que valha a pena, não deixem de dar uma espiada nesse post do colega […]

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