McCartney nos subterrâneos de Lugar Nenhum

Neste post falei a vocês um pouco sobre Neverwhere, o primeiro romance de Neil Gaiman, publicado em 2007 no Brasil, pela Conrad, com o nome de Lugar Nenhum.  Já nesse primeiro post, havia comentado que a circunstância que tornava Lugar Nenhum tão particular é que, em vez de ser um livro mais tarde adaptado em uma minissérie, era um livro que se havia originado do roteiro de uma, veiculada pela BBC em outubro de 1996, com roteiro e argumento de Gaiman e direção de Dewi Humphreys. Contava a história de Richard Mayhew (Gary Bakewell, cuja única credencial artística é ser a cara do Paul McCartney, o que lhe valeu o papel do músico duas vezes, uma delas em Backbeat, os cinco rapazes de Liverpool), sujeito sem graça num emprego burocrático que um dia socorre uma garota caída na rua. Ela é Door (Laura Fraser, uma jovem que depois disso embarcaria numa série de papéis secundários no cinema, mesmo o inglês, como a Lavínia daquele Tito Andronico com o Anthony Hopkins ou a ferreira de Coração de Cavaleiro, com o falecido Coringa Heath Ledger), foragida de um mundo localizado nos subterrâneos de Londres, um universo meio feudal meio mágico em que vivem figuras andrajosas invisíveis para os da “Londres-de-Cima”. A mesma história mais tarde viraria, além do romance, uma história em quadrinhos.

Apesar de ser um dos mais fracos trabalhos em prosa de Gaiman, o romance ainda é repleto dos elementos que tornaram o autor famoso: fantasia, referências, monstros, mundos imaginários grandiosos. E uma curiosidade que sempre tive foi saber como aquele universo havia sido transposto para a série de TV, ou melhor, como a série havia desenvolvido aquele universo que mais tarde Gaiman retomaria no romance. Como vivemos na era do Youtube, dia desses fui procurar algo no site e descobri lá não só algumas cenas, como toda a sequência da minissérie, exibida em seis capítulos de meia hora cada. E ao ver o programa, me dei conta de basicamente três coisas:

1º – provavelmente Gaiman deve ter achado a série tão ruim quanto eu, e a prova é que escreveu mais adiante o romance para tentar salvar sua reputação do desastre. Interpretações de tornar a Maysa teatro shakespeareano e sérias restrições orçamentárias tornam a série um depósito de situações de humor involuntário, algo que não acontece no livro, resgatado pela voz narrativa aparentada com a cadência dos contos de fada.

2º – A gente só percebe o quanto a ousadia de Peter Jackson e a evolução da tecnologia de criação digital (não esquecer que o realismo “impressionante” dos dinossauros de Parque dos Dinossauros estava havia apenas três anos no passado) mudaram nossa percepção do que esperar de um filme de fantasia quando depara com uma produção como esta. Em termos visuais, Neverwhere é pobre, tosca, com criaturas que parecem ter sido alugadas no zoológico mais próximo e efeitos que parecem saídos de um filme da Xuxa. E seu próprio tom solene e pretensioso a torna inviável até mesmo como um bom exemplar de produção B. Mesmo com os diálogos ágeis que Gaiman mais tarde aproveitaria no livro.

3º – Deveriam ter entregue a direção desse troço ou mesmo a concepção visual para o Dave McKean, já que é dele a melhor coisa da série, a abertura, que vocês podem ver no excerto abaixo. Ela começa exatamente a 1:00 de vídeo:

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Uma resposta

  1. Ótimo post, não sabia dessa minissérie. Realmente, mesmo com a tentativa de salvação de Gaiman, o livro Neverwhere é bem fraquinho, a idéia até que é boa, com “os nomes da Estaações de Metrô” tomando vida. Mas o livro deixa a desejar (principalmente comparando com a obra que NG veio a escrever depois).

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