Nunca mais?

nevermore2Em post anterior, a respeito do curta-metragem Vincent, mencionei brevemente o poema O Corvo, fruto da mente atormentada de Edgar Allan Poe. Publicada originalmente no New York Evening Mirror, em 1845, a obra vem sendo reimpressa inúmeras vezes ao longo dos anos, com dezenas de traduções, nos mais diversos idiomas. Para os falantes da língua portuguesa que não estiverem familiarizados com o poema e o idioma de Poe, há duas versões lapidares, ambas respeitando solenemente a métrica, o ritmo e a ambientação do original. Os tradutores são ninguém mais, ninguém menos, que Machado de Assis e Fernando Pessoa.

Célebre por sua musicalidade e atmosfera sombria, O Corvo agradou o gosto apurado dos literatos, ao mesmo tempo em que era largamente apropriado pela cultura pop; o poema já foi citado, filmado, quadrinizado, musicado, parodiado, a ponto de hoje ser reconhecido como uma das maiores e mais notórias obras da literatura universal.

Em 2009 irá se comemorar o bicentenário do nascimento de Poe. De carona na efeméride, vejamos algumas das mais notórias variações em torno de sua obra máxima, começando pelo cinema:

A primeira versão para as telas de O Corvo data de 1915, e foi dirigida por Charles Brabin. Trata-se, na verdade, de uma biografia de Poe, em que a inspiração para o poema surgia em meio a uma série de delírios induzidos pelo álcool.

raven-fleischer-42Em 1942, os estúdios Fleischer produziram um curta animado, parodiando o poema: o corvo do título era representado como um vendedor de aspiradores de pó, tentando vender seu produto de porta em porta.

Já no clima dos anos 60, com roteiro de Richard Matheson (o autor de Eu Sou a Lenda e Em Algum Lugar do Passado), Roger Corman dirigiu para a AIP a mais célebre – e tresloucada – versão de O Corvo para o cinema, com um elenco de primeira: Vincent Price, Boris Karloff, Peter Lorre, Jack Nicholson (bem guri) e uma das rainhas dos filmes B dos anos 50 e 60, Hazel Court – falecida este ano – no papel de Lenore. O filme especula o que teria acontecido após a chegada do corvo sobre os umbrais do narrador do poema. Na visão de Matheson e Corman, o corvo é na verdade um homem (Lorre), vítima de um feitiço lançado pelo maléfico mago Scarabus (Karloff). Price é Erasmus Craven (trocadilho com Raven; fariam o mesmo com o Eric Draven anos mais tarde), o narrador do poema, na verdade um mago poderoso, que vive a chorar a morte de sua amada, a doce Lenore. Craven sequer imagina que sua adorada é na verdade uma enorme duma traíra, que forjou a própria morte para abandoná-lo e trocar seu amor pela companhia de Scarabus. Uma divertida brincadeira da produtora de Sam Arkoff, que culmina com um dos mais famosos duelos de magos da história do cinema.

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Literatura, HQ, música, cartoons, etc.

Na novela Deuses Americanos, Neil Gaiman faz referência ao trabalho de Poe: em determinado momento o protagonista, Shadow, incita um dos corvos de Odin a dizer “Nunca mais”, à maneira do poema. A resposta da ave é curta e grossa: “Fuck you.”

Lembro de um antigo gibi do Pato Donald, provavelmente um dos clássicos do Carl Barks, em que os três sobrinhos topavam com um corvo que só sabia dizer “Nunca Mais”. E nas tiras do Calvin havia um poema ilustrado, A Náusea Noturna, todo ele calcado na forma do poema de Poe.

As séries animadas da Warner, Tiny Toons e Animaniacs, cada uma a seu modo, mas ambas anárquicas, também parodiaram o Poe-ma (sorry): na primeira, a irascível canária cor-de-rosa Sweetie Pie (personagem inspirada no Piu-Piu) “interpreta” o papel do Corvo, enquanto a narração fica a cargo do senhor Vincent Price. Já em The Ravin! é o Cérebro (aquele do Pinky) quem declama o poema, enquanto a amiga dos animais Felícia (Elmyra no original, ela tem o DNA do Elmer Fudd, o Hortelino) fica repetindo “nunca mais”.

O Alan Parsons Project lançou em 1976 o álbum Tales of Mystery and Imagination, que incluía uma canção baseada em O Corvo. Bem fraquinha… Já o disco do senhor Lou Reed, The Raven, lançado em 2003 é  uma obra conceitual, toda ela baseado na obra de Poe, uma das fixações do ex-líder do Velvet Underground. Não ouvi ainda, mas já gostei.

No Youtube há uma série de leituras disponíveis de O Corvo. O menu de vozes é eclético: temos Vincent Price, o cavernoso James Earl Jones, Christopher Walken e até… Zé do Caixão! Algumas dessas leituras só contam com o áudio, infelizmente.

bart-corvoEntre todas essas derivações, minha favorita é a dos Simpsons, que foi ao ar no primeiro episódio especial do Dia das Bruxas (Treehouse of Horror), no início dos anos 90. Lisa lê o poema para Bart e Maggie. Mas a voz da menina apenas dá início à declamação, que prossegue com James Earl Jones. Homer, que ouvia a leitura escondido, fica apavorado e passa a noite em claro. Uma maneira bacana de atualizar a obra sem parecer chato.

Como podemos notar, se tem uma coisa que a trajetória do poema parece desmentir, é seu agourento verso/refrão, “Nunca mais!”: quando se trata de O Corvo, sempre há um pouco mais.

Atualização em 02 de março de 2012.

Como era de se esperar, com o passar do tempo vão surgindo novas visões sobre O Corvo.  A jornalista Joselia Aguiar, do Blog Livros Etc, da Folha de São Paulo, conta que em breve estreia mais uma versão cinematográfica, com John Cusack como protagonista. No mesmo post ela comenta sobre o relançamento de O Corvo e suas Traduções, organizado por Ivo Barroso.

Em nota de rodapé, Joselia menciona/linka este post do AG, gentileza esta que retribuo: no link é possível ver o trailer da nova adaptação para o cinema, dirigida por James McTeigue,  de V de Vingança.

5 Respostas

  1. […] O Corvo, O Abominável Dr. Phibes, Blácula, Mad Max, … Atuando como produtora ou distribuidora, a AIP – American International Pictures, foi responsável pelo lançamento de alguns dos filmes mais legais já realizados. Com parcos recursos mas com muita cara-de-pau, Sam Arkoff e Jim Nicholson conseguiram incomodar os grandes estúdios; a AIP chegou a ser reconhecida como “o maior pequeno estúdio que já existiu”.  Vale a pena contar a história dessa companhia – ainda que ao custo de um post quilométrico… […]

  2. Olá! Seu artigo está ótimo🙂 Só discordo de uma coisa… na minha opinião o melhor tradutor de O Corvo não foi Machado de Assis, Fernando Pessoa ou ninguém que tivesse essa fama toda. a mais fiel, a que sempre releio e apresento para as pessoas é a versão de Milton Amado, de 1943. 🙂

    Voltarei aqui mais vezes, abraço!

  3. […] Pants</strong>.</p> <p style=”text-align: justify;”><a href=”https://alertageral.wordpress.com/2008/12/30/nunca-mais/”>O Corvo</a>, <a […]

  4. […] seus projetos mais recentes é Evil Calls, o primeiro de uma trilogia de filmes inspirada no poema O Corvo (como esse mundo dá voltas e acaba voltando ao mesmo lugar, não é?), em que empresta sua voz à […]

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