Estamos todos de acordo?

Apesar de o vulgo nos considerar a nós, nerds, como sujeitos no limite da debilidade mental, o fato é que a maioria de nós é composta por sujeitos alfabetizados, letrados, com interesses que vão de cinema a literatura e que, portanto, têm contato com a cultura formal em níveis mais profundos que o resto da patuléia.

E é por isso que, a partir do ano que vem, quando entra o  vigor o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, assinado e válido em todos os países que tem o Português como língua oficial, essa faixa pequena porém valorosa da espécie humana, os nerds que falam português, vai ter de se acostumar a mudar hábitos de convivência com o idioma que vêm desde nossos tenros anos de formação.

“O quê? ” – algum espírito-de-porco pode objetar: “Essa turma que assiste filme sem legenda, ouve rock em inglês direto e está mais interessada em Philip K. Dick e em Cormac McCarthy no original do que em Machado de Assis? Como esse desvio aberrante da espécie humana pode ser assim tão afetado por esse acordo?” Simples, e a explicação fica no primeiro parágrafo deste texto, se não entendeu ainda pode voltar ali em cima e ler.

Pois bem, para os que não precisaram fazer esse retorno e seguem comigo, a notícia é a seguinte: os últimos dois governos prometeram sempre nivelar os índices de alfabetização do Brasil, e finalmente conseguiram com esse acordo: transformando com esse maravilhoso projeto de reforma todo mundo que já sabia escrever em semianalfabeto (assim mesmo pelo novo acordo). A partir do início do ano, mas ainda com algum tempo para que a adoção seja obrigatória, o acordo entra em vigor produzindo três principais e drásticas mudanças:

* Eliminação quase completa do trema (menos em sobrenomes ou palavras estrangeiras e seus derivados, então imagino que Gisele Bündchen ou Führer continuarão usando o sinal),

* Alteração considerável nas regras de acentuação para ditongos abertos ei e oi em paroxítonas e para hiatos com vogais (já explico melhor) .

* adoção de formas bastante criativas de hifenização ou não.

Já de cara, os apreciadores da cultura clássica (como o escriba aqui) sofreram um duro golpe: devido à segunda mudança elencada acima, a da perda do acento em ditongos abertos paroxítonas ei e oi, cai o acento em Odisseia (já vou registrar os vocábulos na nova grafia para vocês sentirem o drama), Troia, Pompeia, Eneias – tanto o candidato maluco quanto o herói da Eneida. Ah, quanto a essa palavrinha “herói” citada antes: as oxítonas abertas mantêm os acentos que sempre tiveram, e portanto herói continua com acento, mas heroico, palavra derivada, não. É algo que não me entra na ideia – que também não terá mais acento, a propósito.

Num debate por ocasião do primeiro Batman, nosso amigo Semprealerta comentou que havia ficado particularmente desagradado com as sequências (agora sem trema) do Morcego planando por Gotham City. Pois bem: a partir do próximo ano, ele terá de sustentar sua objeção dizendo que o Batman é um sujeito comum, sem poder de voo. Sim, também pelo segundo item ali de cima, voo perdeu o circunflexo, bem como outras formas semelhantes de hiato, como enjoo, abençoo, perdoo, preveem e o mais engraçado, de uma hora para outra, a primeira pessoa do singular no indicativo para o verbo magoar virou um personagem de desenho animado. Agora é magoo.

No caso do trema, o que acontece é que as marcações de pronúncia do U que vem depois de G e de Q sumiram, e portanto a partir de hoje Homem-Aranha, Demolidor e Batman, por exemplo, passam a enfrentar delinquentes pelas ruas de suas cidades. Quem estiver duvidando, que vá ao texto oficial do acordo, aqui e averigue, mas sem trema, porque nesse caso também caiu.

O grande nó está na hifenização, que parece ter sido preparada pelo Sacanás em pessoa. Toda palavra composta em que o segundo termo tem H leva hífen, e portanto Super-Homem e super-herói continuam como eram.  Mas quando a primeira palavra termina com a mesma vogal que inicia a segunda palavra do composto, o hífen também passa a ser obrigatório, e, portanto, aquela grande invenção para nerds que se alimentam mal, o micro-ondas, agora se grafa assim.

Alguns poderiam dizer que essa regra evitaria choque de letras iguais em uma palavra composta, mas o fato é que quando não separou o que estava junto, o acordo juntou o que estava separado – e ainda dobrou letras. Quando prefixos terminados em vogal encontram palavras começadas em R ou S, cai o trema, junta-se as duas e dobra-se o r ou o s. Assim, nosso amigo Tcheloco às vezes tem alguns rompantes antirreligiosos. Assim mesmo.

O mais engraçado é que o acordo não unifica nada, no fim das contas. As grandes diferenças de pronúncias e acentuação entre Portugal e Brasil (aqui se diz bebê e lá bebé, lá usam Amazónia, aqui Amazônia, lá é gémeo, aqui é gêmeo) continuam, porque não há como alterar o que é resultado de pronúncia diferente, e portanto o acordo estabelece formas duplas de ortografia, uma tão válida quanto a outra – dezenas delas.

Bem vindo ao Admirável Português Novo, meu companheiro neoanalfabeto (assim, sem hífen e tudo junto).

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4 Respostas

  1. Pelo menos agora ninguém mais vai “tremer na LINGUIÇA”. 😛

  2. Em resumo, uma puta palhaçada de quem não tem porra nenhuma prá fazer.

  3. Caraca… não sei se mando a putaquepariu ou a puta-que-pariu!

  4. É puta-que-pariu, com hífen.

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