Blácula

Transilvânia, 1780. O príncipe Mamuwalde (William Marshall) e sua esposa Luva (Vonetta McGee), da tribo africana Ibani, na atual Nigéria, são enviados pelos anciões de seu povo em uma missão de protesto contra a escravidão, junto aos poderosos da Europa. Não sei porque cargas d’água resolvem visitar justo o Conde Drácula (Charles Macauley), que consideram um dignatário de grande estatura e influência junto aos demais governantes do continente. O gajo que passou essa informação ao casal de africanos deve ser um tremendo racista e um adorador de Sacanás: Drácula não só acha graça da proposta de seus visitantes como pergunta a Mamuwalde qual o preço de Luva.

Ofendidos, os visitantes decidem ir embora, mas já é tarde demais: os criados de Drácula aplicam uma coça no africano, até ele ficar inconsciente. O Conde morde seu pescoço, e fazendo aspinha com a mão direita, conjura a seguinte maldição: “você pagará, príncipe negro. Eu lançarei sobre ti uma terrível praga, que te condenará a um inferno vivo. Fome… Uma selvagem, animalesca fome, crescerá dentro de você. Uma fome por sangue humano. (…) Eu te amaldiçôo com o meu nome: você será BLÁCULA!”. O vampiro-mor prende Mamuwalde em um ataúde, e condena Luva a morrer de fome e sede ao lado do caixão do marido, encerrada em uma câmara escondida no castelo. Péssimo anfitrião esse Conde Drácula.

Eu amo o Deus Metaaaal!
Eu amo o Deus Metaaaal!

Passados quase dois séculos, um casal de decoradores gays arremata todos os objetos existentes dentro das ruínas do famigerado castelo, para vender como souvenir a seus compatriotas norte-americanos. Nesse ínterim, Mamuwalde desperta de seu sono maldito, transformado em um horrível vampiro. Para melhor evidenciar a mudança no personagem, os produtores colocaram costeletas e sobrancelhas exageradas no protagonista, William Marshall. Sei lá, acho que devem ter confundido Drácula com Lobisomem.

Antes e depois da noitada
Antes e depois da noitada

Já em terras do Tio Sam, acontece o que seria de se prever: Blácula encontra-se com a bela Tina, que vem a ser ninguém mais ninguém menos que a reencarnação de sua amada Luva. A atriz é novamente Vonetta McGee, esse pessoal do cinema confunde reencarnação com clonagem, utilizando sempre o mesmo ator para viver os dois papéis, o de reencarnante e o de reencarnado. Fazem isso deliberadamente, além de facilitar o entendimento da trama para a platéia, sai mais baratinho… Tina vive em Los Angeles, justamente a cidade para onde Blácula foi levado pelo casal de decoradores: até que ele não é tão amaldiçoado assim.

Caso raro de perfeita e imediata adaptação ao meio, Blácula circula pelas ruas da L.A. de 1972 como se não tivesse passado quase 200 anos preso em um caixão. Não há choque cultural de nenhuma espécie. Ele entra na boate onde está a sua amada e pede champagne para todos. Parece até  que é o dono do rendevu. That’s blaxploitation, baby!

Esses são apenas os primeiros dez minutos de Blácula, um clássico da blaxploitation, realizado em 1972 por William Cain. Sim, senhoras e senhores, trata-se do primeiro vampiro mano do pedaço. Eu poderia passar horas enumerando os aspectos pitorescos da película, mas nada se compara à experiência de assisti-lo pessoalmente. Pra quem gosta dos “bons” filmes (entre aspas, em negrito e itálico, que é pra não deixar nenhuma dúvida quanto à ironia), esse é obrigatório.

Assim como “Blácula”, “Blaxploitation” é uma expressão auto-explicativa: o gênero surgiu no início dos anos de 1970, nos EUA, buscando atingir a população negra urbana. Os protagonistas eram atores negros e as trilhas sonoras usavam e abusavam do melhor do funk e da soul music (e dê-lhe wah wah). Os filmes eram geralmente ambientados no gueto, onde orbitava uma verdadeira fauna formada por cafetões, prostitutas, traficantes e matadores. Outros elementos sempre presentes: uso desmedido de drogas, penteados afro, conversíveis tunados (os famigerados pimpmobiles) e personagens brancos do mal, como tiras e políticos corruptos. Reinando acima de todos esses estereótipos tínhamos o típico negão badass muthafucka, que comia todas, matava o bandido branquela e deixava uma bela gorjeta pro garçom na saída. O dono do pedaço. De onde vocês acham que sujeitos como 50 Cent (valor nominal?) ou  Snoop Dog tiraram aquela marra toda?

Blácula, como não poderia deixar de ser, é mais uma heresia da lendária American International Pictures, a companhia de Sam Arkoff, especializada em filmes divertidos e baratos. Beeem baratos.

Ah… E tem ainda a continuação, Scream, Blacula, Scream, de 73. Esse aí com direito à Pam Grier.

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9 Respostas

  1. Ah… Reparem só na podrêra que é o cartaz. Acho que o Sam Arkoff deve ter visto o original e reclamado:
    Arkoff – Falta sangue neste cartaz, meninos, coloquem uma estaca no coração dele, com sangue saltando para os lados. O cartaz tem que ter três coisas, garotos: um monstro, mulheres e sangue. Isso é que vende um filme, garotos.”
    Assessor – Sim, senhor Arkoff, vou agora mesmo chamar o ator para refazer as fotos promocionais.
    Arkoff – Está louco, garoto? Pensa que dinheiro dá em árvores? Macacos me mordam, rapaz, dê-me aqui este cartaz, deixe que eu mesmo desenho a estaca e o sangue… Assim, um pouco mais de vermelho e… Pronto! Pode mandar para a gráfica”.
    E acendia um charuto, satisfeito consigo mesmo.

    Detalhe… Em nenhum momento do filme Blácula é sequer ameaçado com uma estaca.

  2. Sensacional e muito engraçado esse texto, Espantalho! Esse filme deve ser um COLOSSO, hehehe!

  3. Prá não dizer que não reclamei de nada, acho que “haspas” (ou “haspinha”) é sem “h”…

  4. Ok, já editei, valeu. A propósito: “pra” não tem acento.

  5. Ops!
    Ehehehe…

  6. Esse eu verei, já to baixando hehe

  7. […] Corvo, O Abominável Dr. Phibes, Blácula, Mad Max, … Atuando como produtora ou distribuidora, a AIP – American International Pictures, […]

  8. Não sei o que é mais engraçado: o texto ou o filme.

    Parabéns, morri de rir.

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