Paul Newman (1925 – 2008)

Paul Newman e seu amigo, o cigarro, que logo o tornaria Paul Deadman

Paul Newman e seu amigo, o cigarro, que logo o tornaria Paul Deadman

A morte de Paul Newman em sua casa em Connecticut, anunciada hoje pela fundação que leva seu nome, representa mais uma trava no caixão de uma certa idéia de cinema representada por ele e por outros de sua geração que partiram recentemente, e além da tristeza natural de se ver alguém com um currículo como ele partir, fica no ar uma certa estranheza, a de ver um mundo, uma noção de realidade, morrendo, desafazendo-se aos pedaços.

Newman tinha 83 anos, mesmo em idade tão avançada tinha a coragem de não se mostrar um bom exemplo politicamente correto e continuava um fumante inveterado, mas ao contrário da metade dos malas que reclamam da fumaça e clamam bobagens sobre a responsabilidade de uma pessoa pública, Newman não se pautava pelo politicamente correto. Mais certo dizer que o politicamente correto nasceu do exemplo de pessoas como ele.

Newman esteve ligado ao movimento dos Direitos Civis. Emprestou seu prestígio a causas candentes dos anos 1960 em uma América conflagrada e lutou em prol da extinção das armas nucleares. Newman correspondia à noção de um homem adulto com suas próprias responsabilidades das quais não deveria fugir. Uma noção que parece um tanto perdida no mundo de hoje, com sua noção de imediatismo, presente perpétuo, adolescência estendida até o climatério e ondas de comportamento masculino “sensível”.

E, claro, Newman deixou como maior legado sua participação em dezenas de filmes, filmes de um tipo que o cinema americano produz cada vez menos, filmes que representavam em termos de cinema isso aí que se disse sobre maturidade e vida adulta: filmes que eram ao mesmo tempo divertidos e sérios, não eram monomaníacos e se estruturavam em um roteiro com uma história coerente em vez de explosões e porrada – embora houvesse ação neles, também. Melhor do que muitos atores de sua geração (vide Tony Curtis ou Burt Lancaster), Newman soube também fazer a transição da sua juventude de galã para a velhice. Participava dos projetos que queria, e suas atuações eram notáveis.

Sua parceria com Robert Redford rendeu dois dos melhores fimles desse gênero infelizmente moribundo: Butch Cassidy (1969) e Golpe de Mestre (1973), mas Newman era uma imgem memorável também em Gata em Teto de Zinco Quente (1958) Desafio à corrupção (1961) – que nosso camarada saxofonista Mário (qual?) cosidera o melhor filme já feito sobre sinuca –, Inferno na Torre (1974), Ausência de Malícia (1981), A Cor do Dinheiro (1989) e Estrada para Perdição (2002), no qual pronuncia uma daquelas 10 frases ali embaixo que eu elegi como as mais bacanas que eu já tinha ouvido no cinema.

Ah, uma última curiosidade: uma escritora americana contemporânea chamada Sue Grafton é autora de uma série de romances policiais protagonizada pela detetive particular residente na Califórnia Kinsey Millhone, e já teve várias de suas histórias traduzidas no Brasil, como A de Alibi, B de Busca, C de Cadáver – não é um título só, são três livros diferentes. A série segue esse padrão de títulos “alfabéticos” e lá nos Estados Unidos já está em S is for Silence (publicado em 2002). Um dos personagens recorrentes do elenco de coadjuvantes que é inevitável para criar uma certa familiaridade entre o leitor e o universo de um personagem detetive era o vizinho de Kinsey, um homem dos seus 70 anos e que Kinsey sempre descreve como um homem de olhos azuis fulgurantes, extraordinariamente bonito mesmo com a idade avançada. A própria autora admitia que havia se inspirado em Newman para criar esse personagem em particular.

Foi-se mais um. Um dos últimos de seu gênero. Talvez sobre apenas Kirk Douglas, mas se houver mais algu, o Espantalho logo lembrará

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2 Respostas

  1. Ainda bem que o obituário já tava pronto… Se bem que, porra, eu trocaria tranquilamente o meu texto por esse! =D

  2. Da época em que filmes eram pra sempre e que atores e personagens eram maiores que a vida, além do Issur Danielovich, só sobraram – e ainda não soçobraram – a Lauren Bacall e o Mickey Rooney.

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