A distopia original do século 20

Sociedade rigidamente controlada por um estado totalitário que impõe a seus cidadãos uma vida despersonalizada e mantém a todos em vigilância constante? Confere.

Mundo no qual noções básicas da civilização ocidental, como liberdade e individualidade, são banidas e consideradas não apenas inconvenientes mas infamantes? Confere de novo.

Funcionário técnico que, no meio dessa hierarquia desumana, encontra mulher cujo amor será redenção e ruína ao mesmo tempo? Confere mais uma vez

Figura sinistra que oprime o povo enquanto exige ser chamado por um epíteto queridinho? Certo.

É 1984, de George Orwell?

Não, Bom palpite, mas não é essa a resposta.

Distopia é este chapéu...

Distopia é este chapéu...

Embora as frases escolhidas conscientemente sirvam para definir elementos do livro, foram colocadas aí com o intuito de sublinhar a dívida que o clássico de Orwell (e, por tabela, praticamente tudo o que se derivou dele, como sua adaptação cinematográfica, ou Brazil, de Terry Gilliam,  ou uma dezena de séries que vão de Logan’s Run a Aeon Flux, por exemplo) tem com um precursor menos conhecido da literatura de ficção científica, o romance Nós, do russo Yevgeni Zamyatin, o cidadão da foto ao lado. O livro foi concluído em 1921 – mais de duas décadas antes de 1984, que é de 1948.

Narrada em primeira pessoa em uma prosa que vai gradualmente do patético iludido para o desencanto, Nós é contado por D-503, um engenheiro que vive em um mundo futurista no qual a liberdade foi abolida, a mecânica e a matemática regem a ideologia e as pessoas, chamadas “cifras” ou “números”, têm nomes que mais parecem identificações de série. Controlando tudo, está uma figura sinistra que auto-intitula O Benfeitor, que forjou o UnEstado que domina aquele mundo remanescente de uma guerra de séculos. Funcionário do departamento responsável pela criação de um foguete destinado às estrelas, D-503 vai conhecer I-330, uma enigmática mulher parte de uma célula de resistência. E só aí perceberá o quanto o véu da alienação em que vivia, parte imposição do Estado e parte seu próprio conformismo, escondia as imperfeições daquele mundo que deveria ser de pura ordem. Como vocês vêem, quem leu 1984 ou mesmo viu o filme achou a trama de Nós bem mais do que vagamente familiar.

Zamyátin viveu de 1884 a 1937 e era um satirista. Seus livros eram visões humorísticas de seu tempo, que lhe granjearam uma reputação razoável no final dos anos 1910. Sim, esse é o primeiro choque de quem lê o livro: o modelo para o sombrio 1984 é um livro irônico, eivado de humor e poesia. Lançado menos de uma década depois do triunfo dos bolcheviques, Nós só poderia ter o destino que teve: foi banido. Aliado de primeira hora dos bolcheviques mas radicalmente contra a censura exercida por eles, Zamyátin logo caiu em desgraça e foi proibido de publicar não só esse como qualquer livro futuro. Devido a essa contingência, Nós, contrabandeado pela mulher do escritor para o exterior, foi levado para um amigo em Londres e veio a ser publicado primeiro em inglês, depois em francês e, finalmente, anos depois, em russo — numa tradução que, sem os originais, precisou se valer de uma segunda tradução da edição original inglesa (complicado, não?). Nós circulou bastante na Inglaterra, e, portanto, era conhecido por Orwell quando este começou a escrever sua própria distopia.  

Zamyátin conseguiu escapar do horror soviético por interferência de Górki, que conseguiu a permissão de Stálin para que ele fosse viver no exílio, em Paris, onde morreu na pobreza.

Nós teria também inspirado o Admirável Mundo Novo, de Huxley, mas o escritor inglês sempre negou esse fato. E no jogo eterno das influências literárias, é provável que o próprio Nós tenha resultado da leitura de Zamyátin do conto A Nova Cidade, de Jerome K. Jerome, publicado no fim do século 19 e que apresenta uma visão de mundo parecida: uma cidade em que todo mundo se veste igual, com uniformes cinzas e com o cabelo curto e pintado de preto, cercada por um muro e no qual o amor individual é perigoso para o avanço da utopia estatal totalitária.

Como, apesar de sua importância, o livro ainda não ganhou tradução no Brasil, compartilho com os leitores do Alerta uma tradução exclusiva do primeiro capítulo, feita com base no volume editado pela inglesa Penguin Books.

Bom proveito, folks. 

Registro 1

 

Proclamação

As Mais Sábias Linhas

Um Poema Épico

 

Eu estou tão-somente copiando aqui, palavra por palavra, o que foi impresso hoje na Gazeta Estatal:

 

Daqui a 120 dias, a construção do INTEGRAL será finalizada. Aproxima-se a grande, a histórica hora em que o primeiro INTEGRAL será lançado ao espaço. Mil anos atrás nossos heróicos ancestrais subjugaram o planeta inteiro ao poder do UnEstado. Cabe a vocês executar uma tarefa ainda mais gloriosa: concluir, por meio do vidro, da eletricidade, do hálito de fogo do INTEGRAL, a indefinida equação do universo. Cabe a vocês colocar o benéfico jugo da razão ao redor dos pescoços dos seres desconhecidos que habitam outros planetas – que ainda vivem, provavelmente, no estado primitivo conhecido como liberdade. Se não entenderem que estamos levando a eles uma felicidade matematicamente infalível, seremos obrigados a forçá-los a ser felizes. Mas antes de pegar em armas, devemos verificar o que as palavras podem fazer.

Em nome do Benfeitor, todos os Números do UnEstado, por meio deste, estejam informados do que segue:

Todos os que se sentirem capazes de fazê-lo são solicitados a compor tratados, poemas épicos, manifestos, odes, ou outras composições a respeito da beleza e da grandeza do UnEstado.

Esta será a primeira carga transportada pelo INTEGRAL

Vida longa ao UnEstado! Vida longa aos Números! Vida Longa ao Benfeitor!

 

Enquanto escrevo sinto as bochechas arderem. Sim: determinar completamente a integral da colossal equação do universo. Sim: desdobrar a parábola selvagem, planificá-la tangencialmente, aplainá-la em uma linha sem desvios. Porque a linha do UnEstado é uma linha reta. A grande, divina, precisa, sábia linha reta – a mais sábia de todas as linhas.

Eu, D-503, construtor do INTEGRAL, sou apenas um dos matemáticos do UnEstado. Minha caneta, acostumada a gráficos, é débil para criar a música da assonância e da rima. Devo tentar anotar – nada mais – o que eu vejo, o que eu penso – ou, para ser mais exato, o que nós pensamos (o que é o correto: nós, e que este NÓS seja o título destes registros). Mas isto, seguramente, derivará de nossas vidas, da vida matematicamente perfeita do UnEstado, e, se é assim, não será, de acordo com nossos parâmetros, não importa o que eu pense, um épico? Será; eu acredito e eu sei que será.

Sinto minhas bochechas arderem enquanto escrevo. Esta é provavelmente a sensação que tem uma mulher quando sente pela primeira vez em si o pulso de uma nova pessoinha, ainda minúscula e cega. Sou eu, e ao mesmo tempo não sou eu. E pelos longos meses seguintes ela terá de nutri-la com sua própria essência, seu próprio sangue, e então – tirá-la dolorosamente de si e deposita-lá ao pé do UnEstado.

Mas eu estou pronto. Como todos nós, ou quase. Eu estou pronto.

Anúncios

2 Respostas

  1. Faaantáástico!!!
    Pena mesmo que esse livro: NÓS, não tenha tradução para o português, que dirá português brasileiro.

  2. Nosso colega Trezentos, vulgo ‘Cabeção’, mais uma vez, está de parabéns. Agora falta traduzir o livro inteiro e lançar.

    Um abraço! 🙂

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: