Filmes que deveriam ser feitos

Imaginem a cena: ano de 1904, em volta da praça central da cidade caucasiana de Tiflis (que hoje se chama Tibilissi). Embora seja a capital do vice-reinado do Cáucaso, o município é de tamanho médio, misturando mercados árabes e caravançás dignos do Oriente Médio com prédios de arquitetura neo-clássica de inspiração italiana. Na praça, duas garotas coquetes, morenas esguias em vestidos elegantes, flertam com um grupo de cossacos e oficiais defronte o quartel-general militar. Aparentemente alheio ao episódio, um oficial de cavalaria faz sua montaria trotar em volta da praça, sabre pendurado ao cinto. Se fosse olhado com mais atenção, seriam perceptíveis no lado esquerdo de sua face feias cicatrizes de queimadura e um olho cego que volta e meia gira em uma órbita não-natural. Nas esquinas do perímetro, guardas armados estão estrategicamente posicionados. Dobrando uma esquina, uma taberna de má reputação está cheia, mas ainda assim o proprietário não recusa entrada a ninguém. O que ele recusa é a saída. Quem entra é convencido sob coerção velada mas firme a ficar por ali e só sair quando o dono do lugar der o seu consentimento.

Quando uma nuvem de pó se avizinha no horizonte, uma das garotas acena para um homem na esquina de um jardim, que por sua vez acena para a taberna. A maioria dos sujeitos mal encarados presentes levanta-se deixando sua bebida pela metade e sai, portando carabinas e pistolas, Posicionam-se atrás da esquina, prontos para derrubar qualquer cossaco ou oficial que deixe o quatel. A nuvem de pó se torna uma diligência escoltada por seis cossacos, que avança pela frente do quartel, dá a volta na praça e se aproxima de um banco, sempre discretamente seguida pelo já mencionado oficial de cavalaria, um cúmplice disfarcado. Sem aviso, os sujeitos mal encarados na praça sacam um bom número de granadas de mão redondas, chamadas de “maçãs”, e que havia sido contrabandeadas para a cidade dias antes pelas mesmas garotas do início deste texto, dentro de grande um sofá.  O grupo atira as granadas no caminho do comboio, estripando os cavalos e matando ou derrubando seus cavaleiros, tanto os da diligência quanto os da escolta. Um rápido tiroteio e os homens estão prestes a tomar posse da diligência e dos sacos de dinheiro que estavam lá dentro. Mas um dos cavalos feridos subitamente desperta, levanta e, em pânico, ainda atrelado à diligência, sai em disparada, levando o dinheiro que seria o objetivo de toda aquela ação. Mantendo a cabeça fria, um dos ladrões corta o caminho do cavalo e atira uma nova granada. Desta vez o cavalo explode, e termina numa poça de sangue, sem as patas, mas a explosão também derruba o sujeito que lançou os explosivos. Outros dos ladrões corre até a diligência e finalmente se apossa do dinheiro, mas o bando está disperso pela reação da polícia e a fumaceira das granadas impede contato visual com outros do grupo. Quando a poeira baixou, o homem viu que estava sozinho, encurralado em um canto da praça, e longe de seus companheiros enquanto os cossacos e oficiais já avançavam em sua direção.

Nesse momento, o falso oficial de cavalaria irrompe, agora com as rédeas de um pequeno coche em uma das mãos e uma pistola na outra. Na base do grito, reorganiza o bando, sustenta o tiroteio deixando a praça momentaneamente livre, e alcança o companheiro com os sacos de grana, que são jogados no “faeton”. Com a carga, faz uma curva audaciosa e começa a fuga pela avenida principal, quando vê o subchefe de polícia vindo em sua direção. O falso oficial grita que o dinheiro está seguro e diz para o chefe perseguir os bandidos na praça, e o polícia otário passa pelo dinheiro e o deixa ir, acreditando na palavra do falso oficial e permitindo que o coche partisse com uma quantia estimada equivalente a 3,4 milhões de dólares em moeda de hoje.

O assalto foi tão violento e fantástico para os padrões da época que repercutiu na imprensa internacional, com artigos em jornais da distante Inglaterra. O oficial de cavalaria, um sujeito violento, psicótico, que trazia no rosto queimado as marcas de uma bomba que ele próprio estava montando e que explodiu em sua cara, era chamado de Kamó, e era o lugar-tenente do grande planejador por trás do roubo, um georgiano de nome Iossif Djugachvili. Que todo mundo mais tarde conheceria pelo último de seus muitos pseudônimos: Stálin.

Ficha do jovem Stálin na Okhrana, datada de 1908, quatro anos após o grande roubo

Ficha do jovem Stálin na Okhrana, datada de 1908, quatro anos após o grande roubo

 

Essa história, que de fato aconteceu, está no recentemente lançado livro O Jovem Stálin, do historiador Simon Sebag Montefiore, que recupera os dias de infância e juventude do ditador russo, sua passagem pelo seminário ainda na sua cidade natal, suas primeiras ações como revolucionário e sua ascensão como o homem de ação dos comunistas caucasianos, organizando assaltos e roubos cada vez mais ousados para arranjar dinheiro para a revolução. Vendido por sua propaganda oficial como líder, nessa época, de uma ativa célula revolucionária, Stálin e seu bando, por origem, relações e modus operandi, mais se assemelhavam a um bando de gângsters. 

Stálin foi personagem ele próprio de dois ambiciosos filmes nas últimas duas décadas: Taurus (2001), no qual Alexandr Sokurov retratava os últimos dias de Lênin à beira da morte em sua dacha, e O Círculo do Poder (1991), de Andrey Konchalowski, sobre um sujeito que, como projecionista particular do ditador, testemunhava o isolamento paranóico ao qual o tirano se recolhia. São duas poderosas produções sobre a natureza do poder e sua própria volatilidade. Mas confesso que depois de ler o livro fiquei bastante curioso em especular como seria um filme que retratasse esse assalto cometido pelo bando do jovem Stálin ao estilo do popular gênero conhecido como “filme de roubo”. Seria melhor ainda, um cruzamento de gêneros, ao estilo dos que Hollywood tanto preza: um “filme histórico de roubo”.

Afinal, se já tivemos The Italian Job, então por que não The Georgian Job?

Tudo bem, foi só uma idéia.

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Uma resposta

  1. Lembrei que o projecionista do Círculo do Poder era o Tom Hulce, que foi Amadeus. Seu grande rival no filme era Salieri, interpretado magistralmente por F. Murray Abrahams. Que por sua vez, encarnou Stálin, na comédia Children of the Revolution,de 1996.

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