Pé esquerdo

Tem dia que a gente levanta com o pé esquerdo. O pior que depois de enfrentar uma coisa dessas, acabo sempre pensando em nosso amigo que desbrava as terras amazonenses.

7:00 o relógio desperta.
7:08 desperta mais uma vez
7:16 desperta de novo, só que não ouço porque a porcaria caiu dentro do vão do sofá e ficou prensado nas almofadas
7:24 acordo não sei como, com aquele despertador fanho. Tento pegar o telefone e ele cai láááá no fundo do sofá. Desgraçado.
Já puto da cara, dobro o sofá e meto a mão no estilo Indiana Jones para pegar o ídolo de pedra, resgato o telefone apitando de novo.
Atrasado, tomo banho e o chuveiro não esquenta o suficiente, porque os canos velhos do prédio parecem muito com dutos das câmaras frias. Conservam a água em baixas temperaturas, mesmo no verão.
Naquele momento, pensei… bom, neste horário não pode falar palavrão.

Saí do banho congelado, “batendo queixo” como dizem os mais velhos. Engulo o café e tento revisar a mochila… Pelo menos ia de bicicleta.
O Paulo sempre fala das maravilhas da bicicleta. Então resolvi comprar uma. Ser um cara ecologicamente correto, emitir menos gases poluentes e nocivos para a camada de ozônio… e claro, não pagar mais 180 reais de estacionamento por mês, trinta de gasolina por semana e ainda ser achacado pelos flanelinhas que não cuidaram do carro, mas ainda assim acham que merecem uma moedinha.

Manobrando desajeitadamente a bike(modernão), fui com ela até o topo da minha rua. Pra quem não sabe, eu moro no pé do morro.
Daí, descer foi só alegria… Eu sem equilíbrio nenhum, descendo o morro em direção da Redenção (o parque, não a minha).
Mal coloco o pé no parque, o freio traseiro trava sem que eu desse o famoso comando de puxar o manete. Ele simplesmente trava. Aliás, travou tão bruscamente que o pneu foi descolado, a câmara foi puxada para fora e virou um espaguete no meio das engrenagens das marchas. Até então eram 21, mas depois daquilo, a roda traseira não se mexeu mais.
Fui então carregando aquela bosta pelo meio do parque farroupilha.

Um pouco mais adiante ouvi vozes, infelizmente não eram do além. Eram três senhores, na casa dos setenta anos caminhando lépidos e fagueiros, falando sobre futebol. Quando passaram por mim, um deles falou:

– Furou o pneu, não é, companheiro?

– Pois é…

Eis que ele arrematou:

– As antigas não furavam pneu assim.

E continuaram andando. Eu fiquei imaginando então a cena do gibi “Procurado”, onde o nosso anti-herói mata o velho chato que dizia coisas chatas pra ele. Também me veio a lembrança de uma história onde três velhinhas para lá de safadas acabavam com todos que atravessavam seu caminho. Achei melhor continuar a empucarregar a bicicleta.

Mais adiante, eles dobraram numa esquina do parque e sumiram… para mais tarde passarem por mim novamente. Sim… eles deram uma volta sei lá onde e saíram exatamente na minha frente mais tarde. E o mesmo senhor falou:

– Opa…

Ele passou por mim e disse “opa”. Na boa… fiquei mesmo com vontade de tacar a bicicleta no véio. Claro que não fiz… mas deu vontade. Ele tava com certeza tirando onda com a minha cara.

Fui até a loja onde comprei a merda daquela bosta de bicicleta. Ainda estava fechada. Tinha uma borracharia ao lado, perguntei se ele podia arrumar e o cara disse o quê?

– Posso sim, mas só posso consertar o pneu mais tarde que ainda não tomei café.

O cara nem ao menos deu uma desculpa menos esfarrapada… trabalhar só depois do café? Então porque a borracharia estava aberta?

Esperei até o cara da loja chegar. Pelo menos o cara disse que dava pra arrumar rapidinho, fiquei de voltar lá depois do meio-dia, porque já estava atrasado para o trabalho.

Agora entendo porque o Paulo disse que bike é um exercício tão bom. Não é porque você pedala… É porque a porra daquele pneu fura e daí tem que arrastar aquele traste até a oficina. Neste caso, até pedra é um bom exercício. Basta carregar uma na mochila.

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3 Respostas

  1. Shit happens. Trata-se de veículo altamente traiçoeiro. Recomendo retrovisor e capacete.

  2. Kraemer Chronicles.

  3. Agora que me avisam!

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