Uma questão de valores

Essa história de ética é uma coisa muito interessante. Faz bastante tempo que não trabalho em agência de propaganda, não sei se voltaria assim do nada a trabalhar numa. Gosto da publicidade, o problema na profissão são os publicitários.

Com o tempo aprendi que o jogo que se joga é realmente bastante complicado, vendendo coisas e conceitos que são na sua maioria, inúteis para qualquer pessoa. Li algum tempo alguém comentando que na publicidade parece que tudo que você come vindo dos anúncios são indigestos, porque depois você precisa de um purgante. Purgante este que também é vendido com muita ênfase ultimamente. Tem pelo menos 4 produtos em cadeia nacional vendendo a idéia que é necessário cagar bem para ser feliz.

Fiquei desgostoso com a propaganda e a pá de cal foi quando o dono da última agência de publicidade onde trabalhei, morreu de infarte quando estava indo para casa. Foi quando vi que não quero isso para mim. Passado algum tempo, vejo esporadicamente algo criativo na propaganda, mas cada vez mais tem campanha reciclada ou requentada. Algumas parecem ter tido apenas o logotipo trocado.

Não que eu seja muito criativo, mas quando se propõe ser, o mínimo que se espera é que isso seja uma meta. Ser criativo é difícil, mas também é necessário. As vezes faço trabalhos para uma agência aqui de Porto Alegre que tem como clientes apenas ongs. Deve ser o único publicitário dono de agência que tem a consciência limpa de não vender coisas que ninguém precisa. É uma questão de valores. Não de grana, mas de valores pessoais.

Hoje na aula, falava com um aluno sobre propaganda. Ele é muito inteligente e tem a alma de um verdadeiro publicitário. Ele disse que boa parte da família dele morreu de câncer por causa do cigarro, entretanto, ele faria uma campanha para uma marca sem dor na consciência, afinal, ele não mandou ninguém fumar. Se voltassem para o ar, ele faria campanhas para vender cigarro com certeza.

Bom, não mandou, mas poderia influenciar alguém a fumar. Isso me lembrou o Al Pacino no filme Advogado do Diabo, onde ele, o diabo, não faz maldade, deixa os outros darem tiro no próprio pé sozinhos. Me lembrou também do Oliviero Toscani, o fotógrafo que faz campanhas onde mostra de maneira crua uma realidade que ninguém gosta muito de ver. Claro que ele habilmente faz as coisas serem escandalosas e sensacionalistas, mas ao mesmo tempo, faz uma marca pagar para mostrar que anorexia é uma doença grave. Questão de valores.

Este aluno ainda teve a idéia de lavar sua consciência dizendo que se ganhasse muito dinheiro, faria uma campanha contra o cigarro depois de rico. Fiquei em reflexão sobre o assunto. Lembrei então de uma professora de ética na faculdade. Ela dizia que na publicidade a ética termina onde entra o dinheiro. Pergunto eu se valeria mesmo a pena um dinheiro assim. Talvez esse seja um dos motivos que me fizeram ir para o design e me afastar um pouco da publicidade.

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2 Respostas

  1. “Tem pelo menos 4 produtos em cadeia nacional vendendo a idéia que é necessário cagar bem para ser feliz.”

    E não é, tchê?

  2. O que eu mais gosto nos comerciais desses Activia da vida é a representação que fazem do corpo humano, invariavelmente um desenho mostrando apenas os contornos de uma pessoa, com um tubo indo da boca até o estômago. A forma “científica” utilizada para demonstrar os efeitos benéficos do produto é mostrar uma área do corpo (estômago, pulmão, cabeça) pulsando em vermelho, como se estivesse em DEFCON-1: Perigo! Perigo!. Mas depois que a gente começa a tomar as porquêra deles, vai ficando tudo azul. Alívio imediato ou seu dinheiro de volta. Simples. Vou comprar agora mesmo!

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