Sonya e Sonja

Você precisa ver a nova tonalidade do Koleston...

Você precisa ver a nova tonalidade do Koleston...

Eu havia escrito este texto como um comentário ao post do Espantalho sobre os filmes novos do Justiceiro e da Sonja, em produção. E, como costuma acontecer com tudo o que escrevo, o próprio Espantalho me disse que o comentário estava mais parecendo um post do que um comentário propriamente dito. Então resolvi apagar o comentário e ampliar aqui como um post.

Ao mencionar o filme anterior da Sonja, uma produção tosca de triste memória protagonizada pela ex do Stallone, Brigitte Nielsen, o Espantalho lembrou que o filme trazia o Arnold Schwarzenegger vivendo um “Conan genérico”, um tal de Príncipe Kalidor. Fazendo jus ao seu nome, o Semprealerta fez um pertinente comentário lembrando que o Schwarza foi contratado para viver o próprio Conan, mas uma pendenga de direitos autorais impediu a presença do Cimério no filme – e não foi a primeira envolvendo a ruiva com o uniforme mais legal dos quadrinhos quando se é um leitor de revistas adolescente.

A questão é que a Sonja dos quadrinhos é baseada no personagem que vocês vêem na primeira ilustração, ali em cima (de autoria de Michael Peters para um fanzine adaptando histórias de Robert E. Howard), e que um leitor mais perspicaz verá que, apesar da semelhança, não é a dos quadrinhos, dado que na Era hiboriana não havia ainda armas de fogo. Sonja é derivada da personagem Red Sonya from Rogatino (COM Y), que o criador de Robert E. Howard inventou para um único conto, The Shadow of the Vulture, publicado na revista Magic Carpet Magazine, em 1934. Diferente dos contos da Era Hiboriana, nos quais Howard misturava referências indiscriminadas para criar um mundo novo, esse é um conto “histórico”, baseado em fatos e episódios até certo ponto verificáveis. A Sonya da história é uma guerreira russa do século 16, ruiva, como a nossa Sonja, que combatia ao lado de outros aventureiros tentando furar um cerco otomano a Viena. Um trechinho, traduzido como deu por mim:

– Ah!, aquela lá é um demônio! Ela bebe a ponto de pôr os mais fortes a nocaute e empunha uma espada espanhola. Ela não é a luz do amor para nenhum homem. “Corte! Golpe! Morra, cão dos infernos.” Este é o caminho dela.
– Mas quem é ela, em nome do demônio? – rosnou Von Kalmbach.
– Sonya, a Ruiva, de Rogatino. É tudo o que sabemos dela. Marcha e luta como um homem. Sabe Deus por quê.

o estilo fotorealista de Alex Ross desenhando uma ruiva boa

Tava aí o que você queria: o estilo fotorealista de Alex Ross desenhando uma ruiva boa

Em 1973, quando escrevia as histórias de Conan para a Marvel, o escritor Roy Thomas, tentando arranjar subsídios para os gibis em material original de Howard, fez uma devassa nos contos antigos do assim chamado R.E.H. e dali retirou a trama básica de The Shadow of the Vulture, reescreveu o bagulho transferindo-o da Renascença para a era Hiboriana e usou a Sonya da história como modelo para a Sonja do gibi. Também comparecem na personalidade e na história de Sonja nessa época elementos de outra guerreira criada por Howard, Agnes de Chastillon, também conhecida por Dark Agnes e Agnes de La Fere, também do século 16, mas francesa. O primeiro visual de Sonja na história publicada em Conan The Barbarian 23 foi desenhado por Barry Windsor-Smith (mas na história original Sonja tinha um visual mais… pudico. Usava uma cota de malha e calças de seda vermelha). A Sonja que se tornou célebre pelo seu impossível biquíni de argolas de metal foi criada pelo espanhol Estéban Maroto, e esse foi o visual com que a ruiva voltou à cena e mais tarde ganhou revista solo.

Como se vê, há a Sonya do conto de Howard e há a heroína dos quadrinhos, que só muito vagamente saiu das páginas do escritor. Mas desde que começaram os produtos agregados baseados nas obras de Howard, nos anos 1970, os personagens estão divididos entre duas empresas de licenciamento. Uma, a Red Sonja LLC, detinha apenas a Sonja (com j), e outra, a Paradox, ficou com tudo o que era baseado no espólio literário de Howard, incluindo Conan, a russa Sonya, Krull, o soberano da Lemúria e os tantos contos escritos por ele com heróis históricos, como já mencionados. Na época do filme estrelado por Brigitte Nielsen, as duas empresas não se acertaram no tocante à participação de Conan. Como o filme vinha na esteira de Conan, o Bárbaro, sucesso de público e grande adaptação de quadrinhos, o estúdio achou por bem manter o já contratado Schwarza na obra, criar um personagem genérico picareta e levar a malandragem até para o cartaz de divulgação, que vocês vêem abaixo, que trazia o Conan genérico maior do que a imagem da heroína do filme, na esperança de ludibriar os incautos achando que veriam o encontro entre Sonja e Conan (numa época sem internet e com menos informação se disseminando, talvez até tenha dado certo com alguns).

Isso é um cartaz de filme ou propaganda de roll-on?

Isso é um cartaz de filme ou propaganda de roll-on?

Recentemente, a Paradox, começou a divulgar alguns produtos baseados na “Red Sonya” original de Howard, e a primeira empresa, a Red Sonja LLC, processou a concorrente por violação de direitos autorais (só eu achei isso surreal?) dizendo que a Paradox estava tentando lucrar com uma confusão entre as personagens. No início deste ano a justiça americana proferiu uma decisão resolvendo (??!) a questão: o conto ficou com a licenciadora original e a que detinha o personagem Sonja ganhou o direito de explorar também o personagem SONYA (não me perguntem como eles vão lidar com o fato de que o conto é de uma empresa e a personagem é de outra).

Ah, uma última curiosidade. Além de Brigitte Nielsen e da agora possível nova Sonja Rose MacGowan, a ruiva teve uma outra encarnação em uma série de TV do Conan, tosquíssima, produzida nos anos 1990 nos moldes de Hércules ou Xena. Quem viveu a guerreira, numa história na qual ela era enviada para resgatar um jovem feiticeiro, foi a modelocantoraeatriz Angélica Bridges, que, pelo que nos conta seu perfil no IMDB, depois disso só acumulou papéis minúsculos em séries de TV, normalmente como alguma garota advinda do Leste Europeu.

Sente só a qualidade da produção:

Curta de faculdade? Antes fosse.

Curta de faculdade? Antes fosse.

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Uma resposta

  1. Bah! Aproveita e fala agora do Krull, o rei da Sessão da Tarde! =D

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