FRANKamente…

Talvez por uma necessidade de legitimar seus gostos para não parecerem debilóides, Leitores de quadrinhos costumam enxergar a evolução do gênero de forma histórica, e isso explica por que quando se fala nos pontos altos do gênero e de como questões sérias passaram a ser tratadas de modo adulto em quadrinhos de super-heróis são sempre mencionados em bloco três momentos, como se fossem uma Santíssima Trindade dos quadrinhos:

1 – Watchmen, de Alan Moore
2 – Sandman, de Neil Gaiman
3 – O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller

De tanto ouvirmos elogios conjuntos a essas três obras como marcos que mostraram até onde os quadrinhos podem ir, acabamos por pensar nos três autores em bloco, como uma espécie de Santíssima Trindade dos quadrinhos, esquecendo que, como humanos que são, eles têm lá suas individualidades e mesmo suas diferenças.

Pra começo de conversa, Miller, apesar de grande artista gráfico, não tem o refinamento narrativo dos dois primeiros, e Sin City, considerada pelo próprio Miller a sua a obra prima, é a prova disso. Altos contrastes de acachapante efeito visual não escondem o quanto a maioria das tramas de Sin City parece imbecil, coisa para adolescente retardado, uma clicheria danada sem nada que a renove (e eu estou sendo gente boa com o Miller em não trazer Cavaleiro das Trevas 2 para a discussão). Na transposição literal das histórias para o cinema fica claro o que estou argumentando, uma vez que a narrativa do brutamontes Marv é a mais interessante e bem-urdida, e as outras duas são totalmente absurdas, com direito a quadrilha de prostitutas gostosas fodonas com meias arrastão e metrancas. Não me admira por exemplo que o coro de admiradores incondicionais de Frank Miller esteja tentando tirar coelho da cartola para justificar, por exemplo, a merda que é a série All-Star Batman, escrita por ele e com traço assinado por Jim Lee. Na prática, Miller está recontando (de novo) a história do Batman sem compromisso com a cronologia oficial, num projeto especial da DC: uma série fechada escrita por um grande craque e desenhado por outro com 12 edições cada em que cada autor é convidado a, sem as amarras da cronologia regular, apresentar sua visão pessoa do personagem. Óbvio que é uma resposta da DC ao sucesso da linha Ultimate da Marvel. Grant Morrisson tem escrito a do Super-Homem, e Miller aceitou voltar ao Batman produzindo uma série em quadrinhos que é matéria fecal pura.

O fato é que as viúvas de Miller não aceitam isso e preferem uma teoria conspiratória qualquer a ter de aceitar que o tio provavelmente entrou em uma decadência irreversível (aconteceu com Chris Claremont, por que não com Miller?). O resenhista da série para o site Universo HQ vai na onda de uma comentarista de um site estrangeiro que defende que a ruindade suprema da história é uma resposta genial de Miller à indústria dos quadrinhos, com um Batman parrudo, ultraviolento, desenhado pelo mais popular artista junto aos fãs e com mulheres boazudas lutando em poses eróticas impossíveis. Ao fazer uma história de tal ruindade com tantos elementos ruins, Miller estaria simplesmente satirizando o gosto do público médio, corrompido por uma década de Era Image.

A certo momento, o resenhista brasileiro parece lamentar como um emo tristinho: “O que não dá para aceitar é que Miller não sabia que estava fazendo um trabalho que, à primeira vista, é o ponto mais baixo de sua carreira. Também é difícil que, inconscientemente, à toa, sua ruindade seja tão parecida com as idiossincrasias que contaminam o mercado norte-americano”.
Não dá por quê, cara-pálida?

Um pouco antes, ele apresenta a justificativa para estar tomando como fato a teoria conspiratória da resenhista americana:

O que torna a ruindade de Grandes astros – Batman & Robin especial é sua paternidade. Por mais que Frank Miller às vezes erre, ele não costuma cometer estragos dessa magnitude. Não se trata sequer de uma obra com verve para a polêmica, como seu Cavaleiro das Trevas 2. A série é ruim em todo e qualquer aspecto que se possa imaginar.
E, por isso, é uma HQ perturbadora e intrigante, que merece reflexão e discussão.

Não merece não, meu filho. Bosta fede igual saída de qualquer rabo, lamento.

Outra questão que muitas vezes passa despercebida quando se idolatra criticamente a santíssima trindade são as próprias relações entre ambos. Embora Moore e Gaiman sejam amigos e interlocutores, isso não vale para Miller, que não tem a mesma origem e formação que ambos. Enquanto Moore, um sujeito erudito como poucos, escreve artigos contra a participação inglesa na invasão iraquiana, Miller, cuja grande erudição não parece ir além das páginas de literatura hard-boiled de segunda, manda o Batman para o Oriente Médio para enfrentar a Al Qaeda.

Ou, como disse Moore, outro que não paga imposto para ter opiniões sobre tudo, ao explicar pela milésima vez por que não está nem aí para a adaptação de Wachmen, numa notícia publicada pelo Omelete que remete a uma reportagem da Entertainment Weekly:

Moore revelou ainda mais um problema que tem com a adaptação: o diretor Zack Snyder. “Ele pode até ser um cara legal, mas o negócio é que ele é a pessoa que fez 300. Não vi os últimos filmes de quadrinhos, mas particularmente não gostei da HQ 300. Tenho vários pontos a criticar, e tudo que ouvi ou vi sobre o filme parece ter incrementado as críticas, ao invés de reduzi-las: que é algo racista, que é homofóbico e, acima de tudo, totalmente idiota”, esbraveja o autor.

Trindade? Pois sim. Que eu saiba, Deus só fala mal de Cristo em animação do Allan Sieber.

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3 Respostas

  1. Ronin também foi um pé no saco, e isso que nessa época o cara tava no apogeu.

  2. “Bosta fede igual saída de qualquer rabo, lamento”. Deus salve o Alerta Geral! 😀

  3. Não sei se aplica exatamente no caso, mas tem um dito gaudério que diz que “cavalo de raça ou bagual, a bosta é igual.”

    🙂

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