Covardia de Crescer

ou: O Problema do Realismo – 2

 

Quadrinhos de super-heróis costumam ser associados a produto de consumo direcionado a adolescentes, a crianças ou a adultos imaturos estacionados entre uma faase e outra. Pelo que tenho lido do que vem sendo publicado nos Estados Unidos, a Marvel está se empenhando galhardamente em provar que essa impressão está correta. Melhor, talvez seja mais apropriado reformular essa frase: de tempos em tempos, as editoras americanas responsáveis pela hegemonia no gênero se alternam como responsáveis por decisões editoriais estapafúrdias que parecem querer provar que essa opinião é  verdadeira. Nessa ciranda, a bola da vez é a Marvel.

Explico. Por paradoxal que pareça, um dos grandes problemas da Marvel sempre foi aquilo que a fez se elevar a uma posição tão peculiar em seu surgimento: o suposto “realismo” de suas tramas, um realismo que torna as histórias interdependentes entre si e eleva a cronologia ao primeiro plano da composição de uma história.

O realismo é um gênero de representação, ou imitação (mimesis), da realidade por meio de certas técnicas formais de ficção. É associado principalmente a um determinado número de obras literárias produzidas na Europa num determinado período de tempo entre o século 18 e o século 19. Para alguns, foi, durante algum tempo, a forma por excelência do romance, um tipo de literatura produzida pela burguesia e que, como diria o crítico italiano Franco Moretti, foi o gênero intermediário da classe intermediária: nem os tons elevados da tragédia e do épico, associados à nobreza e à classe dominante, nem os temas vulgares da comédia, a imitação do que há de grotesco no populacho.

Realismo, basicamente, é um estilo no qual a representação ficcional busca um contato direto com a realidade e subordina as leis do romance às leis, físicas e sociais, do chamado mundo “real” extra-ficcional. Transpondo essa noção para os quadrinhos, foi exatamente essa a grande novidade apresentada pela Marvel quando Stan Lee criou as bases do universo de heróis da editora _ e que se tornou uma norma a ser seguida com o tempo até mesmo pela sua concorrência, a DC. Alguns dirão que o realismo é o de menos numa editora na qual um magrelo gruda em paredes por conta de uma picada de aranha e em que um outro magrelo vira um brucutu verde em vez de ser vaporizado por uma explosão nuclear.

Mas isso é cosmético. No fim das contas, o grande elemento “realista” da Marvel é sua cronologia, a noção de que algo acontecido em uma história anterior vai ter ressonâncias e conseqüências na vida do personagem lá adiante. Exatamente como muitas vezes acontece no mundo “real”. O Edifício Baxter é mandado para o espaço pelo Aniquilador e explodido em pedaços? Bom, então o Quarteto Fantástico vai ficar sem casa pelos próximos números. O Homem-Aranha perde o emprego? Vai ter de procurar outro e enfrentar dificuldades para pagar o aluguel. O Hulk destruiu uma cidade em uma transformação? Será caçado pelos próximos números por isso, e em outras circunstâncias isso será novamente mencionado. Realismo e cronologia, algo com que a DC nunca se preocupou muito até os anos 1970. Era mais comum que escritores criassem pequenas narrativas de ficção científica para o Super-Homem com base num elenco fixo de parâmetros abertos a interpretação. Mesmo seus poderes variavam muito de história para outra devido a essa natureza mais desconexa das histórias.

A Marvel não, a Marvel já se estabeleceu, por causa da própria direção dada por Stan Lee e Jack Kirby para seus heróis, como dependente da cronologia e tocando em temas mais “momentosos” e atuais do mundo chamado “real”: Guerra Fria em Homem de Ferro, corrida espacial e outra vez Guerra Fria em Quarteto Fantástico, minorias e mutação genética em X-Men, ecologia e questionamentos existenciais sessentistas em Surfista Prateado, direitos civis e lutas pela afirmação racial em Pantera Negra e assim por diante. A Marvel tinha histórias mais ligadas ao que de fato acontecia no mundo, e por isso se conectou melhor por muito tempo com uma geração que não tinha mais paciência para contos de fadas.

Tanto realismo não parecia combinar com a DC, e um indício disso é que nos psicodélicos anos 60 o Homem-Aranha via seu colega de quarto se afundar em drogas enquanto o Batman, um dos poucos personagens da DC que parecem funcionar em um registro realista, virava um barrigudinho de cinza na TV socando com onomatopéias vilões histéricos e coloridos. Mas esse realismo é também uma armadilha. O que era uma virtude enquanto Stan Lee escrevia praticamente sozinho números e mais números de todo um universo de heróis logo tornou-se um grande problema quando os escritores que assumiram depois tiveram idéias mirabolantes que DEVEM ser levadas em conta em histórias posteriores, ou ao menos consertadas. A Marvel até hoje lida com o problema de que os 40 anos de histórias do Homem-Aranha, por exemplo, foram vividos pelo personagem em um intervalo de tempo inferior a 10 anos. O que produz esquizofrenias interessantes: um Peter Parker nos anos 2000, por exemplo, ao evocar um flashback de sua namorada morta Gwen Stacy, vê uma elegante menina típica dos anos 1960, com minissaia, bota e faixa no cabelo.

E aí chegamos finalmente ao ponto que iniciou este artigo. A Marvel lida com o realismo em suas histórias, e tanto em literatura quanto em quadrinhos, realismo significa que o mundo e suas pressões vão AGIR sobre o personagem, provocando, em algum momento, uma transformação, uma síntese que se encaminha ora para a corrupção ora para a maturidade. Os personagens, no momento em que envelhecem, devem, numa ficção bem realizada, sintetizar essa passagem do tempo em sua psique, em sua personalidade – também é uma das coisas que se fez com muita propriedade no romance realista. Mas nos quadrinhos isso não acontece, talvez por não se ter muito bem estabelecido QUANTO tempo se passou desde a origem de um personagem até os dias que ele vive atualmente (a famigerada “saga do Clone” do Homem-Aranha, publicada de 1994 a 1996, tomava como ponto de partida uma história anterior na qual o vilão Chacal criava um clone do Aranha que lutava contra o herói. A história original foi publicada no nº 149 do Aranha americano, em 1976. E o intervalo de vinte anos entre as duas pontas da saga era descrito, nos quadrinhos como CINCO anos. Sim, 20 anos em cinco. Nem Juscelino teria pensado nessa).

Os heróis da Marvel encenam uma maturidade superficial, mas as próprias histórias mostram que os quadrinhos não lidam com a realidade de modo adulto.

Não foi à toa que falei tanto no Homem-Aranha nas últimas linhas. Ele é o pretexto deste artigo.

Há duas décadas, decidiu-se que o Homem-Aranha teria sua identidade secreta conhecida pela supergata Mary Jane Watson. Depois ainda, decidiu-se que o Peter Parker CASARIA com Mary Jane (a mulher é ruiva, é uma top model, atriz de cinema e não se importa que você, que supostamente deveria ser o grande cientista do casal, use uma roupa vermelha e azul e ainda diga estar fantasiado de Aranha. Você não casaria?). Foi uma concessão superficial ao mundo adulto nas páginas da Marvel. Pessoas se casam. Mesmo conquistadores de vida problemática como Peter. Um sujeito que vive tentando esconder sua vida dupla do mundo teria, no fim das contas, a maior predisposição em casar com a garota legal que já sabe seu segredo, facilitaria uma relação baseada na honestidade.

Mas casamentos são, como vários outros tipos de associação voluntária da vida cotidiana moderna, pontuados por tédio e monotonia de tempos em tempos. Crises, brigas, até mesmo separações temporárias, e todas as vezes que elementos como esses davam as caras nos quadrinhos nos últimos 10 anos, a rejeição do público era devastadora. Isso, e o fato de que a vida de um solteiro parece um manancial de histórias melhores, na opinião do editor-chefe da Marvel, Joe Quesada, provocou uma pressão renitente nos últimos anos para que os roteiristas se livrassem de Mary Jane de uma vez para que novos interesses amorosos viessem a ser agregados nas tramas. Ok, é uma idéia imbecil, do meu ponto de vista, mas ainda assim, respeito. O que acontece para que acabe um casamento num mundo real “adulto” contemporâneo entre duas pessoas jovens e que não dependem financeiramente uma da outra?

* Um dos dois pula a cerca e o casamento acaba muito mal
Alternativa complexa demais para o público dos quadrinhos. Peter ainda é aquele sujeito com moral e ombridade forjadas pelo Tio Ben, e mesmo que eu, como ficcionista amador, considere promissora a personalidade de um sujeito dividido entre um dilema ético amoroso e a tentativa de defender a ética e a Justiça como herói, talvez não pegasse bem. Assim como a moral sexual vigente não aceitaria bem se Peter fosse o corneado — ainda mais porque o escritor de Homem Aranha, J. Michael Straczinsky, JÁ publicou uma história na qual era revelado que Gwen havia corneado o Aranha com NORMAN OSBORN e tido gêmeos durante um período que passou na Europa, separada do herói (é sério). Herói azarado sim. Mas corno duas vezes, é demais.

* Cada um vai para um lado e a relação desgastada faz com que se detestem
Perigoso, dado que Mary Jane SABE a identidade de Peter. Seria um problema narrativo constante, embora não necessariamente seja ruim, pensando bem. Uma ex-namorada fiadaputa que entregou a identidade do Demolidor foi o estopim de uma das melhores histórias do personagem, A Queda de Murdoch.

* Cada um vai para um lado e a separação sem traumas faz com que fiquem amigos
Não vejo problema nenhum nessa alternativa. Peter é um sujeito altruísta. Mary Jane, uma garota legal. Por que não poderia ser assim? Ele teria nela uma amiga em quem ainda poderia confiar e sua identidade estaria a salvo. Havia até o clima propício para isso. Foragido devido às conseqüências da Guerra Civil, Peter estava arrastando Mary Jane e a Tia May como fugitivas de motel barato em motel barato. Barra pesadíssima e que providenciaria um pretexto dramático e verossímil para o fim da relação. Mary Jane não segurou a onda. Só. Mas depois de algum tempo, feridas curadas, ambos poderiam continuar amigos. Acontece todos os dias com milhares de pessoas. Por que não com o Aranha?

Não sei, mas a justificativa escolhida para o fim do casamento de Peter com Mary Jane não foi nenhuma dessas, não foi “realista”, não foi “adulta”, não foi nem conseqüente ou condizente com a cronologia. Na saga conhecida como One More Day, roteirizada por Straczinsky (e alterada por Quesada, de acordo com acusações do primeiro), Tia May tomou um tiro e ficou à beira da morte (pela milésima vez). No momento de maior desespero do Aranha, apareceu Mefisto, o diabo oficial da editora, e ofereceu um pacto ao casal Parker: ele curaria a Tia May, mas o custo da vida da velhinha seria o fim do amor de ambos. Ambos aceitam a proposta (estranho que muito provavelmente May, se tivesse voto nessa decisão, diria que eles estavam fazendo uma burrice) e um belo dia Parker acorda solteiro, morando na casa da Tia May, ainda amigo do ressuscitado Harry Osborn. Detalhe: durante a Guerra Civil, o Homem Aranha revelou sua identidade em cadeia nacional de televisão. E, embora as pessoas ainda lembrem disso, NINGUÉM MAIS LEMBRA quem era o homem por trás da máscara.

Pegou-se, portanto, um vilão que volta e meia tomava uma surra do Quarteto Fantástico e do Doutor Estranho e transformou-se o cara em alguém que com um estalar de dedos pode ressuscitar mortos e reformular a realidade, apagando pedaços inteiros da história. E tudo porque não se queria mais o Aranha casado. O mesmo velho cinema antigo de sempre: faça qualquer merda na condução de uma história, depois tire da cartola uma solução ex-machina furada, de preferência mágica ou pseudo-científica, reverta a bobagem e não toque mais no assunto rezando para que as pessoas esqueçam. Foi assim com a morte do Arqueiro Verde. Com a morte do Superman. Com o Batman aleijado por Bane nos anos 1990. Com Bruce Banner, que teve esclerose lateral amiotrófica (a mesma doença do Stephen Hawkings) e choramingou pelo seu destino durante um ano de histórias e depois foi simplesmente curado. Apele para o passe de mágica, a fantasia, o reiniciar do jogo de videogame que faz a cabeça de metade da moçadinha retardada de hoje.

O melhor de tudo foi ler a justificativa oferecida por Quesada em entrevista a um site americano:
Se o Aranha envelhecer e morrer com nossos leitores, é isso _ ele estará acabado, nunca será o ídolo de futuros fãs. Se mantivermos o Aranha rejuvenescido e interessante para os fãs no horizonte, conseguimos não só isso, mas também o mantemos legal para quem acompanha suas aventuras há anos. Todo mundo vai ficar feliz com a decisão? Não, é claro que não — mas é como uma corrida de cavalos. No fim das contas, meu trabalho é manter estes personagens frescos e prontos para todo fã que aparecer“.

Ou seja: você chefia editorialmente uma casa que se vende como produtora de histórias realistas e conectadas ao mundo real de uma forma que sua concorrente não consegue. Mas qualquer problema, saque uma solução mística-picareta da cartola e nivele o QI de seus leitores por baixo.

Dado que os quadrinhos de super-heróis continuam vendendo bem, e portanto parecem realmente uma mídia para debilóides estacionados em algum lugar entre a infância e a adolescência, quem pode dizer que ele está errado?

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3 Respostas

  1. Eu sempre reclamei das soluções mágicas…

  2. A tia May deve ter sangue McLeod correndo nas veias. Ou veio do planeta Zeist.

  3. […] que não me impede de achar que não é por isso que o leitor de quadrinho tenha que ser tratado como um debilóide (embora alguns mereçam) que não vai questionar alguns absurdos e disparates que volta e meia se […]

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