Procurado e desencontrado

 Há alguns anos, creio que foi lá por 2005, começou a ser publicada aqui no Brasil a série Procurado, trabalho roteirizado pelo escocês porralouca Mark Millar e desenhado pelo artista J.G. Jones, um cara sobre o qual eu até hoje não formei opinião. Ele foi bem nessa nérie, apesar de alguns problemas flagrantes de narrativa visual, de encadeamento mesmo da história em cenas. E ele também desenhou a meia-boca Hykethea, história da Mulher Maravilha que tinha uma boa premissa, uma boa idéia, um entendimento basilar até passável das instituições da Grécia Antiga mas que falhava completamente enquanto narrativa, tanto por culpa do roteiristas quanto por resposabilidade do artista.

Mas eu falava de Procurado. Narrada em três capítulos, a série era focada em Wesley Gibson, um loser preso num trabalho medíocre com uma namorada que o corneava com o melhor amigo. No primeiro capítulo, Gibson, ao estilo Matrix, referência clara do projeto, era procurado por uma vilã altamente gata chamada Raposa, que lhe revelava que ele era na verdade o filho de um dos dos maiores supervilões do mundo, recentemente falecido. E que, portanto, agora ele estava apto a fortuna e o lugar do pai, em um mundo no qual os super-heróis foram aniquilados há muito tempo e os vilões, sem oposição, operam nas sombras, organizados em “cinco famílias” como as dos grandes filmes de máfia. Gibson é submetido a  um treinamento intensivo e logo descobre que as habilidades de seu pai também são as dele: o superpoder de acertar qualquer alvo (ah, tá). Associa-se ao Professor, antigo aliado de seu pai, conhece os vilões bizarros que comandam o mundo (muitos deles sátiras de personagens existentes de verdade, como um sujeito que fabrica brinquedos de verdade, por exemplo, um chefão que tem uma caveira no lugar do rosto, à maneira do Caveira Vermelha e do Máscara Negra, vilão recente do Batman). Gibson logo descobre que, assim como em qualquer filme de máfia, as “famílias” não têm uma opinião unânime sobre como devem agir. Há dois “capos” que pretendem dominar o mundo à antiga, escravizando a humanidade sem precisar se esconder em fachadas discretas de crime organizado, enquanto outras facções, como a do Professor, acham que é melhor continuar com a operação nos moldes em que está, e que garante lucro certo sem incomodação. E, também como em qualquer filme de máfia, essa divergência vai ser resolvida em um sangrento acerto de contas no meio do qual Gibson e sua treinadora/amante Raposa serão colhidos.

Acompanhei a série, em três capítulos, e depois emprestei meus exemplares para os amigos Tcheloco e Semprealerta, também autores deste blog, e recebi de cada um deles uma avaliação radicalmente oposta. O Tcheloco me disse que era uma das coisas mais interessantes e engraçadas que ele havia lido nos últimos tempos, e o Semprealerta me mandou um sucinto e-mail no qual avaliava com brevidade: “esse Mark Millar só pode ser gay”. Quanto a mim, eu não tinha exatamente uma opinião consolidada. Achava que era uma história boa, com ação, com um olhar original, com um humor cruel e um olhar de pastiche e sátira sobre alguns personagens clássicos do universo dos quadrinhos, DC principalmente. Mas havia sérios problemas que eram, em sua maioria, advindos justamente daquilo que transforma uma história qualquer em uma história de Millar: violência, alusões sexuais, obsessão por orifícios do corpo humano e pelo que sai deles. Havia momentos em que era claro que a originalidade da trama e do universo apresentado por Millar na série entrava em conflito – e perdia – com a propensão do escritor a fazer uma piada sacana pelo simples prazer de colocá-la no gibi, como a existência de um vilão chamado Merdão, um ser de merda meio parecido com o Cara-de-barro, composto de fragmentos das fezes de alguns os seres humanos mais perversos do planeta, como Hitler e Stalin, por exemplo (senhor…).

Pois bem, Procurado vai virar filme pelas mãos dos estúdios Universal. Com o escocês do filme Desejo e Reparação, James McAvoy, como Wesley, e Morgan Freeman como Sloan, um personagem criado para o filme e que cumpre a função de “velho sábio”, papel que Freeman vem repetindo de maneira contumaz há pelo menos 10 anos. Será dirigido pelo russo Timor Bekmambetov, autor de Guardiões da Noite, pelo que me falam uma espécie de Underworld nos Urais. Só que, e aí entramos no terreno do bizarro, a produção, por algum motivo que nem Millar sabe explicar, resolveu fazer o filme sem referências ao fato de que os super heróis foram derrotados e que essa organização secreta para  qual Gibson é convocado é um grupo de supervilões. Isso mesmo, num filme cuja premissa é “otário comum descobre que tem o poder de um supervilão”, não vai ter supervilão nenhum. É algo tão surreal que me lembra, de cara, um conto do Neil Gaiman incluído na coletânea Fumaça e Espelhos e chamado O lago dos peixes dourados e outras histórias. Um escritor lança um romance de sucesso sobre uma força demoníaca que possui, 25 anos depois, os filhos que Charles Manson teve com as mulheres de sua comunidade. O romance é comprado pelos executivos de um estúdio de cinema e o escritor viaja a Los Angeles para trabalhar no roteiro, mas a cada nova reunião (sempre com pessoas diferentes, o filme vai perdendo os elementos principais do romance, até terminar em sem Manson e que não tem nada a ver com a história original. É bem o caso aqui. No filme que vai levar o nome de Procurado no cinema, não há mais vilões, superpoderes, uniformes, paródias cínicas de personagens de quadrinhos. É um filme de ação no qual as “famílias de suprecriminosos” foram substituídas por uma misteriosa “liga de assassinos”. E pelo treiler que já foi divulgado, fica claro que a inspiração inicial de Matrix no gibi foi levada ao pé da letra e virou cópia deslavada no filme.

Uma produção que não tem nada a oferecer, portanto? Bom, até por ali… A Raposa, que no gibi era claramente inspirada em Hale Berry, no filme da Universal vai ser vivida por…Angelina Jolie, que vocês vêem em uma das fotos oficias do filme, logo abaixo.

Mas não se animem muito. Além de ser pouco para valer o investimento numa bomba dessas, pela classificação indicativa já confirmada para o filme, não esperem ver muita coisa do material original, o que inclui Angelina em trajes sumários.

Lamentável…

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