Mr. Jones


Fica quieto, meu filho, se não o vovô não consegue te acertar…

Filmes de ação têm, sempre, de lidar com um paradoxo inevitável. Como toda obra narrativa que é contada pelo ponto de vista de um protagonista ou de um grupo deles, nosso elo com as tribulações do personagem é seu olhar, que nos “mostra” a ação, ou que “vive conosco” a trama que acompanhamos. É a questão da “empatia” ou “identificação”, velha conhecida de qualquer um que tenha dedicado certo tempo de reflexão à estrutura de uma obra, seja literária ou cinematográfica. No cinema, que é uma arte visual, isso é ainda mais flagrante, dado que o espectador na maioria dos filmes tem uma visão “em terceira pessoa” da narrativa: ou seja, ele vê o protagonista de fora, por mais próximo que esteja dele (algumas grandes obras tornam centro de sua narrativa essa questão de “onde” o observador do filme está para ver o que está vendo, com excelentes resultados, como a “câmera distante” de Lanternas Chinesas, de Zhang Yimou, ou o enquadramento de Caché, em que às vezes o espectador não sabe se está vendo um dos vídeos anônimos enviados ao protagonista ou o filme propriamente dito). Com exceção de algumas experiências muito estranhas de câmera subjetiva, quem vê um filme o faz como quem lê a história de um “ele”. E por isso, é essencial que o protagonista seja do tipo capaz de despertar nosso interesse.

Em palavras mais simples: ao ver um filme, estou acompanhando alguém”, e portanto o sucesso vai depender do quanto eu me importo com o destino daquele alguém. Se tanto se me dá se o protagonista vive ou morre, a obra passa em branco, eu não sou tocado pelas transformações e evoluções desse personagem e a experiência cinematográfica é inútil. E aqui reside o nó que eu apontei lá no início, o paradoxo do cinema de ação. Como em tudo na vida, a gente se importa com quem a gente conhece. E para conhecer um personagem em um filme, é como também na vida, temos de ser apresentado e conviver com ele um tempo. Só que em cinema o “tempo” é, na melhor das hipóteses, duas horas. Portanto, cada segundo conta para que conheçamos o personagem. Precisamos saber como ele pensa, ver o que ele faz, e, claro, precisamos de um certo tempo também para digerir isso tudo e formar uma idéia. Precisamos de tempo para pensar, em suma, e por isso a importância do que em cinema se chamam os “tempos mortos” da narrativa.

Mas quando se tem um filme “de ação”, o nome mesmo já diz, temos correrias, explosões, tiroteios, perseguições automobilísticas de um barroquismo barulhento (alguém ainda vai ter que me explicar onde está a graça disso). E ação constante significa pensamento zero, simplesmente reação, instinto, noção de perigo. E a gente só vai se importar com os perigos que o persoangem está correndo se realmente o tiver conhecido nos momentos anteriores. Logo, um filme de ação é o equilíbrio de uma tensão constante entre escolher o que fazer com cada minuto de filme: se usamos aquele tempo para apresentar um pouco mais do personagem ou para colocá-lo correndo, balançando em cipós ou caindo de cachoeiras. Situações de perigo vividas pelo protagonista devem nos fazer crer, ainda que minimamente, que há algum perigo real envolvido.

E aqui temos outra contradição fundamental: o protagonista de um filme de ação NÃO VAI morrer. Depois de milênios de narrativas épicas arquetípicas, simplesmente colocar o personagem principal afundando em areia movediça NÃO funciona, porque a gente sabe que ele vai sair dali. E quando a cena é tão manjada e clichê e seus coadjuvantes são tão sem graça, a gente não fica preocupado sequer em saber COMO ele vai sair dali. Logo, a solução – uma solução que os filmes anteriores de Indiana Jones sempre souberam aplicar, e espero que a essa altura você já tenha notado que eu estou falando do novo filme de Indiana Jones – é colocar em perigo as pessoas queridas do herói mais até do que ele. Sabemos que o herói sobrevive, isso é sempre um fato. O jogo é o que ele vai perder no caminho. Por isso no primeiro filme Marion é dada como morta na explosão de um caminhão, o maldito auxiliar japinha corre o risco de morrer nas mãos de um Indy dominado pelo culto macabro e o pai de Indy é gravemente ferido no terceiro… Sabemos que Indy sobreviverá, mas não quem sobreviverá com ele, e esse é o elemento fundamental que nos leva a torcer para que tudo acabe bem e garante esse tipo de identificação do qual falamos.

Era de se pensar, portanto, que Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal poderia lidar ainda melhor com esse tipo de paradoxo, dado que todos os que forem ver o filme já conhecem Indy e são seus fãs, o que garante ao menos esse sentimento de solidariedade para com o personagem _ pôrra, a primeira aparição do cara é a da sua silhueta e ainda assim é empolgante. Mas não, o filme aproveita essa credibilidade conquistada de antemão para diminuir o tempo de trabalho com a personalidade do personagem, já estabelecida, e se perder numa história absurda, com mais buracos do que os sete que se acham numa caveira e cenas modorrentas de correria inútil, como a insuportável carreira de jipes de guerra no meio da selva. Outro problema é que no meio do caminho o filme esquece de uma das poucas coisas que estava funcionando desde o início, que era justamente brincar com o envelhecimento do personagem e seu choque com o mundo atual e sua incapacidade para fazer coisas que antes fazia. E no meio da ação, o Indy é o Indy de sempre, e não dá, simplemente não dá para levar a sério uma cena em que um senhor de sessenta anos pula de um jipe para outro EM MOVIMENTO, no meio de QUATRO soldados russos, ou seja, com treinamento militar de combate, com o dobro do tamanho e metade da idade do protagonista e se livra DOS QUATRO. O Marlon Brando Júnior tem a idade certa para esse tipo de proeza, mas não o carisma. Indy tem o carisma, mas não a idade. E essas deficiências não se compensam. Na prática, o filme fica com o pior das duas situações: um ator canastrão demais para que a gente sequer se importe com ele e um protagonista que mobiliza nossa atenção mas não a usa de modo orgânico, e sim artificial, tolo, falhado. O elenco de coadjuvantes em nenhum momento parece nos mobilizar para que a gente se interesse pelo que vai acontecer com eles. E o velho Indy, que se mete em grandes confusões, nós já sabemos como vai acabar.

Indiana Jones e a Caveira de Cristal é um filme que se pretende leve mas é pesado. Tem coisas demais, se arrasta e não desliza. A perseguição na selva, a cena do teste atômico, o interrogatório do FBI, a chegada ao cemitério no qual uma dupla de guris-macacos ataca Indy e seu filho com espinhos e acrobacias, nada disso é relevante para a história e poderia ser tirado sem que a trama se alterasse, sinal de que havia gordura demais na narrativa. E o pior: temos o centro da trama no diabo de uma caveira translúcida que está a QUILÔMETROS de onde devia estar, e a explicação disso é que o professor mais velho ACHOU a caveira naquela caverna, chegou até a pirâmide, não conseguiu entrar e refez a viagem toda para deixar a caveira no mesmo lugar. Nem com muita suspensão da descrença dá para acreditar nisso.

Ah, sim. E uma coisa que eu nunca consegui deixar de pensar: um carro trancado por cinco meses não liga de novo. Mas mecanismos de pedra e areia de dois mil e quinhentos anos atrás só precisam de um empurraozinho para funcionar a pleno…

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2 Respostas

  1. E pensar que eles passaram anos burilando o roteiro…

  2. Pelo que se vê, os anos todos não foram gastos da maneira, hã, mais inteligente. Vou lá alugar o box da trilogia original e volto já. 😀

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