Colegas de Cana

O Espantalho aí embaixo falou de Danny Trejo, o frankenstein chicano que deve estrear em breve uma produção em longa-metragem expandindo o treiler da podreira nonsense Machete, idealizada para ser apenas mais um elemento do projeto Grindhouse e que parece ter tomado vida própria dado o carisma matador (em mais de um sentido) do gigante com cara de areia mijada.

Ex-boxeador na juventude, Trejo teve a carreira abortada pela delinqüência e por um longo período passado na cadeia. O que se por um lado f… com a carreira do mexicano errado, como dizem no treiler, também foi, por incrível que pareça, um passaporte para a reabilitação que veio resultar nesta atual fase produtiva da carreira do bonitão. Ainda tentando alguns bicos durante sua liberdade condicional em Los Angeles, Trejo conseguiu um trampo como extra nas filmagens de Expresso para o Inferno, de 1985 (Runaway Train), filme de Andrei Konchalovsky sobre um par de fugitivos da cadeia encalacrados em um trem que atravessa o Alasca sem freios e sem comando. O roteiro desse filme havia sido escrito por e baseado em uma idéia original de Edward Bunker, um escritor cujo primeiro livro, Nem os Mais Ferozes, publicado nos anos 1970, havia garantido celebridade literária a um homem de seus 40 anos que havia passado quase a metade desse tempo na cadeia.

Bunker havia estado em Folson – sim, a mesma aquela em que o Johnny Cash fez seu show lendário – na mesma época que Trejo, e o reconheceu nas filmagens. Conversaram e o romancista indicou o grandalhão para o diretor Konchalovsky – um dos fugitivos do filme, interpretado por Eric Roberts, deveria ser um boxeador, e Bunker comentou então aos produtores que Trejo havia sido campeão de boxe nos torneios internos da penitenciária, e assim poderia bancar o instrutor para o irmão mais loser de Julia Roberts. Impressionado com a presença exótica do sujeito, Konchalovsky deu a Trejo um papel no filme, iniciando uma carreira que, de acordo com o perfil do “hombre” no IMDb, já inclui participações, pontas e aparições em mais de 150 filmes nessas últimas duas décadas. Depois de A Balada do Pistoleiro, de 1994, Robert Rodriguez fez dele seu ator-fetiche, ou algo do gênero, e o sujeito já apareceu em praticamente todos os filmes do cineasta – com exceção de Sin City.

Bunker, o colega de cana de Trejo, foi também ele uma espécie de sensação marginal uma década antes e assim garantiu seu lugar no cinema. O livro Nem os Mais Ferozes tornou-se uma sensação ao ser lançado, em 1973, enquanto seu autor estava recém saindo do xadrez. “Adotado” pelo meio artístico por conta de suas tramas cruas, violentas, escritas numa prosa sem rodeios e narradas sempre com um olhar que ao mesmo tempo humaniza o bandido como o mostra em sua desmesurada dureza e crueldade, Bunker tornou-se requisitado roteirista de cinema, e seus livros ganharam a tela depois disso. Nem os Mais Ferozes, por exemplo, virou filme em 1978 (Straight Time, não sei o título em português), com Dustin Hofmann como o personagem Max Dembo, inevitavelmente calcado na própria figura de Bunker, e participações de Gary Busey e de Harry Dean Stanton. Sobre esse filme, que eu nunca vi embora tenha lido o livro, guardo entretanto a lembrança de que, quando o 8 & 1/2 bar era na esquina da Sarmento com a Lima e Silva, havia um pôster enorme desse filme na parede (não sei se ainda está lá na nova encarnação, na Aureliano de Figueiredo Pinto). Nem os Mais Ferozes saiu no Brasil faz um tempo, publicado pela editora Barracuda, que também lançou O Menino, Cão come Cão e Fábrica de Animais, todos do autor.

Dois detalhes conexos que são mais curiosos do que particularmente relevantes: Expresso para o Inferno termina com uma citação de Ricardo III, de Shakespeare: No beast so fierce but knows some touch of pity. But I know none, and therefore I am no beast, algo como Nem os mais ferozes animais desconhecem um toque de piedade. Mas eu não tenho nenhum, e eu não sou um animal.
A citação é a mesma de onde Bunker pinçou o nome de seu primeiro romance.

A segunda conexão nada a ver é  que o último livro de BUnker, Fábrica de Animais, foi transformado em filme em 2000, com Willem Defoe, Edward Furlong e… Danny Trejo, como o terceiro papel em importância na história.

Ah, sim, esqueci de comentar. Bunker, além de roteirista e de uma espécie de Jean Genet não-puto, também fez lá suas pontas como ator. A mais digna de nota – já que “memorável” acho exagero, uma vez que pouca gente lembra – é a participação em Cães de Aluguel, de Quentin Tarantino, como um dos assaltantes com codinomes de cores. Mais especificamente, Mister Blue, que vocês vêem no frame abaixo, ao lado de Steve Buscemi:

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3 Respostas

  1. Jean Genet não-puto… Ré, ré…

  2. O filme do Dustin Hoffman, Straigh Time, chamou-se Liberdade Condicional aqui no Brasil, e foi dirigido pelo Ulu Grosbard. Passava direto na Globo até meados dos anos 80, principalmente nas madrugadas, e pelo que lembro não era lá muito bom, não.

    Não tenho certeza, mas acho que o Bunker fez o script do Runaway Train em cima de um roteiro pré-existente do Akira Kurosawa, que por sua vez, havia sido escrito em cima de uma história original de autoria de dois outros japas cujo nome não lembro. O Tcheloco, que é fanático por esse filme, deve saber melhor.

    “No beast so fierce but knows some touch of pity.
    But I know none, and therefore am no beast.”

  3. A Barracuda lançou também “Educação de um Bandido”, que é a auto-biografia do Bunker. Do caralho.

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