Vinte anos esta noite (ou melhor, algumas atrás)

Travelling Wilburys

“Não falei que a gente tinha de ter comprado mais de um microfone?”

Quando a carreira de Bob estava chegando a seu ponto mais crítico, ele foi inesperadamente alçado às alturas por um grande sucesso, graças a seu amigo George Harrison. Quando o ex-Beatle precisou pegar emprestado um estúdio na área de Los Angeles para gravar uma canção extra para um single europeu de 12 polegadas para promover seu album Cloud Nine, ele pediu ajuda a Bob. Harrison e seu produtor, Jeff Lynne, anteriormente da Electric Light Orchestra, queriam usar o estúdio doméstico de Bob em Point Dume. Bob disse que fossem até lá. Lynne estava também produzindo um álbum de volta à ativa para Roy Orbison na época, então Orbison foi também, assim como Tom Petty. Bob não mandou tantas visitas famosas embora, mas reclamou de ter de alimentá-los.

Os cInco músicos ficaram tocando juntos e, inspirados em um rótulo em uma caixa atrás da porta da garagem de Bob, logo fizeram uma canção chamada “Handle with Care”. Ela tinha uma letra perspicaz sobre a meia idade, uma melodia forte. Eles cantaram juntos, mas a voz de Orbison se destacava. Harrison bolou um nome para o grupo de facto. Eram os Traveling Wilburys, e cada membro tinha um pseudônimo engraçado. Bob era Lucky Wilbury.

“Handle With Care” era boa demais para ser desperdiçada em um single promocional. Os Wilburys resolveram tomá-la como base para um álbum, e recrutaram Jim Keltner como “colaborador” da bateria. Traveling Wilburys Volume I foi gravado em abril e maio de 1988 em um período de dez dias na casa de Los Angeles de Dave Stewart, do Eurythmics. A maior parte foi gravada na cozinha, com Keltner usando cavilhas e frigideira para conseguir o som de bateria solta de “Rattled”. A maioria das canções era leve, embora o espírito brincalhão de Bob fosse particularmente evidente em “Dirty World”. A música foi engrandecida imensamente pela voz operística de Orbison, especialmente em “Not Alone Anymore”. O álbum foi um imenso sucesso comercial quando lançado no outono de 1988, tendo chegado ao 3º lugar nas listas de álbuns mais vendidos nos Estados Unidos, e vendeu mais do que qualquer álbum de Dylan daquela década. Seu sucesso fez um contraste marcante com seu recente álbum de estúdio, Down in the Groove, que se saiu ainda pior do que Knocked Out Loaded. Foi uma agradável mudança fazer parte de um projeto bem-sucedido, mas a popularidade do álbum dos Wilburys realçava também o relatico fracasso da carreira-solo de Bob, que continuava em sua tendência descendente.

O trecho acima saiu de Dylan: a biografia, do escritor inglês Howard Sounes (Conrad, 2002, 474 páginas), e conta, com o foco em Bob Dylan, claro, afinal o biografado é ele, a formação de um dos grupos mais exóticos e bem sucedidos da história da música pop. Na época, um crítico da Bizz (quando a Bizz não só existia como era referência para qualquer sujeito interessado em se informar sobre o rock e os sons internacionais) definiu muito bem a especificidade que fazia daquele um grupo tão único em uma frase mais ou menos assim: “Em uma época em que zés-ninguém posam de grandes músicos, este grupo vai na contramão, com grandes músicos se fingindo de artistas desconhecidos”. Infelizmente não me lembro o autor da crítica. O fato é que os Wilburys representaram, por incrível que parecesse, dado seu som absolutamente calcado em referências da antiga tradição – algo no que, de resto, Dylan bebe até hoje – um sopro de renovação em uma indústria musical tomada pela pose (não esquecer que vivia-se o auge das bandas roqueiras farofas).

E daí? Daí que, como este ano fecham duas décadas redondas dessa inusitada experiência, que gerou um segundo disco e talvez tivesse até gerado outros não fosse a morte de Orbison, a identidade vocal do projeto, está saindo no Brasil uma caixa da Warner contendo as 25 músicas compostas para os dois discos, mais um DVD com documentário e videoclipes. Lógico que o filme é a única novidade “de facto” como diz Sounes, e por isso, quem ainda tiver os primeiros dois discos dos Wilburys é provavelmente um felizardo que não vai precisar torrar R$ 125 no brinquedo.

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3 Respostas

  1. Os caras tinham simplesmente o melhor letrista e o melhor vocalista do mundo. E de lambuja, o guitarrista dos Beatles. Coisa pouca.

  2. Essa dica é pra quem quiser comprar a caixa, mas não está familiariado com os Wilburys. O nome do segundo disco é “volume 3”. Trata-se de uma pequena brincadeirinha dos tiozinhos. Não se assuste ao abrir a caixa e notar a falta do Volume 2. Você não foi tungado, ele não existe mesmo.
    E há também um single dos caras, que só foi lançado num LP beneficente, acho que os lucros revertiam para as crianças da Romênia, ou qualquer coisa assim. Chama-se Nobody’s Child e vale a pena conferir.

  3. Pode chamar de covardia também… 😀

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