De Victor Hugo a Christopher Nolan


Heath Ledger como Coringa em cartaz do filme divulgado no site Omelete

A história está contada em Batman & Me, autobiografia de Bob Kane, que vem a ser, como todos sabem, o criador do Batman. Enquanto bolavam um novo antagonista para o detetive fantasiado de morcego, Kane disse a seu parceiro Bill Finger que poderiam trabalhar com algum sucesso a idéia de um vilão inspirado na carta do Joker, no baralho, que aqui é chamado de Curinga – uma idéia que lhe teria sido apresentada primeiramente por Jerry Robinson, que sempre reivindicou crédito igual pela criação do personagem.

A carta, vocês vão lembrar, traz a figura de um palhaço, um curinga, um bufão, um truão, um bobo-da-corte – o que é bastante lógico se a gente parar para pensar. As cartas que conhecemos hoje surgiram na Idade Média, e os valores das mais altas representam de forma estilizada postos das cortes monárquicas: o 13 como rei, o 12 como a rainha, o 11 como valete e o Curinga sem valor definido. Isso porque os curingas, os bufões, os “jokers” (“brincalhão” ou “piadista”) em inglês eram funcionários da corte, com a tarefa de divertir os reis com poemas, músicas, pantomimas. E, o que é fundamental, com liberdade para criticar abertamente o rei apelando até mesmo para o ridículo (uma tradição que vinha das cortes cristãs romanas e bizantinas, influenciadas por um certo pensamento estóico que lembrava que a vida e suas glórias eram sempre transitórias, e que ter consciência disso era o antídoto para a ilusão do poder. Pela mesma lógica, sempre que um papa era eleito, desfilava perante a multidão acompanhado de um sujeito que tinha a incumbência de ficar repetindo atrás dele o tempo todo: “memento mori”, ou “lembras-te de que és mortal”). Logo, a carta “curinga” representava esse papel ambivalente de um funcionário do rei com procuração para falar ao soberano com os termos do povo, e portanto podia ser usada assumindo o valor necessário para fechar uma determinada combinação de cartas. Há algumas versões também segundo as quais o curinga é uma evolução nas cartas européias do “louco” do tarô.

Mas voltando a Bob Kane: quando o escritor apresentou a Bill Finger a idéia do Coringa (não me perguntem por quê, mas a grafia nos quadrinhos contraria a norma da língua e usa o “o”), em 1940, já com a concepção de um sombrio palhaço do crime, o desenhista foi até sua estante, recolheu um livro com fotografias de cinema e apresentou para Kane uma foto do filme de 1928 O Homem que Ri, protagonizado por um ator chamado Conrad Veidt em uma assustadora caracterização, como se pode ver no cartaz logo abaixo:

O filme era uma adaptação do romance de mesmo nome O Homem que Ri, mais uma incursão do monstro (metafórico) literário francês Victor Hugo pelo universo dos monstros (agora reais) físicos da sociedade, a exemplo do que já havia feito em Notre Dame de Paris, também chamado de O Corcunda de Notre Dame. A história de O Homem que Ri, para quem não leu, conta a trajetória de um menino inglês raptado por um grupo de traficantes de crianças especializados em produzir deformidades físicas para poder vender suas vítimas a circos de aberrações, na época muito comuns. É o caso do personagem principal do romance, Gwineplaine – que, mais tarde, com o avanço da trama, se tornará adulto, atração de um circo itinerante e então descobrirá que era o filho raptado de um nobre inglês com lugar na Câmara dos Lordes. Como explica o acadêmico Graham Robb no livro Victor Hugo: uma biografia (Record, 2000, 654 páginas):

L’Homme que Rit pretendia ser “um verdadeiro quadro da Inglaterra, pinçado por meio de personagens inventadas”, e portanto, segundo Hugo, não era um romance histórico no sentido tradicional. Atingia sua “verdade” pelo que parecia um caminho em círculos: a história de um menino chamado Gwineplaine, raptado na infância pelos “comprachicos” (“compradores de crianças” – uma tribo multinacional de nômades que praticava a arte da mutilação cosmética e vendia a circos os frutos de sua indústria macabra. A mutilação realizada em um Gwineplaine é uma gargalhada hedionda, fixa: “Qualquer que fosse a emoção por ele sentida, servia para intensificar e agravar aquela estranha expressão de alegria.”

O gênio de Hugo mostrou-se certeiro ao revestir de horror o gesto símbolo da alegria e da felicidade. E o visual de Veidt, ator alemão que já havia atuado em O Gabinete do Dr. Caligari e que mais tarde ficaria bastante conhecido como o major alemão vilanesco de Casablanca, provocou tal impacto na dupla Kane/Finger que fica claro nas primeiras edições em que o vilão aparece que o filme era referência visual explícita. Compare o rosto de Veidt no cartaz com os traços do desenho abaixo:

É interessante notar também que a idéia original de Victor Hugo, a da figura trágica que expressa qualquer emoção por meio de um sorriso congelado no rosto, norteou Tim Burton (um gótico assumido) na sua interpretação do Coringa no filme de 1989, com Jack Nicholson no papel do vilão. Diferentemente dos quadrinhos, em que o Coringa tem uma mobilidade de expressões faciais maior, no filme Nicholson, ao cair em um tanque de produtos químicos em uma fábrica de cartas de baralho, ficava com os nervos da face lesados e com um esgar perpétuo marcado no rosto.

Esse, ao que parece, será um tema revisitado por Christopher Nolan no novo filme do Batman, no qual o vilão é vivido por Heath Ledger (cartazes novos do filme foram divulgados com exclusividade no Brasil pelo site Omelete, e um deles você pode ver lá no início deste post). Mas com um toque a mais de crueldade que o torna bastante aparentado com o “homem que ri” original de Victor Hugo: pelo que se vê nas imagens até o momento, o Coringa tem um sorriso perpétuo no rosto em formato de feias cicatrizes de faca ou navalha que partem da comissura dos lábios.

A nova interpretação do Coringa já provocou um debate aqui na casa deste postador. Confesso que ver o treiler do filme com aquele Coringa insano, psicótico, aterrador me prometeu bastante. Já meu irmão Ismael, crescido numa época em que Batman na TV é a série do Bruce Timm, esperava um Coringa menos “silêncio dos inocentes” e mais palhaço mesmo. Como eu tentei demonstrar neste texto, contudo, a idéia de o Coringa ser uma força aterrorizante não é uma invenção, de Nolan, é sim uma volta às origens do personagem, ou a um conceito surgido antes mesmo de haver um curinga nos quadrinhos.

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