A era Michael Bendis

Doctor Evil, eu?

Para quem andou afastado do mundo dos gibis nos últimos anos, aviso que tem um sujeito escrevendo as histórias da Marvel e que teve um impacto tão grande no rumo dos heróis da casa editorial quanto o trabalho longevo de Stan Lee à frente dos dezenas de títulos que criou para a “Casa das Idéias”.

Ele se chama Brian Michael Bendis, é o sujeito na foto com cara de irmão-gêmeo do Agronopoulos (não vou explicar, be nerd you too) e começou a se fazer notar há alguns anos, com histórias para o Homem Aranha da linha Millenium, uma série na qual os heróis partiam do zero, sem toneladas de cronologia para encher o saco. Foi a primeira vez em anos que algo do gênero foi tentado com sucesso (apagando a lembrança de fiascos como Heróis Renascem – nada com Rob Liefeld no meio podia dar certo mesmo – e do interessante mas fracassado Novo Universo idealizado por Jim Shooter nos anos 1980). Essa proeza aumentou enormemente o cacife de Bendis, responsável pelo Aranha Millenium, e do escocês Mark Millar, sua contraparte nas primeiras histórias de X-Men Millenium e da versão Millenium dos Vingadores, os Supremos.

Certo, se este post tivesse uma certa preocupação com a precisão, eu deveria chamar este de um balanço da era Joe Quesada, que partiu de um desenhista com uma certa tendência para o estilizado no limite do grotesco (sorry os que gostam) a editor-chefe plenipotenciário. Foi Quesada que aglutinou à sua volta nomes como Millar, Bendis, J. Michael Straczinsky, outro grande responsável por mudanças recentes, e quem trouxe Ed Brubaker para trabalhar exclusivamente na casa, desfalcando o time da concorrente DC, onde Brubaker era um nome de destaque.

Mas foi Bendis o nome que se tornou símbolo da fase recente da Marvel, tanto pela qualidade do material que publicou pela editora (ele consegue dosar momentos de ação com longas páginas em que a narrativa se sustenta só nos diálogos de alta qualidade) quanto pela sua aparentemente infinita capacidede de trabalho. Bendis e Millar também são conhecidos por, assim como o também escocês Grant Morrison, revitalizar personagens da última trabalhando de um modo que você até pensa em levá-los a sério.

Vamos, por ora, elencar apenas as principais conseqüências da passagem de Bendis por títulos da Marvel, e analisar o que, provavelmente, ficará disso no futuro, até porque o que houve nos últimos “grandes eventos” da Marvel duas preocupações: usar a cronologia como elemento das histórias e limpar o terreno dessa mesma cronologia.

* Ele detonou os Vingadores.
Bendis escreveu o arco Vingadores: A queda, no qual, pela ordem: O segundo Homem-Formiga (é, tinha dois) morreu. O Gavião Arqueiro morreu, a Mansão dos Vingadores explodiu, o Visão explodiu em mil pedaços e a culpada de tudo era da Feiticeira Escarlate, que, usando seus nunca muito explicados poderes de alteração da realidade, havia alterado sutilmente a face do mundo para ter filhos com o Visão e, ao fim, confrontada com o que havia feito, entrou em um colapso nervoso e quase detonou o mundo.

* Ele detonou com os mutantes
Grant Morrison – que para alguns é Deus mas que em sua passagem pelos X-Men teve altos e baixos – havia pleiteado a idéia de que a evolução mutante estava cada vez mais acelerada e que em breve o Homo Sapiens enfrentaria o risco de extinção. Bendis freiou isso com a saga Dinastia M. A ainda amalucada Feiticeira Escarlate foi induzida por seu irmão Pietro a refazer a realidade com os mutantes no controle. Foi assim que surgiu a chamada “Dinastia M”, na qual a maior superpotência mundial havia se tornado Genosha, o que dava a Magneto a condição de monarca não oficial do mundo. Confrontada (de novo), ao fim da saga, com os seus atos, Wanda entrou em um novo colapso nervoso e aí sim detonou o mundo com uma frase emblemática (chega de mutantes): ela simplesmente reverteu à condição humana quatro quintos da população de mutantes do planeta (o que de certa forma ajudou bastante a despovoar a incomodamente craudeada ala mutante do universo Marvel)

* Ele detonou com o Demolidor
Ninguém achava que fosse possível fazer Matt Murdock passar por tantos apuros quanto os que Frank Miller já o havia colocado na clássica A queda de Murdock. Bendis conseguiu: ele fez com que a imprensa descobrisse a identidade secreta do Demolidor, ele fez Matt Murdock confrontar a necessidade de encarar a imprensa e mentir, ele fez os inimigos de Murdock voltarem-se contra ele e ele criou nessas histórias do Demolidor um novo conceito de droga viciante, o HCM, Hormônio de Crescimento Mutante, que dava ao usuário poderes temporários. E fez então Murdock ter um colapso, declarar guerra ao crime, derrotar o Rei e proclamar-se Rei ele próprio, para garantir que não seria de novo desafiado em seu programa de desmantelamento da máfia criminosa da cidade. E finalmente ele fez o Demolidor ser preso – momento a partir do qual a saga passou para as mãos de Ed Brubaker.

* Ele criou uma das personagens femininas mais legais dos últimos tempos
Bendis tinha planos para a Mulher-Aranha, de quem era grande fã (eu também era). Não lhe foi permitido começar uma série com a jovem, então Bendis simplesmente criou outra personagem, uma suposta heroína que havia deixado o combate a supervilões para se tornar detetive particular. Jessica Jones teve sucesso na série Alias (sem relação com a da TV) e se tornou uma personagem marcante dos quadrinhos. Bem trabalhada, ela permanecerá, com certeza.

* Ele remontou os Vingadores
Esta é provavelmente sua decisão que será mais criticada daqui a 10 ou 20 anos: os Vingadores com Homem de Ferro, Capitão América (daqui pra diante começa a bizarria), Mulher-Aranha, Luke Cage, Homem-Aranha e o onipresente Wolverine. Sério, tudo bem, a formação rendeu histórias interessantes, mas o Aranha não tem a ver com um grupo e o Wolverine não é o Homem-Múltiplo para estar em todas as formações de todos os supergrupos.

* Ele reabilitou os chinelões
Luke Cage tornou-se um personagem importante, primeiramente com destaque no elenco de apoio de Alias e do Demolidor e mais tarde ingressando nos novos Vingadores. O Coruja tornou-se um personagem de respeito nas histórias do Demolidor. O Homem-Púrpura, um sujeito ROXO com poderes de controle mental virou uma ameaça realmente considerável em Alias.

* Ele criou os “iluminatti”
Bendis teve a idéia de que, depois da invasão Skrull, anos atrás, formou-se um grupo “secreto” reunindo as maiores mentes do Universo Marvel, um grupo que se reunia para, nas sombras, trocar informações e planos para melhor interligar o trabalho dos heróis no mundo. Esse grupo é composto por Tony Stark, Reed Richards, Charles Xavier, Namor, Doutor Estranho e Raio Negro. A existência desse grupo tornou-se um elemento essencial na saga Guerra Civil e na que ainda está por chegar ao Brasil, Planeta Skrull, na qual se saberá que muitos heróis e personagens que conhecemos há anos são skrulls infiltrados depois da primeira invasão (medo…).


Bendis criou um todo orgânico para os gibis do Universo Marvel que não se via, como eu disse, desde os tempos de Stan Lee. Sua contribuição para normalizar as arestas deixadas pelo trabalho de centenas de criadores ao longo dos anos transformou o mundo Marvel em algo com um certo grau de coerência, usando conceitos que ainda balizam mesmo os títulos que ele já não escreve mais (como o Demolidor). Bendis tem um talento para reger grandes panoramas. E montou o Universo Marvel como um desses panoramas (tá certo que enquanto eu escrevo isto, a Marvel resolveu pisar no tomate justamente com o Homem Aranha, falaremos disso mais tarde). Acho que no futuro seu saldo será considerado positivo, dada a grande orquestração de que se mostrou capaz.

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Uma resposta

  1. O arco dele no Demolidor, é um dos melhores, senão o melhor da historia do personagem. Não deixa nada a desejar pro ‘monstro’ Frank Miller.
    Mto bom mesmo!

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