Minha vozinha querida…

Faz um tempo já, o Derli postou aqui no blogue um link para uma animação na internet em que o artista usava como inspiração a história original de Chapeuzinho Vermelho, antes de apropriada pela Disney e transformada nisso que vemos hoje – antes mesmo do próprio capuz vermelho. Na época o Derli mencionou que a primeira menção que havia lido a algo desse gênero, acreditava ele, teria sido no Sandman.
Pois eis que lendo o livro O Grande Massacre de Gatos e Outros Episódios da História Cultural Francesa, do historiador americano Robert Darnton, topo com uma versão transcrita da lenda original, ou ao menos de uma de suas versões registradas no século 18, na França, e que o próprio Darnton tira de Le Conte Populaire Français, compilação dos flocloristas Paul Delarue e Marie-Louise Tenéze. Com vocês, Chapeuzinho Vermelho, sem o chapeu e bem pouco “zinho”:

Certo dia, a mãe de uma menina mandou que ela levasse um pouco de pão e de leite para sua avó. Quando a menina ia caminhando pela floresta, um lobo aproximou-se e perguntou-lhe para onde se dirigia.
– Para a casa de vovó – ela respondeu.
– Por que caminho você vai, o dos alfinetes ou o das agulhas?
– O das agulhas.
Então o lobo seguiu pelo caminho dos alfinetes e chegou primeiro à casa. Matou a avó, despejou seu sangue numa garrafa e cortou sua carne em fatias, colocando tudo numa travessa. Depois, vestiu sua roupa de dormir e ficou deitado na cama, à espera.
Pam, Pam.
– Entre, querida.
– Olá vovó. Trouxe para a senhora um pouco de pão e de leite.
– Sirva-se também de alguma coisa, minha querida. Há carne e vinho na copa.
A menina comeu o que lhe era oferecido e, enquanto o fazia, um gatinho disse: “menina perdida! Comer a carne e beber o sangue de sua avó!”. Então, o lobo disse:
– Tire a roupa e deite-se na cama comigo.
– Onde ponho meu avental?
– Jogue no fogo. Você não vai precisar mais dele.
Para cada peça de roupa – corpete, saia, anágua e meias – a menina fazia a mesma pergunta. E, a cada vez, o lobo respondia: – Jogue no fogo. Você não vai precisar mais dela.Quando a menina se deitou na cama, disse:
– Ah, vovó! Como você é peluda!
– É para me manter mais aquecida, querida.
– Ah, vovó! que ombros largos você tem!
– É para carregar melhor a lenha, querida.
– Ah, vovó! Como são compridas as suas unhas!
– É para me coçar melhor, querida.
– Ah, vovó! Que dentes grandes você tem.
– É para comer você melhor, querida.
E então ele a devorou.

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