O Diabo-Metaaal!

Tipo da polêmica fabricada.

Um compositor ligado ao Vaticano, com chancela oficial de Bento XVI e que compôs oratórios para João Paulo II vai adaptar como ópera A Divina Comédia, obra máxima de Dante Alighieri e uma das representações literárias mais impressionantes em qualquer idioma. A ópera, prevista para estrear em novembro, em Roma, logicamente tem patrocínio do Conselho de Cultura do Vaticano, ou seja, é chapa-branca total.

O que está surpreendendo alguns a julgar pela matéria publicada na capa do Segundo Caderno do Estado de São Paulo, hoje, é que o tal compositor, Marco Frisina, também diretor musical do Grande Jubileu convocado pelo Papa em 2000, ao representar o Inferno vai usar como base sonora em sua ópera…. Heavy Metal.

Na matéria, o editor da Rock Brigade, Antônio Carlos Monteiro, e o cartunista Marcio Baraldi, tecem críticas violentas à escolha porque Frisina (que, pela foto no jornal, dá a impressão de ser ou debilóide ou fresco) disse que é a música que, de acordo com ele, mais resume os sentimentos de “dor e sofrimento”. O sujeito foi chamado de inculto, preconceituoso e retrógrado.

Minha humilde pergunta é: e daí?

Sempre houve uma ligação explícita entre muitas bandas de Heavy Metal e símbolos satânicos (que me desculpem meus colegas, o casal Stahlfarano e James Smith, mas tudo que o Heavy Metal tem de abrangente e sofisticado em termos de composição musical lhe falta em termos de leitura de signos, visuais, principalmente). Monstros, feiticeiras, demônios, bestas, tridentes, cruzes invertidas, signos místicos de civilizações anteriores ao Cristianismo sempre foram moeda corrente comuns em capas de disco, iconografia visual e roupas de qualquer integrante de banda de rock pesado (tirando a bizarra corrente “white metal”).

Cobras que devoram olhos, rios de sangue, túmulos ardentes, cães dilacerando corpos e jogando as vísceras ao vento, uma tempestade que açoita corpos nus jogados contra uma parede interminável. Parece cena saída de uma letra do Black Sabbath? Pois são todas descrições feitas por Dante das agruras dos condenados em O Inferno, referentes, respectivamente, ao oitavo nível (malebolge), ao quarto nível, ao segundo e ao terceiro. O próprio sinalzinho lml. Como se vê, quem promoveu a identificação visual e temática entre o Heavy Metal e o Inferno, Diabo, Satã e coisa que o valha foram os próprios músicos e fãs. Agora, apenas porque a identificação vem do outro lado, parte do pessoal se ofendeu. Parece piada de gay. Se tu for hetero, o que era humor vira preconceito.
Ao contrário, me parece que poucas vezes alguém de fora do círculo de cultores de Heavy Metal usou essa música com tanta propriedade.

Em tempo: a Igreja Católica ao longo desses últimos dois mil anos se apropriou de diversos signos que não eram seus e a eles atribuiu novas conotações condizentes com sua doutrina: o tridente de Posêidon, a palavra Daimon (usada simplesmente como um espírito interior e transformada com os anos numa categoria de ser maléfico), os pentagramas, os chifres (símbolo pagão de prosperidade e para sempre mais tarde alinhados com o maligno – ou pior, com a vítima da infidelidade). Logo, os próprios signos que o Metal Pesado usa não tem originalmente essa conotação macabra que os que se assustam com a música lhes atribuem. Mas lembremos que a intenção das bandas que usam esses símbolos não parece ser a de recuperar seu significado original, e sim se aproximar pelo uso de sinais proibidos de uma postura de transgressão.

Pronto. Falei.

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