Cruzada, cabeçada e gol


O André abriu o precedente com seu texto sobre tesouros de locadora. E eu, como sou o resmungão quase oficial do time, resolvi desencavar um texto antigo que havia escrito e que não foi publicado sobre Cruzada, o filme de Ridley Scott que estreou no ano passado e que, num primeiro momento, apresentava-se como a salvação do épico no cinema, depois de experiências decepcionantes como Alexandre, Tróia e Rei Arthur. Podem chamar esta minha contribuição, em contraposição aos tesouros do André, de “entulho de locadora”.

Cruzada é um filme de duas horas e meia, e, mesmo assim, com toda essa metragem, a sensação quando se termina o filme é de que uma substancial parte da história foi contada rápida demais. Toda a primeira parte, abordando a formação e a integração do jovem Balian vivido por Orlando Bloom ao universo dos cavaleiros cristãos, parece narrada aos saltos, com passagens de tempo pouco definidas ou mesmo absurdas. De uma hora para outra um ferreiro – que sabe ler, mesmo criado como artesão em plena Idade Média, um prodígio digno de uma explicação que não é dada – sem instrução militar formal está lutando espada como especialista, com uma única aula de menos de quinze minutos. E logo se revela um insuspeitado talento nato para a guerra e para a estratégia. O roteiro investe na absurda “voz do sangue” para justificar essa metamorfose, sempre lembrando que o sujeito é igual a um pai com quem ele não conviveu e que só conheceu na idade adulta (e naquela época idade adulta era qualquer um que tivesse sobrevivido até os 16).

Outro ponto é que, desde que se ressuscitou esse gênero, nenhum cineasta ou filme – mesmo o melhorzinho, o Gladiador, conseguiu resolver um grande problema logístico: em um épico com ênfase em batalhas de espada e cargas sangrentas de cavalaria, as personagens femininas tornam-se meras sombras a deslizar cosmeticamente pela produção: foi assim com Diane Kruger em Tróia, foi assim com Angelina Jolie no pior de todos, Alexandre, e foi assim com Eva Green nesse filme. Todas belíssimas, maravilhosas, mas todas acessórias, dispensáveis ao enredo, fazendo papéis idiotas como as mulheres que caminham sem rumo no palácio e se olham no espelho com intenções ocultas ou expressões tristes. Eva Green é belíssima, sim, mas sua personalidade forte esboçada de forma grosseira é mal explicada, fica-se sem saber direito o que diabos ela quer procurando o Balian (quer dizer, sabe-se, ela quer dar, mas o filme não tem nem a coragem de assumir isso, pura e simplesmente, escondendo-se atrás do florilégio de diálogos poéticos).

Mas é injusto só apontar defeitos. O ator que faz Saladino é uma presença magnética, Orlando Bloom alterna momentos “Murilo Benício” de interpretação com outros em que até faz crer que tem futuro, e o maniqueísmo evidente do filme é um maniqueísmo imparcial. Embora os maus sejam idiotas no limite da loucura e do fanatismo, os bons são nobres e respeitáveis (acho que desde os Gregos ninguém mais tem coragem de fazer heróis com atitudes humanas ou condenáveis em alguma medida), mas ao menos há exemplares dos dois tipos nos dois lados do conflito, evitando a ultrajante situação que Ridley Scott já armou em Falcão Negro em Perigo. Vai ver maniqueísmo empatado é o máximo que ele consegue em termos de imparcialisade.

As batalhas são realmente épicas, o visual e a fotografia ajudam na construção da fantasia. Na média, um bom filme, não é bom como Gladiador, mas não é de todo ruim – embora as passagens de tempo sejam muito mal delineadas, dando a entender que meses de ação ficaram concentrados e espremidos no intervalo de semanas.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: