Batman Begins bem e termina maiomeno

Eu já falei que tenho minhas implicâncias com o tão incensado Batman Begins. Agora é o momento de detalhar por quê. Em primeiro lugar, só pra deixar claro: eu gostei do filme. O que me incomodou bastante na época de seu lançamento foi a maneira até algo ingrata como esse filme era constantemente comparado com o primeiro Batman de Tim Burton – para demérito deste último. De repente, um filme que era legal e mostrava uma visão pessoal de um personagem sombrio apresentada por um dos diretores mais originais e artisticamente comprometidos da grande indústria de cinema já não era bom o bastante simplesmente porque sua abordagem não era suficientemente “fiel ao gibi” ou porque o fracote minguado Michael Keaton não era um Batman à altura. Ok, este último argumento é válido, mas de um modo ou de outro todos os elementos que fizeram de Batman o que ele é estavam lá: o crime, a loucura, o Coringa, a opressiva atmosfera gótica (o gótico nada mais é que uma maneira poética e romântica de enxergar o lado sombrio do ser humano – às vezes descamba para veadagem, e às vezes, como nos romances de Walpole ou no filme do Batman de Tim Burton, dá certo).

Em comparação, Batman Begins abraçou uma linha mais realista filiada ao suspense policial que estava na origem das tiras do morcego desenhadas por Bob Kane nos anos 1930. Uma trilha tão válida como a outra, e que tinha tudo para dar certo. O diretor já havia comprovado sua competência nesse tipo de filme com Insônia e, principalmente, Amnésia. O ator era talentoso e o elenco secundário era um grande time. As potencialidades cinematográficas do vilão Espantalho também eram muito promissoras, afinal, o sujeito que tem em seu arsenal um gás capaz de fazer uma pessoa ver seus piores pesadelos pode render seqüências oníricas muito interessantes. Manja aquele filme ridículo com a Jennifer Lopez em que ela precisa entrar nos delírios de um assassino para desvendar um crime? Pois é, algo nessa linha mas sem a história ruim (o que seria bom) e sem a bunda da J.Lo (o que não seria tão bom).

Mas por algum motivo este humilde escriba – o que é uma forma de um escriba nada humilde apresentar a si próprio num texto de opinião – não conseguiu sentir que o filme funcionou totalmente. Não foi, para mim, uma experiência cinematográfica empolgante e maravilhosa, daquelas de se sentir redimido, angustiado, empolgado na poltrona do cinema – algo que o Homem Aranha 2 conseguiu plenamente, por exemplo. É que Batman Begins parece ter comprovado uma coisa interessante: o realismo como modelo artístico pode ser uma armadila. A ascensão do modelo de romance realista como um relato detalhista, minucioso, quase científico, que abarcava o mundo e a realidade burguesa do século 19 ofereceu uma solução e um desafio tão fascinante aos criadores que terminou por virar a única possibilidade de se fazer uma ficção bem feita. E nos dias de hoje ainda se aposta nisso, mesmo quando o modelo linear de história com começo meio e fim está francamente em crise porque TODO MUNDO já escreveu algo parecido. Veja a bomba que é Tróia, por exemplo, um filme que limou os deuses da história para investir em política internacional da Antigüidade de corte realista – como se a Guerra de Tróia fosse uma Guerra do Golfo da idade do bronze. E foi uma bosta.

Também Batman Begins falha nesse ponto. A pespectiva realista adotada por Christopher Nolan é ao mesmo tempo a grande sacada e a grande fraqueza do filme. No mundo real, um sujeito sem poderes que quer usar o medo como o elemento de vantagem em uma guerra contra um inimigo numeroso talvez precise realmente de um treinamento especial – mas diacho, aquela primeira hora, muito semelhante a um filme de ninja, me cansou um pouco, e talvez o problema seja meu, mas estou de saco cheio de histórias de ninjas. Deu, passou, isso aí foi legal mesmo só no seriado aquele com o Lee Van Cleef que passava na Globo nos anos 80. Mesmo a fenomenal fase de Frank Miller à frente do Demolidor, em minha opinião, sempre teve como seu calcanhar de Aquiles aqueles ninjas absurdos do Tentáculo, as aventuras com Stick, Garra, Flecha, Rocha, sei lá mais o quê. Sem falar que agora parece que qualquer herói de cinema tem de passar por um treinamento ninja se quiser ser levado a sério – pasmem, até o novo Zorro vai nessa linha, só que sem japoneses no meio.

Quando Batman assume sua identidade sombria e sai pela noite de Gotham batendo a fuzel nos criminosos, mostrando que sua presença é, mais do que asustadora, poderosa, temos sim um momento glorioso. É o Batman que estamos vendo: sombrio, sério, uma voz gutural totalmente diversa da de Bruce Wayne – e méritos aqui para o ator, que já havia mostrado seu talento no angustiante O Operário. A “surpresa” reservada para o inimigo Ra’s Al Ghul também faz todo o sentido dentro de uma perspectiva realista, e funciona como uma das coisas mais legais do filme, mesmo quando se pensa que Ken Watanabe está perdido ali no meio.

Mas é em Ra’s al Ghul que temos o ponto fraco desse edifício verossímil finamente construído. As motivações de destruição de Ra’s Al Ghul são pífias, a ameaça representada pela Liga de Assassinos é algo que não funciona em um contexto realista, mesmo que hoje em dia tenhamos terroristas malucos por toda parte. Talvez a fidelidade extrema às motivações de Ra’s Al Ghul nos quadrinhos tenha sido um problema, mas nada me tira da cabeça que a frase Destruímos Babilônia, Roma, e agora Gotham.é uma das grandes pérolas de humor involuntário do cinema.

A oposição entre Batman e o Espantalho é mal aproveitada. De alguma forma, a inclusão do Espantalho como um capanga de Ra’s Al Ghul pulverizou uma polarização que seria interessante entre o herói e o vilão, ambos elementos que usam o medo para objetivos opostos. Batman adota a teatralidade e o medo como métodos depois de treinar com a Liga dos Assassinos de Ra’s, o que transforma o insano Johnathan Crane em um mero capanga exótico – e as seqüências de pesadelo provocadas pelo gás do medo do Espantalho são repetitivas, os vermezinhos até funcionam num primeiro momento, mas depois caem na repetição – desperdiçando um dos pretextos que um filme realista teria para voar na imaginação (como eu disse lá em cima. Ei, se é imaginação, por que não ter a bunda da Jennifer Lopez, afinal?).

Outro problema: A cena da morte dos pais de Bruce também não comove. Talvez numa tentativa de evitar a abordagem mais óbvia, Nolan faz a cena acontecer rápida, acelerada, como seria na vida real, sem luz dramática ou câmera lenta. Mas pôrra, aquele é o momento que vai dar origem ao próprio filme, então passar por ele com a mesma veolcidade que pelo resto talvez não tenha sido a melhor idéia.

Num universo como o de Batman Begins, tão influenciado por Frank Miller (veja a abordagem violenta, realista, o gangster interpretado por Tom Wilkinson, muito semelhante ao Falcone de Ano Um, a carta do Coringa na cena final), talvez Nolan pudesse ter se inspirado nas seqüências inesquecíveis desenhadas para a morte dos pais de Bruce, em Cavaleiro das Trevas.

Bom, não vou malhar o filme de ponta a ponta, apenas estou garimpando, numa espécie de arqueologia, quais foram as notas em falso que não me permitiram ser arrebatado pela melodia. Esses defeitos de Batman Begins podem ser pequenos, mas são em tal número que prejudicam a fruição do todo. Isso, mais a personagem chatinha e nada carismática criada para a namorada do Tom Cruise incomoda, arranhando as belas performances de Bale, Michael Caine, Morgan Freeman e mesmo Rutger Hauer (lembram do que eu falei sobre romances em filmes de quadrinhos ali na parte sobre o Homem Aranha? Pois é). Falta algo que faça o quadro de sutil humanidade delineado pelo filme ser transcendente. Porque é nessa humanidade transcendente que se ampara também Homem Aranha 2, mas com um roteiro tão bem sacado e tal harmonia de elementos que a comparação resulta desfavorável para o Cavaleiro das Trevas. Dentro do que se propõe, Homem Aranha cumpre o desafio com galhardia – mesmo que a abordagem seja sutilmente diversa.

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