Venda casada é o caralho, meu nome é picaretagem

Eu falei do Homem Aranha no post anterior, não foi? Isso me lembrou de outra coisa mais ou menos relacionada a disso. Lembram do álbum de figurinhas do Homem Aranha que lançaram, nos anos 80, logo que passou nos cinemas como se filme fosse o piloto daquela tenebrosa série de TV? E da enxurrada de produtos relacionados ao Batman do Tim Burton nos anos 90? Ou de como lá no início da mesma década começaram a aparecer nas prateleiras dos mercados linhas de cadernos escolares com super heróis e personagens de filmes e seriados na capa?

O apelo daquelas quinquilharias sempre foi esse, faturar um troco a mais com a ansiedade de consumo de alguém que é fã de um determinado produto cultural, oquei, estende-se.

Com a chegada dos anos 00, entramos no pantanoso terreno que alguns denominam “pós-moderno”, um termo ótimo para designar toda obra que cita outras trezentas sem respeitar nenhuma e se propondo a apresentar como novidade alguma coisa que já se fazia há cinquenta anos.

Nesses tempos de “pós-modernidade”, chegou-se ao que alguns qualificam como experiência artística de vanguarda e eu classifico como picaretagem pura e simples: a obra com venda casada, que só faz sentido depois que se consome outros produtos correlatos: o livro que vem com CD de música. O disco que é na verdade trilha pro DVD, e o filme que só faz sentido depois de se comprar a história em quadrinhos, o DVD com o desenho animado e os livros que desenvolvem a história.

O exemplo mais flagrante que me vêm à mente neste sentido é o da bomba que foram o segundo e o terceiro Matrix. Entre o primeiro e o segundo filmes, e antes do terceiro, foram lançados um jogo de videogame contando uma história imediatamente anterior à do segundo filme e uma série de animações e quadrinhos abordando o que aconteceu no mundo antes do domínio das máquinas e mostrando algumas batalhas travadas pelos humanos revolucionários. Acreditem, eu tive a oportunidade de ver tudo e não melhora nada nada o entendimento da história, que continua tão incompreensível e estapafúrdia quanto sempre foi. Mas vende-se a idéia de que isso é essencial.

A obra pioneira nesse tipo de aproveitamento de produtos correlatos é justamente aquela que abriu caminho para a exploração de produtos licenciados com a marca de um determinado filme: Guerra nas Estrelas (não me importa que o senhor Lucas tenha baixado decreto proibindo que os países em que o filme passe traduzam o título, eu me criei com esse nome em Português e acho a obediência a uma norma ditada pelo comércio ridícula). A própria medida que Lucas tomou de vedar traduções do título da saga obedece a uma necessidade de preservar a unidade da logomarca para garantir a venda dos produtos relacionados.

Guerra nas Estrelas, já depois da primeira trilogia e com muita intensidade na segunda, criou uma enorme quantidade de produtos agregados, o chamado Universo Expandido. O rótulo engloba a animação Guerras Clônicas, a literatura pulp escrita com base nos filmes oficiais e um gibi que a Ediouro começou a publicar há algum tempo e que já deve andar lá pelo número 15.

Otário que sou, comprei os três primeiros, e fui brindado com uma história que não se sustenta sozinha porque é a continuação de eventos que não estão nos filmes: Obi-Wan está obcecado por uma guerreira das trevas que deveria estar morta e que se chama Assajj Ventress, um nome que não diz nada para quem só viu os filmes – eu, por exemplo. Mas essa trama que é a base da história em quadrinhos só está disponível para o entendimento de quem tiver acesso ao material do desenho Guerras Clônicas, por exemplo.

Não que a expansão da experiência de um filme em outros projetos seja inválida de todo, o que não poderia acontecer é o que tornou a segunda série uma das experiências mais decepcionantes do cinema recente: a idéia de concentrar fatos em outras mídias, enfraquecendo no filme tramas e personagens personagens essenciais. Tomemos o tal ciborgue General Grievous como exemplo. Aparece do nada de um filme para o outro e some sem deixar vestígios depois de uma cena de perseguição alucinada e de uma troca de diálogos de fazer qualquer roteirista meia-boca de quadrinhos se sentir Shakespeare. Tudo porque sua origem e personalidade foram generalamente, ou melhor, generosamente desenvolvidas em Guerras Clônicas. Ah, você não assistiu? Por que não? Passa na TV a cabo e tem em DVD.

Outra coisa que contribui para o esvaziamento da obra ficcional como produto singular é essa idéia de “mais, mais, mais”, mostrar sempre tudo, mostrar sempre muito, não deixar margem para subentendidos e mistérios. Ouso dizer que o Wolverine era muito melhor nos quadrinhos quando não tinham contado tudo a respeito de sua origem, e que umas das coisas que mais incendiavam a imaginação de quem via a primeira trilogia era justamente o fato de não sabermos como foi a queda dos Jedis, como o Império tomou conta da galáxia, como os cavaleiros foram mortos. Superman, o novo filme, que é, como já escreveu o André, um Retorno não à Terra, mas ao primeiro filme, também cai nessa armadilha. Brian Synger resolveu contar em um gibi o período de cinco anos de ausência do Super Homem, já está nas bancas, inclusive.

Perdeu-se uma certa noção de relevância. Há coisas que não têm importância para a obra, mas isso é um conceito do tempo em que as pessoas liam, os filmes não vinham com cenas excluídas e se acreditava no poder sugestivo da imaginação.

O mundo da cultura pop sempre foi uma forma moderna de pensar o mundo contraposta à especulação intelectual, metafísica e filosófica da “Grande Arte”. Mas pelo menos havia uma âncora no real. Hoje chegamos à situação esquizofrênica na qual o mundo da cultura pop, em lugar de questionar o universo da cultura erudita, desenvolveu sua própria noção do que é erudição: a cultura pop, ela própria. É erudito pop quem conhece todos os personagens de Star Wars, viu todas as temporadas de Arquivo X, Sabe quantas vezes Spock aparece em cada episódio de Jornada nas Estrelas. Um mundo autofágico que caminha a passos largos para o autismo.

E facilita picaretas corporativos a ganhar uma grana com obsessões de sujeitos que tentam na meia idade recuperar sua infância perdida.

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2 Respostas

  1. Infelizmente essa praga tá se espalhando mesmo.
    Outro exemplo típico é a obra do medíocre Orlando Paes Filho, Angus.
    Na época do lançamento do primeiro livro parecia coisa séria, uma série se 7 livros com a visão viking das Cruzadas. A partir do terceiro virou putaria, o terceiro livro reproduz, na maior cara de pau, o segundo inteirinho com algumas páginas inéditas. A partir daí a festa rola solta, uma série de não sei quantos complementes sobre Vikings, Druidas, ec, etc, um RPG, recetemente mais uma saga de não sei quantos livros chamados Angus Saga, e a série principal se perdeu. Até DVD já lançou.
    E o pior, a qualidade é comprovadamente horrível. O livro suplemento sobre Vikings traz uma série de incorreções históricas, assim como os livros da série, essas incorreções podem ser vistas no site Necult em resenhas do Prof. Johnni Langer. (www.necult.com).
    Temos que cada vez tomar mais cuidado com esses mercenários loucos pelas nossas verdinhas que no começo parecem sérios.

  2. É verdade, Lucas, uma ótima lembrança. Eu mesmo fiz a entrevista com o Orlando Paes Filho quando saiu o primeiro volume, depois veio o segundo e eu achei que, apesar das pequenas incorreções, ao menos o cara tinha um projeto coerente.
    Aí ele saiu com o terceiro volume e essa picaretagem de reproduzir o livro anterior. Até agora deve ter leitor iludido esperando o fim da série.

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