Entalhado no sopé das montanhas ficava o enorme cubo metálico da fábrica Kansas City. Sua superfície estava corroída, salpicada de pústulas de radiação, rachada e coberta de cicatrizes, resultado de cinco anos de guerra que a haviam arrasado. A maior parte da fábrica estava enterrada sob a superfície, apenas seus estágios de entrada visíveis. O caminhão era um ponto que roncava em alta velocidade na direção da vastidão de metal negro. Naquele momento, uma abertura surgiu na superfície uniforme. O caminhão mergulhou nela e desapareceu lá dentro. A entrada fechou-se bruscamente.
– Agora só resta a maior tarefa – disse O’Neill. – Agora temos de convencê-la a encerrar suas operações. Temos de convencê-la a fechar a si mesma.

Paranóico, eu?
Ao ler o comentário do Espantalho comparando o Wall-E ao filme anterior Corrida Silenciosa (1971), de Douglas Trumbull, e com base no que eu sei por alto da trama de ambos, já que eu não assisti a nenhum deles, me veio imediatamente à memória um conto de ficção científica do visionário paranóico e genial Philip K. Dick, uma história publicada pela primeira vez em 1955 e que já trazia o mote da máquina criada pelo homem obedecendo à sua programação mesmo quando a utilidade do que está fazendo se foi.
Se em Wall-E o tom, pelo que tenho lido, é de poesia, e em Corrida Silenciosa o final é melancólico, no conto de Dick, intitulado Autofab, de onde saiu o trecho que abre este post, o tom, como sói acontecer em sua obra, é irônico e desesperador. É a história de robôs que não conseguem escapar de sua programação, e com isso podem acarretar a destruição dos humanos que deveriam proteger com seu trabalho.
No início da história, em um futuro não determinado, acompanhamos três homens que esperam a chegada de um veículo à beira de uma estrada. Quando o caminhão estaciona, sem motorista, seu compartimento de carga se inclina automaticamente e empurra para a beira da estrada parte das caixas que trazia. O trio corre e destrói freneticamente as caixas uma por uma. O caminhão, que já ensaiava a partida, pára outra vez, percebe a destruição, retorna e deposita o mesmo número de caixas na plataforma. Já que destruir as caixas não funcionou, os homens tentam devolver a carga para o caminhão, mas o veículo automático é muito mais rápido e logo descarregou o mesmo número de caixas outra vez, acompanhando impassível a movimentação dos homens. Um dos sujeitos tem uma idéia: abre um tanque de leite da carga despejada, bebe-o na frente do caminhão e o gospe com uma careta. O caminhão estende um formulário para que ele registre qual o problema que o fez rejeitar o leite e o sujeito responde que a bebida está “azorraguada”, uma palavra inventada no ato. Sem entender o conceito, o caminhão cospe outra folha de papel, na qual informa que naquele mesmo dia eles serão procurados por um representante da fábrica para discutir o problema. E dali vai embora.
A fábrica é uma construção imensa no topo de uma encosta, que abastece dezenas de vilarejos em volta, vilarejos que reúnem o que sobrou dos Estados Unidos depois da destruição da maioria das cidades em uma guerra ocorrida cinco anos antes, o Conflito Global Total. Quando do início da guerra, fábricas como aquela foram espalhadas pelo território, programadas para produzir alimentos sintéticos usando apenas trabalho mecanizado, e permanecer em atividade mesmo com a guerra em andamento. Graças a isso, o abastecimento de gêneros não se interrompeu durante o conflito, agora encerrado.
O problema é que a diretriz primária da máquina é continuar fornecendo alimentos automaticamente até que a produção humana atinja o dobro da produção da rede automática, o que é impossível porque a guerra destruiu muita coisa e tudo o que havia de maquinário está nas mãos da rede – logo, a existência da rede impossibilita a produção alternativa que seria necessária para seu desligamento, e as máquinas, prospectando recursos naturais para produzir os alimentos sintéticos que distribui, está rapidamente esgotando os recursos da região. Os homens da cidade estão, sem sucesso, tentando fazer a rede desligar a si mesma, algo que sua programação não aceita.
A solução é lançar uma ordem contraditória no sistema por meio de uma encomenda de um produto que está em falta tanto na região de Kansas quanto na de Detroit, vizinha, e, como a programação de cada fábrica não prevê cooperação e sim coleta dos elementos a todo custo, as fábricas das duas regiões começam uma guerra entre si até que terminam por destruir a si mesmas – e os humanos podem de novo assumir as ruínas das fábricas.
O final não é feliz, é claro, é irônico e denuncia um esforço inútil da humanidade em escapar das máquinas e sua programação inflexível.
Uma curiosidade. Esse conto foi publicado numa coletânea de contos chamada Paycheck, que ganhou edição no Brasil pela Record em 2005, depois da estréia do filme baseado no conto-título O Pagamento, dirigido por John Woo e com Ben Affleck e o Aaron Echart mencionado pelo Espantalho. Infelizmente, a edição do livro é porca. Capa feia, tradução apressada e erros gritantes de revisão.
O detalhe engraçado é que mais ou menos na mesma época, e pelo mesmo motivo do filme, a Editorial Presença publicou o livro lá em Portugal, com mudanças significativas de títulos, algumas mais imaginativas que o necessário.
O volume chamou-se Pago para Esquecer, o que é um “título resumo” da história, mas o conto que daria título ao livro continuou como O Pagamento. Outros títulos tiveram sorte ainda mais cômica. A cidadezinha foi traduzido em Portugal como A Nova Maqueta, sendo que o original é Small Town, e portanto a tradução brasileira está mais adequada. A Little Thing for Us, Temponauts, que aqui virou, corretamente, Uma coisinha para nós, temponautas, lá ficou como Uma condecoração especial, por cansaço (ahn?). E o conto Breakfast at Twilight, que aqui o tradutor Alexandre Raposo chamou Café da Manhã no Crepúsculo, ganhou por lá, na tradução de Saul Barata, o nome de Pequeno Almoço ao Sol-Posto.
Arquivado em: Cinema, Cultura Pop, Literatura | Etiquetado: Literatura, Paycheck, Philip K. Dick